
Volume 4 - Capítulo 395
A Virtude do Demônio
— Quem você quer dizer com ‘ela’? — Eiro perguntou graças aos seus instintos. Entretanto, o Duque Melachine estava preocupado com outra coisa.
— Você está brincando? Eu acabei de descobrir como meu filho é e você quer perguntar sobre uma pessoa sem qualquer relação com esta situação?
— Sim. Nós podemos fazer o seu filho sair, se quiser, só o curarei antes disso.
— Claro que não! Não deixarei que meu filho saia da minha visão enquanto estou aqui! — o Duque exclamou, mas Richard olhou para seu pai, perplexo.
— O que você está dizendo, pai? Você acredita mesmo nesses dois? Eles se juntaram para acabar com a gente, não está óbvio?!
— Não, não está ‘óbvio’, Richard! Agora, pare com suas mentiras e assume logo seus erros de uma vez — o pai disse ao filho. Esta era a primeira vez que Eiro percebia os batimentos de Richard acelerarem, e de raiva. Com um leve suspiro, Eiro estalou os dedos e fez Nelli aparecer. Ele curou os ferimentos que o garoto havia infligido a si mesmo para esta reunião, para deixar claro que havia acabado para ele.
— Isso é ridículo, como você pode acreditar nesses dois bandidos e não em mim?! — Richard se levantou com raiva, antes que Eiro terminasse de curá-lo. Correu em direção à porta e saiu da sala. O Duque Melachine também se levantou, tentando ir atrás do seu filho, mas o Demônio parou entre o Duque e a porta.
— Não precisa disso. Se ele fizer qualquer coisa estúpida neste momento, eu saberei. Minha percepção está focada nele, então não há lugar nesta escola aonde ele possa ir sem que eu não perceba — Eiro explicou. O Duque o encarou, como se ele fosse louco, mas Lognir sorriu e confirmou.
— Isso é verdade.
— O quê? Como isso é possível? — o Duque questionou e Eiro sorriu.
— Isso é um segredo, mas, mais importante, você por acaso estava falando de Eliza Koperia quando se referiu a ‘ela’?
O corpo do Duque ficou rígido enquanto dava um passo para trás, afastando-se de Eiro.
— Como você sabe disso? Você conhece aquela mulher miserável?
Eiro sentiu uma bolha inacreditável surgir dentro do seu peito enquanto encarava o Duque.
— Foi apenas um palpite de sorte. Só um palpite sortudo — Eiro sorriu. — Mas eu tendo a ter sorte de qualquer forma. Agora, me diga, onde ela está agora? Você disse que teve que lidar com ela?
O Duque encarou Eiro em silêncio. Então, Eiro retirou um certo broche de sua Tesouraria.
— Não se preocupe, fale comigo como faria com Solomon.
— Como você tem isso…? Espera, você é o homem sobre quem meu primo enviou cartas? O candidato pessoal dele para o torneio para escolher o companheiro do Herói? — o Duque perguntou. Eiro assentiu sem hesitar.
— Esse sou eu. Então? Pode me contar o que a Rainha dos Mortos-Vivos está tramando?
O Duque Melachine tentou organizar seus pensamentos enquanto respirava fundo.
— Tudo bem. Atualmente ela está a caminho daqui. Eu tive que lidar com ela quando ela estava na capital do meu ducado, para impedi-la de ressuscitar todos no cemitério.
— Ah… então, ela é esse tipo de pessoa? — Eiro perguntou com um sorriso e o Duque balançou a cabeça.
— Ela não fez isso só por tédio. Ela queria levar os Mortos-Vivos com ela para se livrar dos ‘Caçadores de Mortos-Vivos’ que também estão a caminho daqui.
Eiro se virou com um sorriso no rosto. O Duque estava, sem saber, dizendo que a culpa era de Eiro pelo que ela fez no cemitério. O Diabrete suspirou fundo, esperando que a Rainha dos Mortos-Vivos não causasse mais danos durante seu caminho até aqui. Por sorte, o ducado do Duque Melachine ficava na direção oposta da vila dos monstros onde Eiro deixou Gobo, então ele não precisava se preocupar com aqueles caras pelo menos.
— Se ela estava a caminho antes mesmo de você sair, ela já não deveria estar aqui? — Eiro questionou com uma leve carranca. O Duque assentiu.
— Sim, mas ela provavelmente encontrou algo mais que a interessou durante o caminho. Eu sabia que precisava vir aqui o mais rápido possível, então não me distraí, mas Eliza Koperia é muito diferente nesse aspecto. Ela se distrai com facilidade quando encontra algo que a interessa.
— É mesmo? — Eiro perguntou. — Mas espera, como você conseguiu interagir com ela dessa forma? Eu pensei que ela fosse contra interagir com os vivos.
— Normalmente sim, mas a minha família já teve alguma história com ela. Meu bisavô foi de grande ajuda para ela, ao que parece.
