
Volume 4 - Capítulo 396
A Virtude do Demônio
Eiro respirou fundo e olhou para a neve na frente de seus pés. Era a terceira noite seguida que ele passava aqui, tentando fortalecer a energia que a pedra mágica de morte emitia para atrair alguém.
Na maioria do tempo, aqueles que vieram foram só Caçadores de Mortos-Vivos fracos, que logo foram adicionados à coleção de corpos sob o gelo, mas estava ficando um pouco chato, desde que não podia fazer nada. Ele não queria se tornar um dos alvos de Eliza Koperia, afinal, então tinha que estar ciente do que acontecia nos arredores o tempo todo. Ele não poderia brincar com alguém que possuía uma habilidade no grau Mestre.
Entretanto, como era cerca de 4 da manhã, Eiro começou a voltar para casa e se preparar para as aulas que lecionaria hoje. Ele se alongou um pouco e estalou os dedos, abrindo lentamente as asas.
Mais uma vez, Eiro checou os arredores. Não havia nada de interesse ao redor. Uma pilha de neve à sua esquerda, um corvo no galho à sua direita, uma figura encapuzada a apenas alguns metros atrás dele e, por último, um pinheiro bem na sua frente.
Nada interessante.
— Ah… merda… — Eiro resmungou alto enquanto, sem hesitar, estalava os dedos. Com a ajuda de Sarius, criou uma esfera bastante densa e brilhante de chamas atrás do pinheiro antes de mergulhar nas sombras criadas por isso. No instante seguinte, Eiro já se encontrava atrás da figura encapuzada.
Saiu das sombras e tentou atacá-la, mas, neste ponto, a coisa já havia desviado. Eiro sorriu, embora sua mente estivesse em desordem. Ele não conseguia ver o que estava além do vazio negro criado pelo capuz. Algo que nunca aconteceu antes. Isso deixou Eiro horrorizado, mas animado ao mesmo tempo.
— Agora me diga, o que é você? — perguntou Eiro com um sorriso e a figura encapuzada continuou parada. Com um movimento anormal do seu corpo, ela balançou o braço direito para o lado. O espaço em si parecia mudar, como se alguém cortasse uma imagem em duas e afastasse lentamente uma parte da outra.
Com tudo o que tinha em seu arsenal, Eiro se protegeu. Ele endureceu sua pele muitas vezes na área em que o corte atingiria e tentou se proteger ao imbuir sua vontade no caos ao seu redor. Além disso, Eiro até tentou desacelerar o tempo com o pouco que restava no anel que carregava com ele.
Entretanto, nada disso funcionou. O espaço em si ainda foi dividido e Eiro sentiu sangue quente escorrendo sob sua armadura. A armadura em si permanecia intacta. O corte acertou apenas sua pele.
Se ele tentasse lutar contra essa criatura, então o resultado era mais do que claro. Eiro morreria. Era uma sensação semelhante à quando encontrou aquele corvo na montanha em que os Orcs costumavam viver.
— … Corvo…? — murmurou Eiro e virou a cabeça para o lado. Não havia como, certo? Aquele corvo voltou e trouxe um companheiro para matá-lo? Medo começou a brotar dentro do seu peito. O coração de Eiro começou a acelerar até que encontrou o corvo que viu há alguns segundos.
Agora que deu uma boa olhada nele… Era apenas um corvo normal, só que seus olhos estavam vazios. Seu corpo estava meio apodrecido e havia algumas marcas de mordida em seu corpo de quando um lobo o matou. Este corvo era um Morto-Vivo. Como Eiro não percebeu tudo isso antes?
Neste instante, seu medo se transformou em excitação.
— Ah… Haha… Então, é você, hein? É um prazer conhecê-la, Koperia! — o Demônio gritou de êxtase, logo antes de sentir um toque frio em seu ombro.
— Oh, você sabe quem eu sou? Acho que sou um pouco famosa, hein? — uma voz sedutora sussurrou na orelha de Eiro, que acabou de perceber a mulher atrás dele. Entretanto, a figura encapuzada ainda não estava muito longe. O que significava que ele não estava lutando contra Koperia…? — Você fez bem em não morrer contra o ataque daquele fantoche. É um dos meus favoritos, sabia? — a mulher disse enquanto andava casualmente ao redor de Eiro. Ao mesmo tempo, o corpo da figura encapuzada foi envolto em chamas negras e desapareceu.
— Eu só estava… lutando contra um dos seus Mortos-Vivos…? — o Demônio murmurou. Fazia um tempo desde que se sentia assim.
