A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 397

A Virtude do Demônio

— Cuidado com a cabeça — Eiro disse para Koperia enquanto subia por uma das passagens que levariam para o porão, perto de onde Armodeus montou sua oficina.

— E por que não estamos usando a entrada principal? — ela perguntou. Eiro se virou e disse sem pestanejar. — Porque eu não quero que você conheça minhas crianças.

— Isso é meio rude, não é? — Koperia respondeu. — Eu nunca faria nada com crianças, mesmo que sejam Demônios.

— Bom, mas minhas crianças não são Demônio e é por isso que não quero que você as conheça — explicou Eiro. Parecia que Koperia estava de fato bastante curiosa, entretanto ela não teve muita oportunidade de perguntar a Eiro o que ele queria dizer antes de encontraram Armodeus, tirando uma pausa na frente da porta da sua oficina.

O Anão Ancião encarou a mulher logo atrás de Eiro e derrubou o copo de água que segurava. Claro, Eiro o pegou antes que acertasse o chão.

— O que você está fazendo?

— Eu só… eu… hum… — Armodeus murmurou, encarando a Rainha dos Mortos-Vivos que agora estava na sua frente. — V-Você está aqui de verdade, né?

— Não sou uma ilusão, pelo menos. O Demônio me atraiu até aqui com os rumores que ele inventou. Bem, meio inventados, se é que se pode acreditar que há um Morto-Vivo poderoso preso perto daqui — Koperia comentou e se aproximou de Armodeus. — Então, que tal? Você finalmente decidiu se juntar à minha coleção?

O rosto de Armodeus transicionou de seu rosto atordoado para uma careta irritada.

— Há! Como se fosse! Já te disse um milhão de vezes, não vou me tornar um dos seus Mortos-Vivos imundos! — assim que Armodeus disse isso, ele olhou ao redor e Eiro balançou a cabeça.

— Não se preocupe, ela está muito longe para te escutar.

Armodeus suspirou fundo de alívio.

— Oh, obrigado, rapaz. E agora para você. Não se meta com ninguém nesta casa, tudo bem? Elas são boas pessoa — o Anão Ancião disse, para se certificar de que Koperia não fizesse nada que não pudesse ser desfeito.

— Ahh… Tude bem, tudo bem. Agora, vamos lá, não quer me contar sobre o problema com sua alma?

— Claro. Armodeus, você se importa se fizermos isso na sua oficina? — o Demônio perguntou, e o Anão assentiu.

— Claro que não me importo, entre! Esta é a sua casa em primeiro lugar, rapaz!

— Falando nisso, como um Demônio conseguiu pôr as mãos em um lugar como esse?

— Haha, o rapaz tem alguns contatos únicos. Como deveria ser bastante óbvio, já que nós dois estamos aqui — Armodeus disse, deixando assim por ora. Enquanto isso, Eiro retirou o Ás de Copas e envolveu as paredes da sala com uma fina camada do líquido, certificando-se de que ninguém do lado de fora conseguisse escutar o que diziam, independentemente da magia que usassem.

— Oh, que intrigante. Você tem uma Carta divina, hein?

— Estou mais surpreso que você não tenha — respondeu Eiro, mas Koperia balançou a cabeça enquanto se sentava em uma das cadeiras.

— Prefiro não ter um poder concedido a mim. Prefiro tomá-lo à força — ela explicou.

— Claro que sim… — Eiro suspirou. — De qualquer modo, podemos falar agora. Deixe-me te atualizar.

Assim, Eiro contou a Koperia sobre as coisas mais importantes que ela precisava saber. Concentrando-se principalmente no fato de ter sido criado pelo atual Rei dos Monstros.

— Como pode ver, agora chegamos à parte em que eu gostaria da sua ajuda. A alma que o Rei dos Monstros usou para me criar era de um humano. Ele cometeu um erro ao me criar, o que presumo ser o motivo pelo qual ainda tenho um aspecto de humanidade dentro de mim — Eiro explicou a Koperia, que segurava a mão na frente da boca, incapaz de parar de sorrir devido ao seu entusiasmo.

— Um Demônio com a alma de um humano, você diz? — devagar, Koperia moveu a mão na direção do peito de Eiro depois de se levantar. Ela colocou os dedos na frente do coração dele. O Diabrete não tinha certeza do que estava acontecendo, só sabia que estava paralisado. Logo, os dedos de Koperia se afundaram na pele de Eiro, como se desaparecessem dentro da carne dele, mas isso não o machucou nem sangrou. Como se ela não estivesse tocando o corpo físico dele.

Então, com um movimento rápido, ela puxou lado de dentro de Eiro. Devagar, o Demônio baixou sua cabeça, vendo uma massa prateada e translucida saindo de seu peito. De imediato, Armodeus gritou.

— Koperia, o que você está fazendo?!

A Rainha dos Mortos-Vivos revirou os olhos.

— Não se preocupe, só estou fazendo uma ‘cópia’ da alma dele. Não vou retirar a alma real dele.

Desse modo, com mais um puxão, Koperia retirou a massa do corpo de Eiro enquanto as pernas do Demônio fraquejavam por um instante, como se de repente perdesse toda a força por um segundo. Por sorte, ele ainda conseguiu se equilibrar.

— Hein? Que interessante. A maioria das pessoas fica inconsciente quando sua alma é tocada assim — Koperia sorriu, olhando para a esfera prateada flutuando acima de sua mão. — Para copiá-la, eu ainda tive que tocar um pouco na sua alma real. Entretanto, estou feliz que você esteja acordado, isso nos poupa algum tempo.

Koperia prosseguiu estalando o dedo e, logo, a esfera prateada cresceu em massa e flutuou bem na frente de Eiro. Ela começou a explicar.

