A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 394

A Virtude do Demônio

— Quem você pensa que é? — questionou o Duque Melachine enquanto encarava Eiro, que segurou a mão do homem antes que ele fosse capaz de lhe dar um tapa. O Demônio soltou a mão dele e ajoelhou-se na frente dele.

— Meu nome é Eiro, sua alteza. Peço desculpa por tocá-lo rudemente, mas, como um lutador, esses são meus instintos.

O Duque olhou para Eiro.

— Entendo. Então, você é um lutador, não um educador. Por isso que você bateu no meu filho além da razão?

— Infelizmente devo dizer que não sei do que está falando, sua alteza — Eiro respondeu sem pestanejar e o Duque – Marcus Xavier Melachine – só o encarou.

— Você não sabe do que estou falando? Dê uma olhada no meu filho, ele está completa-

— Claro, ele está machucado e ferido, mas não fui eu, eu nunca colocaria as mãos nos meus estudantes dessa forma — Eiro disse, interrompendo Melachine. O Duque estava prestes a dizer algo, mas Eiro já estava muito incomodado por ter que continuar falando de forma tão formal. — Espero que não se importe se eu me levantar e falar confortavelmente. E só direi mais uma vez, mas não fui eu quem causou esses ferimentos ao seu filho.

Melachine o encarou.

— Você está dizendo que meu filho é um mentiroso?

— Pensei que fosse óbvio. Sim, estou. Devo dizer, como um duque, pensei que estivesse acostumado às pessoas tentarem enganá-lo. Você não ser capaz de perceber a mentira de uma criança é bastante surpreendente para mim — Eiro disse com um tom rígido enquanto se aproximava da mesa onde Richard estava sentado. Claro, ele estremeceu de forma fingida e os guardas levantaram suas armas para se certificar de que Eiro não se aproximasse mais.

— Não sejam ridículo agora — Eiro suspirou, enquanto continuava a se aproximar. Richard tremia de medo na frente de Eiro, mas só por fora. Seus batimentos estavam tão calmos como sempre, como se o garoto estivesse tirando um cochilo.

— Por favor, afaste-se do garoto, Eiro — o diretor disse com um leve olhar direcionado a Eiro. Ele estava do lado do Duque, não havia outra forma.

— Não farei isso, Senhor, e nós dois sabemos que Richard está mentindo. Presumo que não tenha enviado a carta que eu pedi para enviar para sua alteza, não é? — Eiro perguntou e o diretor estremeceu em resposta.

— O q-o que, de que carta você está falando?

Parecia que a carta nem estava mais aqui. Era provável que o diretor a tivesse jogado fora ou a queimado.

— Bem, não que isso importe. Suponho que posso informá-lo agora. Sua alteza, ambos os seus filhos são indivíduos bastante problemáticos. Sua filha parece entender que o que está fazendo é errado, pelo menos, mas seu filho, Richard aqui, não parece se arrepender de ferir gravemente um jovem e o intimidar todo dia — Eiro explicou e o Duque Melachine se aproximou com um olhar profundo.

— Do que você está falando? Minhas crianças nunca fariam tais atos! — ele exclamou, mas Eiro deu de ombros.

— Desculpe, mas é isso o que eles fazem. Agora, espero que ainda esteja aqui após a escola para uma breve reunião de pai e professor. Acho que seria uma boa ideia conseguir ajuda psicológica para o seu filho. Eu quero vê-lo melhorar e fazer amigos na escolha, em vez de inimigos, mas, por ora, tenho que seguir para minha próxima aula, se me dá licença.

O Duque olhou para Eiro bastante confuso.

— Estamos no meio de uma conversa, você não pode sair!

— Desculpe, mas, na verdade, eu posso. Pelo decreto de Sua Majestade, o corpo docente desta universidade é protegido e isento da necessidade de seguir as leis comuns da aristocracia, para protegê-los de estudantes e seus pais, que se aproveitam de sua posição social. Portanto, não tenho que fazer nada do que você diz enquanto trabalho aqui — Eiro disse sem hesitação e caminhou até a porta, saindo sem ninguém dizer mais nada.

Enquanto se dirigia para sua próxima aula, Nelli apareceu ao seu lado.

— Você acha mesmo que isso foi uma boa ideia? — ela perguntou, mas Sarius zombou.

— Eu ficaria mais preocupado porque todo mundo que Eiro conhece é um completo e absoluto idiota como aquele cara.

— Ele não é um ‘idiota’, Sarius. O Duque Melachine é um homem inteligente e estudioso. Ele publicou muitos artigos de pesquisas populares e é um general habilidoso no exército. Entretanto, ele também é um pai muito amoroso — Eiro explicou. — Ao mesmo tempo, Richard é um enganador e mentiroso experiente. Para o Duque Melachine, ele é uma boa criança e alguém em quem pode confiar. Se eu não possuísse minhas habilidades de ver através de mentiras com tanta facilidade, também confiaria no meu filho em tal situação. Em especial se o agressor fosse um aventureiro bruto com a reputação de ser implacável como eu.

Sarius e Nelli se entreolharam por um instante.

— Bem, se você diz dessa forma…

— Sim, ele não parece mais um idiota, né? Aqueles guardas, em contrapartida, eram muito estúpidos — Eiro suspirou. — Agora, falarei com ele após as aulas de hoje, assim como eu disse que faria.

