A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 398

A Virtude do Demônio

Eiro afastou Koperia dele.

— Por favor, pare de brincar assim. Você sabe bem que eu não serei ‘seu’. Nunca — o Demônio suspirou fundo. Koperia o olhou com uma leve carranca. — Então o que mais você oferecerá pelos meus serviços?

— Seus… serviços?

— Sim, ‘serviços’. Ajudar sua alma a assumir um formato adequado durante sua próxima evolução… evolução lendária. Certamente ela pode ser poderosa o suficiente para se adaptar de forma natural, mas, ao mesmo tempo, isso pode não acontecer. Entretanto, essa será nossa melhor chance de moldar sua alma, de repará-la. Que tal eu ficar por perto e, quando for a hora da sua próxima evolução, você me deixar ajudar um pouco? — a Rainha dos Mortos-Vivos perguntou. Eiro virou para Armodeus, que exibia uma carranca nervosa.

— Rapaz, ela está certa. É a sua melhor aposta. O atual Rei dos Monstros é o mais poderoso que já existiu. Pulando de se tornar um ‘Nobre’, tornando-se imediatamente Rei. Você sabe disso. Se quer continuar com seus planos, vai precisar de todo o poder que conseguir — o Anão Ancião apontou e Eiro acenou a cabeça.

— Sim, é muito arriscado não tirar proveito disso… — Eiro murmurou e depois olhou para Koperia. — Antes que eu faça a oferta… você ainda conta como uma ‘pessoa’, certo? Não sei o que uma magia no seu grau pode fazer com o corpo de alguém, mas…

— Claro que ainda sou uma pessoa. Eu nunca deixaria que minha própria magia me transformasse em algum tipo de monstro. Apenas os vivos podem controlar os mortos — ela explicou sem pestanejar e Eiro cruzou os braços, reflexivo.

— Então eu tenho um acordo que pode ajudar nós dois… eu sei a localização de <A Morte>. Como estou ciente de que você gosta de colher ‘técnicas’ de necromantes poderosos, talvez você queira fazer isso com essa criatura. Em troca, quero que deixe a carta <A Morte> para mim.

— Rapaz, mas… — Armodeus comentou surpreso. — Você já possui a Carta de <O Mundo>, para que você precisa de <A Morte>?

— Quero ter certeza de que mais ninguém a conseguirá. Assim que eu matar <O Diabo>, também irei manter sua Carta. Ainda preciso descobrir uma boa forma de mantê-las comigo de forma segura, mas quero enfraquecer o exército do Rei dos Monstros o máximo possível. Depois de dizer que quero me livrar do Rei dos Monstros para sempre, não posso deixar que a morte encarnada vague neste mundo de forma descontrolada — disse o Demônio.

Koperia olhou para ele com uma expressão curiosa e começou a caminhar pela sala, pensativa.

— Interessante. Feitiços e técnicas tirados de um nobre. Interessante — ela sorriu de leve. — Como eu disse mais cedo, não tenho o mínimo interesse em coisas como cartas, então você pode mantê-las para você, mas para isso acontecer, você deve ser o único a matá-la, não é mesmo?

Eiro sorriu e assentiu.

— Sim, esse também é outro benefício que eu ganharei: muitos níveis por matar mais um Nobre.

— Fico feliz que seja honesto sobre isso, mas quero que seja honesto com mais uma coisa. Você também já usou Necromancia antes, né?

Eiro levantou as sobrancelhas, surpreso.

— Você consegue dizer? — questionou ele. De imediato, Koperia acenou a cabeça.

— Claro que consigo. Qualquer magia usada está impregnada na mana do portador. Aqueles com habilidade suficiente podem dizer até mesmo os feitiços exatos, mas já faz um tempo para você, então isso não parece mais possível.

— Eu criei dois Fogos-Fátuos usando a alma de dois jovens aventureiros que eu matei — Eiro explicou. — Por sorte, as almas ainda estavam lá e li alguns livros sobre Mortos-Vivos do tipo fantasma. Eles são o único tipo que consegue manter sua alma até certo ponto. E o feitiço que conjurei os tornou independentes de mim.

— Oh? Nem todos conseguem fazer isso na primeira vez que conjuram um feitiço de morte. Você também parece bastante habilidoso ao conjurar magia — disse Koperia com curiosidade. — Mas há mais um detalhe sobre o qual me pergunto… essa foi a única vez que você usou necromancia, não foi?

— Sim, foi… por quê? — Eiro questionou, já ciente do que Koperia diria a seguir. Logo, percebeu que ela perguntaria algo que ele não queria ouvir. Koperia sorriu enquanto olhava nos olhos do Demônio.

— Por que há um Morto-Vivo vagando nesta casa, então?

Eiro a encarou, caminhando até a porta.

— Isso não é da sua conta. Ela não é da sua conta.

