
Volume 4 - Capítulo 400
A Virtude do Demônio
— Sinto muito, mas parece que esta conversa está se tornando um pouco prioritária no momento… — Solomon disse enquanto olhava para o primo. O outro homem só balançou a cabeça e sorriu.
— Não se preocupe com isso, Solomon. Posso dizer que isso é bastante importante… considerando que Koperia está envolvida. Além disso, já falamos sobre a maioria do que tínhamos para falar. O resto é algo que pode ser discutido em outro momento.
— Obrigado pela compreensão. Te vejo no jantar, eu presumo?
— É claro, mas, por ora, voltarei para os aposentos que foram preparados para mim — explicou o Duque Melachine para o Rei na sua frente, saindo do cômodo. Seus guardas o acompanharam; eles estavam muito tensos por conta da presença de Eiro, mas, ao mesmo tempo, relaxados por causa dos guardas reais que rondavam o prédio. Considerando que eles não fizeram nada sobre Eiro, ele não era perigoso. Pelo menos, essa era a mentalidade deles.
Uma vez que Eiro, Lognir e Solomon ficaram sozinhos, o Demônio olhou para o Rei.
— Certo, de novo. Koperia e eu cuidaremos disso. Como ainda não sou oficialmente <O Mundo>, também posso manter a Carta para mim, até que encontremos uma boa forma de mantê-la segura.
— … Que tipo de motivação essa mulher teria para auxiliá-lo nisso? — questionou Solomon, um pouco preocupado. Uma pessoa tão poderosa, que era conhecida por fazer qualquer coisa que quisesse, mesmo se isso resultasse em cidades inteiras sendo destruídas em questão de dias, ajudando alguém como Eiro? Isso não fazia sentido.
Parecia que Lognir, já que sua mente estava conectada com a de Solomon, sabia o que ele estava pensando e explicava o que achava que Eiro poderia estar pensando.
— Presumo que ela esteja fazendo isso por egoísmo, Solomon. Ouvi rumores de que ela gosta de caçar outros Necromantes ‘poderosos’ e quem mais merece o título de verdadeira encarnação da morte além dela? <A Morte> em si.
Solomon virou para seu familiar, em vez de olhar para o Diabrete na sua frente.
— Isso está certo? Ela está tentando lutar contra <A morte> por conta de seus próprios motivos egoístas?
— Até certo ponto, sim. Tenho certeza de que ela também está tentando me ajudar, já que ela e meu professor eram amigos. Caso contrário, ela poderia ter ido até a prisão e se livrado <A Morte> sozinha. Não sou páreo para ela, então também não serei de tanta ajuda para matar <A Morte>, mas ela está me dando a experiência e até mesmo a carta por matá-la. Claro, ela não está particularmente interessada em nada disso, mesmo assim, ela poderia, apesar de tudo, tomar para ela e deixar que a Carta desaparecesse — explicou Eiro.
Solomon não estava convencido, entretanto. Ele estava nervoso, pensando que poderia haver mais do que apenas isso.
— Por que Koperia está aqui em primeiro lugar? Eu sei que você pediu para Lognir espalhar rumores sobre um necromante para que ela viesse para cá. Para que você precisa dela? Certamente não é só para matar <A Morte>, certo?
Eiro suspirou de leve, pois não esperava que tivesse que falar sobre isso hoje.
— Você está certo, há uma outra razão. Sabe que eu fui criado pelo Rei dos Monstros, certo? Bem, há alguns… problemas com minha alma sobre os quais eu precisava da opinião de um especialista. E a especialista em questão era Koperia.
— Que tipo de problemas pode haver com sua alma? — Solomon questionou e Eiro se virou. Não era sua culpa e, comparado a algumas das outras coisas que fez no passado, isso também não era motivo para ficar irritado. As implicações eram horríveis, mas, no fim, não era como se as pessoas não soubessem disso.
— Eu tenho uma alma humana. Durante minha criação, o Rei dos Monstros se distraiu e um aspecto de humanidade permaneceu dentro de mim. É por isso que eu consigo controlar minha monstruosidade — explicou Eiro. Solomon arregalou os olhos, encarando o Demônio.
— Então, você está dizendo que todos os monstros do exército do Rei dos Monstros foram criados não com a alma de outros monstros, mas com a alma de pessoas?
— É possível… pelo menos uma grande parte foi, mas eu acredito que muitos ainda foram criados com almas de monstros — explicou Eiro. — Embora, no fim das contas, este Rei dos Monstros seja bastante único se comparado a muitos outros que existiram. Quero dizer, ele liderou seu exército para um lugar do qual monstros nem deveriam se aproximar.
— A cidade no lago… Ela é uma ninhada de monstros há algum tempo e nós nem sabemos se o guardião do lago ainda está vivo — murmurou Solomon. — Mas isso não é importante agora. Então, por conta de sua alma humana, você queria que Koperia viesse aqui para…
— Para ver se está tudo bem com minha alma. Eu sempre tive mana e vida muito baixas em comparação ao que meu nível, números de evoluções e status sugeriam. Agora eu sei o porquê, e, durante minha próxima evolução, Koperia vai me ajudar a consertar isso — explicou Eiro.
Agora, Solomon ficou com ainda mais suspeitas.
— Sério? O que você ofereceu para ela te ajudar?