Eiro bateu na porta do escritório do diretor. Era pouco depois que a aula acabou e este era o lugar em que ele teria sua reunião de pai e professor. Em vez de alguém respondê-lo, um dos guardas ali dentro abriu a porta.

O demônio entrou, seguido por outro homem ao seu lado.

— Eiro, quem é essa pessoa? — o diretor perguntou, confuso, afinal, o homem estava vestido com roupas leves e parecia um bandido. Como se Eiro tivesse trazido alguém para ameaçar as pessoas aqui.

— Ah, este é… — Eiro começou, mas antes que pudesse, o Duque Melachine pulou, encarando o homem.

— Lognir?! Por que você está aqui?

— Oh? Vocês dois se conhecem? — Eiro perguntou, surpreso. — Bem, você é da família de Sua Majestade, então isso não é tão ridículo, eu acho.

— Por que você está aqui? Meu primo também está aqui?! — o Duque Melachine perguntou, mas Lognir meneou a cabeça.

— Não que eu saiba. Esta criança pediu que eu viesse, então eu vim. Como uma parte neutra.

— Parte… neutra?

— Isso mesmo — Eiro respondeu ao Duque. — Mesmo que seja um fato que você não possa fazer algo comigo enquanto eu seja um professor aqui, só serei professor por este semestre. Não só isso, mas seu filho sairia impune e sem receber a ajuda que ele precisa. É por isso que Lognir está aqui. Ele se certificará de que nenhum de nós mentirá — o Diabrete explicou com um sorriso. Ciente da identidade e habilidades de Lognir, ele não possuía nenhuma preocupação sobre isso.

Ele queria descobrir a verdade sobre isso, então ele concordou sem hesitar.

— Todos, por favor, saiam — o Duque Melachine disse. — Seremos nós quatro durante esta conversa.

Embora estivessem bastante hesitantes, os guardas ainda deixaram a sala de acordo com o comando do Duque. Só o diretor não pareceu compreender que ele também deveria sair a princípio, mas, logo, restaram quatro pessoas aqui. Richard, o Duque Melachine, Eiro e Lognir. Richard ainda parecia bastante confiante, desde que não estava ciente de quem Lognir era, mas Eiro sabia que não tinha que se preocupar com nenhuma consequência sobre isso.

— Deixe o julgamento começar — Lognir disse com um sorriso no rosto. No instante seguinte, uma brisa fria encheu a sala. Os pelos do Duque e de Richard se arrepiaram enquanto a influência preenchia a sala. — Todos vocês, façam suas perguntas. Confirmarei sempre que a outra parte disser a verdade, ou sempre que mentir — Lognir explicou e o Duque acenou com a cabeça.

— Foi você quem machucou meu filho assim? — ele questionou sem hesitação. Ele já experienciou este tipo de situação antes.

— Não, não fui eu. Entretanto, outro dia, eu o disciplinei ao fazê-lo trabalhar até que ficasse completamente exausto. Também estou esperando uma redação dele explicando seus erros e se desculpando por eles — Eiro explicou e, de imediato, o Duque virou a cabeça para Lognir, que sorriu.

— Ele está dizendo a verdade — ele explicou. O olhar do Duque saiu de Lognir para o seu filho.

— Richard, o que isso significa? Você disse que esse professor foi quem te feriu desse jeito.

— O quê?! Claro que foi ele! — Richard exclamou, mas Lognir começou a sorrir em seguida.

— Isso é mentira.

Richard olhou para Lognir.

— Do que você está falando, seu palhaço? É você quem está mentindo!

— Haha, essa foi boa. Eu não minto, criança — Lognir sorriu. — Eu só digo a verdade.

— Richard. O que está acontecendo aqui? — o Duque Melachine questionou, com um tom severo. — Por que você mentiu sobre isso?

— Porque esse cara é um psicopata total! Quero que ele suma! Ele está arruinando tudo! Aliás, ele esfaqueou minha mão outro dia! — Richard gritou, agora que percebeu que não sairia desta situação por meio de suas mentiras usuais.

Lognir virou a cabeça para Eiro.

— Isso… é verdade.

O Duque pulou e olhou para Eiro, antes de segurar a mão do filho e a inspecionou de perto. Eiro suspirou fundo.

— Bem, isso é verdade. Eu fiz isso. No entanto, você precisa estar ciente do contexto. Seu filho me ameaçou com uma situação similar antes. Ele segurou a faca contra sua própria mão e se esfaqueou com ela. Quando ele percebeu que eu não cederia, ele ameaçou matar minhas crianças. Você deve ficar ciente de que sou a pessoa com a maior percepção, pelo menos neste país, e tenho habilidades parecidas com as de Lognir, que me permitem ver através de verdades e mentiras. E o seu filho estava convicto naquele momento, ele genuinamente desejava matar minhas crianças. Eu já conheci bandidos e assassinos que não fariam isso. Entretanto, seu filho fez — Eiro disse e Lognir colocou a mão na frente da boca com um leve sorriso.

— Tudo isso é pura verdade — ele disse, incapaz de esconder seu interesse pela situação. Chocado por ouvir isso, o Duque Melachine caiu de volta no sofá.

— Primeiro eu tenho que lidar com ‘ela’, agora meu filho…? Que ano é esse… — o Duque murmurou e Eiro ficou bastante interessado em quem ele queria dizer com ‘ela’, já que aparentava já ter resolvido essa situação.

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