Eiro já conhecia duas pessoas com habilidades de grau Mestre. Jura e Armodeus. Entretanto, suas habilidades eram voltadas para a criação, enquanto a habilidade desta mulher era voltada para a pura destruição. O Demônio sentia o toque frio de Koperia. A pele dela era tão fria como um cadáver, mas, por algum motivo, parecia muito mais fria do que isso.
Koperia se inclinou devagar na direção de Eiro.
— Acho que você será um bom brinquedo… faz algum tempo desde que eu tive um demônio como você — ela empurrou o rosto na direção de Eiro, como se estivesse prestes a beijá-lo, e ela parou logo antes de fazer contato e começou a falar baixinho.
Mas antes que ela pudesse terminar sua primeira palavra, o Diabrete falou:
— Eu fui criado por Jura!
Por alguns segundos, foi como se tudo tivesse parado e se arrastado por um tempo infinitamente longo. Tanto que Eiro se perguntou se havia ou não ativado o anel de parar o tempo de novo.
— Jura, você diz? Faz um tempo que eu não ouço esse nome… você possui algo que comprove sua afirmação? — perguntou Koperia e Eiro levantou a mão direita. — Dê uma olhada…
A mulher virou a cabeça para o lado enquanto dava um passo para trás e logo viu a mão de madeira do Demônio.
— Embora isso não seja o trabalho de Jura… é muito familiar.
Koperia virou-se e se afastou, para que Eiro pudesse vê-la melhor. Sua pele era quase tão branca como a neve em que estava, mas, apesar do clima, ela usava roupas bastante reveladoras, como se o frio não a incomodasse em nada. Seu cabelo longo e negro como breu parecia prestes a atrair Eiro, se ele os olhasse por mais um instante e tanto seus olhos quanto lábios pareciam tocados por sangue fresco.
Ela tinha um certo tipo de vivacidade em seus movimentos quando caminhava, mas, embora estivesse parada, parecia que Eiro olhava para alguém que tinha acabado de falecer.
— Ele… ele me ensinou… não sou nem de perto tão habilidoso como ele era, mas não vou parar de trabalhar até que eu seja… — o Demônio explicou para Koperia. Ela olhou para Eiro e o coração do Demônio continuou acelerando.
— Pela sua escolha de palavras… parece que ele morreu?
Eiro olhou para o chão e assentiu.
— Há mais de um ano. Eu dei a ele o enterro que ele queria, não se preocupe.
Koperia permaneceu em silêncio por um instante. Por uma fração de segundo, pareceu que ela exibiu uma expressão amarga, mas isso sumiu no instante seguinte.
— Ahh… que pena, ele teria sido um óti-
— Se você ousar terminar essa frase, eu te mato — Eiro rugiu, embora todos os seus instintos lhe dissessem que morreria antes mesmo de sacar sua arma.
Koperia virou a cabeça.
— Peço desculpas, isso pode ter sido um pouco insensível. Agora, diga-me, por que você está brincando aqui com uma magia que nem é sua?
— Para atrair você — Eiro disse sem rodeios e Koperia o encarou com curiosidade.
— Para me atrair? Está dizendo que você é o necromante dos rumores?
— Não, esse necromante é inventado. Há um ‘Lich’ poderoso perto desta cidade, mas esse não é o tipo de necromante que você procura, é? — Eiro comentou. Koperia virou a cabeça para Eiro e franziu o cenho com suspeita.
— Está tentando me dizer que você inventou aquele necromante, apenas para ter a chance de me conhecer? Você é um fã dedicado, não é?
O Diabrete a encarou e nem tinha energia para responder.
— Eu preciso da sua ajuda com algo, eu…
— Você possui uma alma que não combina com sua raça, não é? — Koperia perguntou. — Sim, consigo dizer que é uma combinação muito ruim, mas você tem se saído muito bem apesar disso.
— Você pode perceber só de olhar para mim…?
— Claro, quem você pensa que eu sou? Se eu não conseguisse fazer nem isso, seria difícil me chamar de ‘Rainha dos Mortos-Vivos’, não seria? Mas isso é tudo? Posso te matar e pegar o seu corpo agora?
Eiro sorriu um pouco.
— Se você quisesse mesmo fazer isso, eu já estaria morto, certo? Venha até minha casa, tenho certeza de que Armodeus adoraria te ver de novo.
— Hein? Armodeus também está aqui? Que inesperado… antigamente, aquele homem nunca saía de sua oficina — disse Koperia com uma voz maravilhosa. — Muito bem, ouvirei seus pedidos em mais detalhes depois, assim que eu confirmar que está falando a verdade. Agora, siga-me.
— … Não deveria ser eu a liderar o caminho até minha casa? — perguntou Eiro com um sorriso sarcástico.