— De novo, ela faz o que quer, não importa o que os outros lhe ofereçam. Ela só quer ver se consegue manipular a alma de alguém de uma forma tão direta — Eiro explicou para Solomon, que assentiu. — Entendo… mas pelo menos tome o máximo de cuidado possível. Essa mulher é muito perigosa.
— Eu sei, eu quase fui morto por ela na primeira vez que nos encontramos. Bem, tecnicamente eu quase fui morto por um dos Mortos-Vivos dela, mas é a mesma coisa — comentou Eiro. — Mas vamos deixar isso de lado por enquanto. Você vai nos dar acesso à prisão?
Solomon cruzou os braços por um instante.
— Certamente seria muito útil se pudéssemos usar os recursos daquele porão para outra coisa, mas você tem certeza de que pôde se livrar daquilo tão fácil?
— Bem… em questão de força, presumo que Koperia seja tão forte, se não mais, do que <A Morte> em seu poder máximo, mas como ela está enfraquecida neste momento e, considerando o fato de que tentarei usar alguma magia que possivelmente a machucará bastante, não há muito com o que se preocupar.
— Você tem razão — disse Solomon. — Certo, me dê alguns dias e eu resolverei isso. Também garantirei que ninguém os incomodará lá… apenas se certifique de encontrar uma forma de se livrar daquilo sem afetar os outros prisioneiros, tudo bem?
— Não se preocupe, isso não deve ser um problema — explicou Eiro. — Agora, onde está Charles?
— Charles? — perguntou Solomon, surpreso com a mudança súbita de tópico. — Oh, certo, por causa da madeira para suas próteses… Ele deveria estar em seu quarto no momento; ele me disse que está tentando estudar para uma de suas aulas.
— Certo, então vou visitá-lo por um momento, se não se importar. Posso ser capaz de ajudá-lo com isso, depois conversar com ele sobre alimentar adequadamente a muda com sua magia. É importante que ele faça isso de forma consistente se deseja ter próteses de alta qualidade.
Solomon acenou com a cabeça.
— É claro, vá em frente. Obrigado por fazer isso, Eiro.
— Não se preocupe com isso. De qualquer forma, eu te devo bastante.
— Oh, não se preocupe com a possibilidade de um de nós dever algo ao outro. Vamos nos ajudar quando precisarmos, certo? — sugeriu Solomon. Eiro assentiu em resposta enquanto se virava para ir em direção à porta.
— É isso que amigos fazem, não é?
—
Eiro bateu na porta de Charles e esperou por uma resposta. No instante seguinte, parecia que algo caiu no chão. Claro, ao perceber que ele poderia ter se machucado, Eiro abriu a porta. De qualquer modo, já sabia que o garoto não estava fazendo nada que gostaria de esconder.
— Você está bem? — o Demônio perguntou, vendo Charles segurando a perna. Aquela que ainda tinha, não a prótese. Ao mesmo tempo, ele tinha alguns arranhões e um pouco de sangue na mão.
— Você tentou conjurar um feitiço? — perguntou Eiro, com um suspiro e Charles olhou para cima com um sorriso irônico.
— E se eu estivesse…?
— Se você estava, então sugiro que faça isso no campo de treinamento da próxima vez, onde você não pode danificar as coisas no seu quarto. E onde as pessoas podem ajudar se você fizer algo errado — apontou Eiro, olhando ao redor. A julgar pelas marcas sutis nas paredes, assim como os arranhões na mão de Charles, isso deveria ser um ataque mágico.
— Eu não teria errado se você não tivesse me surpreendido dessa forma… — resmungou Charles, enquanto Eiro revirava os olhos e se aproximava, retirando um frasco de água purificada da sua bolsa, para que pudesse curar os ferimentos superficiais do garoto.
— Se você não consegue conjurar uma magia de ataque apenas porque alguém bateu na porta, então você simplesmente não consegue conjurar magia de ataque. Ela é do tipo que precisa ser conjurada enquanto muitas coisas estão acontecendo; você precisa se concentrar no mundo ao seu redor ao mesmo tempo que conjura seu feitiço — comentou Eiro, concentrando mana para curá-lo o máximo possível.
Como Charles não era tão responsivo à cura, demoraria muito mais para curar esses arranhões. Tanto quanto levaria para alguém se curar de um ferimento sério, possivelmente fatal.
— Agora, diga-me, o que está acontecendo?
— O que você quer dizer? — questionou Charles com um sorriso. Eiro encarou o garoto e revirou os olhos.
— Você sabe o que eu quero dizer. Primeiro, por que você está tentando praticar a conjuração de magia de ataque em segredo e, segundo, por que você está negligenciando sua muda? — questionou o Diabrete. — Eu tenho a sensação de que os motivos para ambos estão de alguma forma conectados.
Charles encarou o chão em silêncio.
— Eu… eu quero ser mais forte. Eu sempre pensei que não precisava ser por conta dos guardas comigo, mas, se eu fosse um pouco mais forte, talvez eu pudesse ter ajudado a impedir… ele. Naquela época, as pessoas olhavam para mim porque eu era o príncipe e, agora… elas olham para mim e sussurram entre si porque eu sou o aleijado que deixou seus colegas morrerem… Eu simplesmente não posso mais perder tempo…