
Volume 4 - Capítulo 401
A Virtude do Demônio
— Você quer ficar mais forte? — Eiro perguntou, olhando fundo nos olhos de Charles. Nervoso, o jovem acenou a cabeça, incerto do que Eiro lhe diria. — Então, comece a alimentar sua muda com mana todos os dias. Assim que fizer isso e houver madeira suficiente para fazer próteses para você, você terá membros que literalmente funcionarão como cajados, o que significa que você será capaz de conjurar magia usando-os. Isso por si só já é um grande avanço em comparação ao seu estado atual — comentou o Demônio. — Depois disso, em vez de praticar aqui, vá dar uma olhada nos livros de feitiços que sua escola tem a oferecer, ou apenas nos que você tem aqui no castelo e continue praticando. Aumente o nível das duas habilidades e você se tornará mais forte.
O nervosismo de Charles desapareceu após perceber que Eiro não ofereceu nenhum tipo de “método milagroso” para ficar mais forte instantaneamente. Algo assim não existia e, se existisse, Eiro também o usaria. No fim do dia, mesmo que o crescimento do Demônio fosse acelerado de forma considerável devido à sua sorte extrema na maior parte do tempo, seu crescimento real ainda vinha de fazer o básico. Praticando, aprendendo e se tornando melhor nas coisas que desejava fazer.
Ao ver que Charles ficou um tanto desapontado, Eiro suspirou.
— Não se preocupe, eu sei que você tem algo especial. O mundo não tira de você sem dar algo em retorno. Você sofreu muito por conta da sua baixíssima taxa de cura, mas isso é algo com que você nasceu. Uma condição que você possui desde o nascimento. Não é algum tipo de doença ou maldição em si, isso significava que você é mais poderoso de outra forma, para equilibrar o que lhe foi tirado com sua baixa cura. Você só precisa ser paciente até descobrir aquilo em que é bom.
— … Você tem certeza? — perguntou Charles e Eiro assentiu.
— Claro que tenho. Agora, vamos lá. Vá até os jardins e alimente sua muda antes que ela morra — disse o Diabrete enquanto se levantava e o jovem príncipe sorriu, um pouco mais tranquilo, ao sair do quarto e se dirigir para os jardins, como Eiro lhe disse.
— Pobre garoto. Você é um pedaço de merda, então tenha certeza de que mereceu perder a mão, mas um garoto como ele… — disse Bavet, ainda fundido com o Demônio e o Demônio gemeu alto ao ouvir a voz do Slime na sua orelha.
— Você sabe que posso te matar quando eu quiser, certo? Especialmente agora que podemos replicar o artefato de Ariella.
— Então, que tal sobre selo nas memórias de Solomon, hein? — perguntou Bavet, tentando mudar o tópico. Eiro revirou os olhos e respondeu:
— O que tem isso?
— Bem, nós ainda não o removemos. Ou aquele Dragão fez algo?
— Não, claro que não, Lognir não consegue abrir coisas assim. Ele conseguiria fazer com selos de níveis inferiores, mas não com um tão forte. Se as memórias de Solomon tivessem sido manipuladas, ele já teria se lembrado de tudo, mas cada selo é diferente — comentou Eiro. — Aliás, por que estou explicando isso para você? Você é o especialista em artes de selamento aqui.
— Sim, mas eu não sei como os poderes do Dragão funcionam — comentou o Slime, enquanto Eiro caminhava pelos corredores do castelo, para que pudesse sair. Apesar disso, Bavet estava certo, estava demorando demais para todos os materiais chegarem. Bavet havia concluído que alguns tipos raros eram necessários para desbloquear as memórias de Solomon, que disse que iria encomendá-las, mas Eiro não ouviu mais nada a respeito.
Para ser justo, Eiro tinha muitos outros assuntos para lidar, então não poderia ser culpado por não pensar muito nisso.
Bem, eles desbloqueariam as memórias de Solomon quando tivessem tudo o que precisavam, de qualquer forma. Por agora, Eiro tinha que se concentrar em outra coisa.
Haveria uma prova na aula de amanhã e Eiro ainda não terminou de preparar todas as questões.
—
— Eiro, pode vir aqui por um momento? — perguntou uma voz abafada e exausta do outro lado da sala. O Diabrete levantou a cabeça.
— Por que eu deveria sair? James, entre. A porta está aberta.
— … Eu não consigo… respirar… — murmurou James, curvado. Eiro resmungou algo enquanto se levantava e se aproximava da porta. O Elfo da Luz estava ali, com o rosto pálido, claramente lutando para se manter de pé.