— Oh? Para alguém que nem conseguiu lutar contra uma das minhas bonecas, você está agindo um pouco demais, como se pudesse me impedir — Koperia comentou e Eiro resmungou alto.

— Então, deixe-me falar isso de outra forma. Koperia, por favor, não mexa com ela. Ela é uma boa garota, certo? Eu tenho algum tipo de contramedida, se não percebeu — disse o Demônio, olhando para a fina camada do líquido do Ás de Copas envolvendo as paredes.

— Se eu precisar, vou te matar por qualquer meio necessário — Eiro disse sem rodeios e Koperia começou a gargalhar.

— Não se preocupe, sou louca, mas não sou uma psicopata — ela respondeu com um sorriso. — Quero que você seja parte da minha coleção, mas você disse que não quer. E como você parece ser um bom garoto, permitirei que viva um pouco mais.

Eiro olhou em silêncio para Armodeus, que acenou a cabeça.

— Sim, rapaz, você acha que Jura seria amigo de alguém que mata os outros indiscriminadamente? Se esse fosse o caso, tanto eu como Jura já estaríamos mortos há muito tempo.

— Huh… acho que isso… faz sentido — Eiro respondeu e olhou para Koperia. — Certo. Se puder prometer que não fará nada com ela, eu te apresento a ela mais tarde… você pode me ajudar a entendê-la, de qualquer modo.

Eiro se virou e abriu a porta, revelando a jovem encapuzada parada ali. E atrás dela estava Ariella, tão curiosa quanto Hannah sobre o que acontecia nesta sala. Elas haviam notado que alguém poderoso havia entrado no prédio, afinal.

— Entrem — disse Eiro, bastante nervoso, mas como sabia que Koperia disse a verdade o tempo todo, sem contar uma única mentira durante todo o tempo em que falou, Eiro pensou que estava tudo bem deixar que Koperia conhecesse Hannah. Como Ariella não deixaria que Hannah conhecesse alguém assim sozinha, Eiro puxou as duas e não apenas a Morta-Viva, para a sala.

— Estas são Ariella e Hannah. Hannah é a Morta-Viva — Eiro disse sem rodeios, enquanto ambas as garotas estavam congeladas na frente de Koperia. Principalmente porque Koperia estava as pressionando para que pudesse dar uma boa olhada nelas.

— Por favor, pare com isso, elas são minhas convidadas — Eiro suspirou. A Rainha dos Mortos-Vivos revirou os olhos.

— Tudo bem. Você não é divertido, sabia?

— Já me disseram isso — o Demônio respondeu sem pestanejar e Koperia olhou para Hannah mais de perto, mas tudo o que ela conseguia ‘ver’ era uma jovem. Afinal, Eiro havia a coberto com peles protéticas e o artefato artificial criado por Armodeus foi colocado em seu peito. Desse modo, seu disfarce era quase perfeito. Ela parecia estar viva! Mas ainda era muda, já que Eiro ainda não havia terminado a prótese da laringe, mas, em questão de aparência, ela era como uma garota humana normal.

Entretanto, ao mesmo tempo, Koperia era capaz de ver algo além da pele falsa. Conseguia ver que Hannah era uma Morta-Viva, mas também conseguia discernir que ela tinha uma alma e, até mesmo, Força Vital.

— Que… intrigante. Garota, o seu status é completo, como se estivesse viva? Não apenas o status limitado que os Mortos-Vivos possuem? — Koperia questionou, curiosa. Hannah virou a cabeça para olhar para Eiro, que acenou com a cabeça.

Assim, a garota voltou para Koperia e assentiu, tentando transmitir a palavra ‘sim’ com seus lábios falsos.

Koperia entendeu a mensagem e não pôde deixar de sorrir.

— Como isso é possível? Você é uma pura contradição! A encarnação da contradição! Uma Morta-Viva com Força Vital! Maravilhoso! — os batimentos de Koperia aceleraram e Eiro percebeu que ela estava ficando um pouco animada demais com o corpo de uma garota de 14 anos.

— Koperia, concentre-se, por favor. É por causa da habilidade única que ela tem, mas agora estou me perguntando, ao considerar que ela possui Força Vital e uma alma intacta, poderia ser possível que ela-

— Oh, você quer saber se ela pode ser ressuscitada? Claro que não. Ela nem está morta em primeiro lugar. Ela é uma Morta-Viva viva. Ela é a única Un-dead de verdade de verdade que já vi na minha longa vida — explicou Koperia, olhando nos olhos falsos de Hannah. — Mas não se preocupe, criança. Você possui um grande talento para a arte da necromancia. Como você não está morta, nem viva, você pode acessar ambas as metades da existência igualmente — Koperia explicou. — Exceto se você quiser se oferecer e se tornar parte da minha coleção… eu poderia te ajudar mui-

— Koperia, pare com isso — Eiro resmungou e a Rainha dos Mortos-Vivos virou a cabeça e sorriu de volta para o Demônio.

— Valia a pena tentar, não valia?

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