— Agora, para deixar claro, tudo o que foi copiado foi o formato da alma. Isso é incapaz de substituir uma alma real, mesmo eu não consigo criar algo do tipo do nada.

Alguns instantes depois, o que estava diante de Eiro era algo que possuía o mesmo formato que ele, seu corpo nu pelo menos. Eiro olhou para onde estava a mão direita da alma. As paredes daquela alma haviam se quebrado, de forma irreparável, mas ainda flutuavam grosseiramente no formato de uma mão. Esse era um dos motivos pelos quais era possível criar próteses assim. A alma ainda estava no formato certo, só era impossível curar ferimentos desse tipo devido à deterioração da alma nestes lugares. Era o mesmo motivo pelo qual as pessoas com frequência ficavam com cicatrizes ao se curarem de ferimentos fatais.

Mas, claro, Koperia não criou essa cópia apara que Eiro pudesse dar uma boa olhada em sua mão. Na verdade, ele deveria ver a ‘incompatibilidade’ que ela mencionou mais cedo.

— Ali, você consegue ver também, certo? A forma que sua alma está assumindo e então sua forma real — disse Koperia e Eiro acenou com a cabeça. Havia uma alma humanoide simples dentro da alma total de Eiro. E ela parecia com um humano, como uma versão mais bonita da aparência atual de Eiro. E todo o resto, como os chifres, cauda ou asas de Eiro, estavam sobrepostas à esta ‘base’.

— Essa era a aparência do humano que eu costumava ser, não é? — Eiro perguntou e a Rainha dos Mortos-Vivos assentiu.

— Deveria ser justo presumir isso. Não é como se eu visse algo assim com frequência. Parece que com cada evolução, você está se aproximando do formato original da sua alma. É claro, com a exceção dessas partes adicionais que apareceram por toda parte, mas deve ser impossível para sua alma assumir sua verdadeira forma através das evoluções.

— … Mesmo que minha próxima evolução seja uma Evolução Lendária? — questionou Eiro e a Rainha dos Mortos-vivos o encarou.

— Você acabou de dizer ‘Lendária’…?

— Sim. Tenho uma habilidade Lendária, chamada <Demônio Supremo>. Será que minha alma poderia… se consertar sozinha? — Eiro perguntou e Koperia curou os braços.

— De fato, é possível que isso ocorra, mas eu não contaria com você se tornando um humano de novo, sinto muito.

— Por que está se desculpando? Eu não quero ser um humano — Eiro suspirou. — Estou bastante feliz como um Demônio, entende? Minha pergunta era mais a respeito o fato de que… eu deveria ter mais mana e vida do que tenho agora.

— Mais mana…? — perguntou Koperia. — Bem, quão alto estão?

— Vida, cerca de 150 mil. Mana, cerca de 350 mil — Eiro respondeu sem rodeios. Armodeus e Koperia arregalaram os olhos, surpresos.

— Você está dizendo que esses números são baixos?

— Considerando que eu passei por várias evoluções únicas, cada uma construída em direção ao conhecimento ou a magia de alguma forma e que minha sabedoria está acima de 300, eu esperava ter uma mana um pouco maior, sim.

Koperia olhou para a cópia da alma parada no centro da sala.

— Considerando isso… eu diria que essa quantidade de mana é bastante baixa… certamente é possível que a razão para isso seja sua alma incompatível. A mana é criada na alma, afinal. Isso também pode ter efeitos em sua Força Vital, já que o corpo é formado à imagem da sua alma — confirmou Koperia. — Então, você está dizendo que quer que sua alma se torne ‘completa’ durante sua próxima evolução?

— Sim, como eu preciso do máximo de poder possível, isso seria muito útil.

— Para que você precisa desse poder? Quem, ou o que, você está tentando matar? — a Rainha dos Mortos-Vivos perguntou, bem intrigada e Eiro cruzou os braços.

— Após minha próxima evolução, terei o poder para me tornar <O Mundo>, desde que a Carta já está em minha posse. Então, matarei <O Diabo> e tomarei uma certa Carta divina dele, a qual usarei para roubar o aspecto que torna o Herói atual o verdadeiro Herói de sua alma, antes de matar o Rei dos Monstros também. O que significa que preciso do máximo de poder que meu corpo suporta.

Koperia permaneceu em silêncio por alguns segundos e passou pela alma. Ela colocou a mão na bochecha de Eiro, mais uma vez chegando assustadoramente perto de encostarem seus lábios.

— Tem certeza de que não desejar fazer parte da minha coleção? Eu te trataria muito bem, sabia?

Por alguns instantes, Eiro permaneceu em silêncio. Não porque estava considerando isso, mas porque tinha que pensar em uma forma de sair desta situação.

— Ah… desculpa, não acho que o Rei e as Rainhas dos Espíritos que me abençoaram gostariam disso.

— Com licença? — questionou Koperia. — Você recebeu bênçãos?

— Sim, do Rei das Salamandras, da Antiga Rainha das Náiades e da Dama do Inverno. Eu também possuo uma conexão direta com o plano de fogo dentro de mim, então se você tentar fazer algo como me roubar, o Rei das Salamandras pode vir e te impedir — Eiro blefou. Claro que o que disse era verdade, com exceção da última parte. O Rei das Salamandras não se importava em nada se Eiro vivia ou não, ele só interferiria se algo acontecesse com Sarius, mas, por sorte, isso foi suficiente para Koperia recuar. Ela deu um passo para trás e olhou para o chão

Mas então, Eiro percebeu que ela estava sorrindo.

— Ah… — ela quase gemeu, colocando as mãos no rosto e na garganta. — Isso só me faz te querer ainda mais, querido!

Comentários