O Demônio revirou os olhos e balançou sua cauda, acertando-a contra o plexo solar de James. Ao mesmo tempo, Eiro segurou a máscara que James vestia e a puxou enquanto inseria um pouco de magia no peito do elfo.
Assim, os pulmões de James perderam todo o ar que continham há poucos instantes. Entretanto, Eiro usou magia de vento para se certificar de que o corpo de James se acalmasse, depois colocou a máscara dele de volta.
— Melhor? — perguntou Eiro e James o encarou. Ele estava prestes a gritar de raiva, quando percebeu que, na verdade, estava bem, ao contrário das suas expectativas.
— O que você acabou de fazer?
— Eu restaurei sua respiração, só isso. Você está se esforçando demais para tentar acompanhar as mudanças da máscara, mas o que precisa fazer é tentar agir de forma casual. Respire como se não estivesse a vestindo em primeiro lugar. Agora, há mais algum problema? — perguntou o Demônio e James coçou a nuca.
— Bem, eu só queria perguntar quanto tempo você acha que temos que continuar com esse tipo de treinamento… não parece que nenhum de nós está fazendo algum progresso. Claro, a mana de Jess aumentou um pouco, assim como minha vida, mas não tanto assim — comentou James. — Isso parece inútil.
— Você vem fazendo isso há algumas semanas, o que esperava? — questionou Eiro, mas James não conseguiu se conter.
— Escuta aqui, seu babaca, eu sei que temos nossas diferenças, mas, neste ponto, pensei que éramos pelo menos camaradas em algum sentido. O quê, você quer que sejamos apenas peões com os quais pode brincar quando está entediado? De que nós servimos se não formos fortes o suficiente para matar os restos que você deixa para trás? — questionou James com um olhar profundo e Eiro cruzou os braços.
— Mais uma semana. Depois disso, darei a vocês uma explicação mais detalhada.
— Uma semana? E nesse tempo você terá adquirido mais dez habilidades lendárias e a lacuna entre nós aumentará?
Eiro olhou para James e esfregou a ponte do nariz.
— Tudo bem. Não quer esperar mais? Então, reúna Krog e Jess e espere na área de treinamento, mas lembre-se: foi você quem pediu isso, então não reclame sobre as consequências.
— Não se preocupe, não vou — respondeu James em voz clara, enquanto Eiro se virava e entrava em seu escritório. Ele terminaria de escrever as questões para a prova de amanhã antes de descer.
Enquanto fazia isso, seus três Espíritos contratados apareceram ao seu lado.
— O que você está planejando fazer agora? Você nunca contou para nenhum de nós.
— Vou continuar com a próxima parte do treinamento, assim como James queria — respondeu Eiro, bastante irritado. Nelli olhou para o Demônio.
— Eu sei que você está tentando torná-los úteis para você, mas se eles não são fortes o suficiente, por que se dá ao trabalho? Deixe-os se virarem sozinhos. Você não precisa mais deles.
Eiro soltou sua caneta e olhou para a Náiade.
— Porque, acredite ou não, eles pertencem ao meu “círculo” agora. Eu me importo com eles e não quero deixá-los para morrer. E no caso de algo dar errado no futuro, preciso de pessoas aqui para proteger as crianças.
— Não acha que elas serão capazes de se proteger por conta própria de algum modo?
— É provável, mas não quero arriscar — disse Eiro ao terminar de escrever a última questão. Então, levantou-se, caminhou até o outro lado da sala, pegou sua armadura e a vestiu. O Demônio caminhou até a janela e pulou, voando com suas asas. Logo, chegou à área de treinamento, onde os outros já o esperavam.
Eiro parou na frente deles e cruzou os braços.
— Pelo que entendi, vocês acham que estão ficando para trás?
Krog e Jess se viraram para James, que permaneceu inabalável enquanto encarava Eiro.
— Não se preocupe, não posso culpá-los. Estou crescendo em um ritmo insano. Então, iremos prosseguir para o próximo passo. Charles também me pediu uma forma de ficar mais forte o mais rápido possível hoje, mas não contei a ele sobre esse método. Porque ele ainda é uma criança, mas vocês não são. Então, me digam. Vocês acham que têm o que é preciso para fazer isso? A resposta teria sido mais clara se tivessem passado por todo o regime que preparei para vocês, mas, agora, não está tão clara.
— Só… o que você quer que a gente faça? — perguntou Jess, nervosa e Eiro balançou a cabeça.
— Eu não direi ainda. Antes disso, preciso saber… Estão preparados para dar a vida caso cometam algum erro durante o processo? Lembrem-se, consigo dizer se estão dizendo a verdade ou não.