— Bisavô? Ela não é humana? — Eiro questionou, surpreso com a aparente idade de Koperia.
— Claro que ela é, mas ela também não é. Devido ao seu controle sobre a morte, é como se a própria morte a rejeitasse. Foi isso que eu ouvi pelo menos. Ela parou de envelhecer há muito tempo — Duque explicou. Eiro olhou para Lognir, que acenou para assegurá-lo de que o Duque dizia a verdade.
— Bem, ela possui Magia de Morte no grau Mestre… — Eiro murmurou. Surpreso de ouvir isso do homem na sua frente, o Duque o encarou.
— Grau Mestre? Como você sabe disso?
— Acho que, como você compartilhou alguns segredos, posso compartilhar um meu. Meu professor, ou pai, se preferir, era um dos homens mais procurados e desprezados no mundo, que uma vez salvou o Rei dos Monstros — Eiro sorriu e o Duque o encarou.
— Você está falando daquele homem, ‘Jura’?
— Exato. Ele era um entalhador de madeira de nível mestre — o Demônio comentou sem rodeios. Sem hesitação, Lognir assentiu.
— Ele está dizendo a verdade.
— Jura me ensinou meu ofício. Posso trabalhar como um professor e aventureiro, mas pode-se dizer que minha verdadeira natureza é a de um protesista — Eiro sorriu para o Duque, exibindo sua mão de madeira. — Eu fiz as próteses de Charles após o incidente nesta academia. Foi assim que conheci Solomon.
O Duque Melachine relaxou um pouco, bastante surpreso.
— Interessante. Ser um protesista é uma profissão bastante nobre… alguém com a habilidade de fazer tais membros de madeira poderia trabalhar como um artista ou marceneiro, talvez fizesse mais dinheiro. A maioria daqueles que perderam seus membros o fizeram por causa de doenças ou guerras… e empobreceram muito como consequência. Então não há muito dinheiro a ser ganho, há?
Eiro deu de ombros.
— Acho que não. Eu costumava fazer próteses para animais antes, mas esse não é o ponto — o Diabrete suspirou. — Mais importante, quando Koperia deixou o seu ducado?
— Há uma semana, se me lembro bem — o Duque Melachine respondeu ao Demônio, que esfregou o queixo.
— É mesmo? Então, presumo que ela também deva chegar em breve.
— É o que se presumiria, sim… esse é outro motivo pelo qual estou aqui. Eu pretendia apenas enviar uma carta para o meu primo, mas como tinha que vir devido à situação do meu filho de qualquer modo, queria falar com ele pessoalmente — o Duque explicou. Eiro assentiu em resposta.
— Nelli, pode ir informar Solomon que seu primo deseja vê-lo mais tarde? — a Náiade olhou para ele com um sorriso sarcástico.
— O quê, é para isso que você quer me usar agora?
— Você quer que eu envie o Golem extremamente lento ou a Salamandra boca-suja? — o Demônio perguntou. Em resposta, Nelli apenas resmungou alto enquanto flutuava pela janela. Quase ao mesmo tempo, Eiro se levantou do sofá em que estava sentado. — Acho que já falamos das coisas mais importantes, mas, antes que algo mais aconteça, você deveria ir atrás do seu filho. Ele está tentando soltar alguns cavalos dos estábulos, por qualquer que seja o motivo — Eiro comentou, abrindo a porta. O diretor estava na frente dela, surpreso que a porta se abriu de forma repentina, embora nenhum som estivesse vindo do outro lado esse tempo todo.
Claro, a habilidade ‘Julgamento’ de Lognir impediu que qualquer um fora da área do julgamento escutasse o que era dito dentro dela. O Demônio sorriu e passou pelo diretor. Os guardas ficaram confusos sobre o que deveriam fazer, mas o Duque Melachine os ordenou a recuarem e procurarem o filho dele.
— Eu me desculpo profundamente pelo comportamento do meu filho. Vou ter certeza de que isso nunca se repita — o Duque disse e Eiro sorriu um pouco ao se afastar.
— Não se preocupe com isso. Só consiga ajuda para ele.
Lognir saiu da sala para seguir Eiro e olhou para o Demônio com um leve sorriso.
— Então, o que você me dará em retribuição por ajudá-lo, criança?
— O que você quer dizer? Você já ouviu o que eu lhe proporcionei. A oportunidade de ver uma necromante de grau Mestre e observar suas habilidades — O Diabrete disse sem pestanejar. Lognir só riu em resposta.
— Você é bem mesquinho, não é? Um pouco de comida seria uma boa ideia agora, não seria?
— Tudo bem, eu compro alguma coisa para você mais tarde. Só não esperava nada grande — Eiro respondeu e olhou para o corredor à sua frente.
Partes dos seus planos finalmente seguiriam em frente a partir de agora.