A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 393

A Virtude do Demônio

Eiro observou enquanto a situação na sala se acalmava. Ariella foi forçada a brincar com Avalin, devido ao egoísmo da garotinha, enquanto Sammy e Clementine se esforçavam para fazer Hannah se sentir mais do que bem-vinda nesta casa.

Sammy, em particular, até tentou ensinar algumas palavras para ela na linguagem de sinais, desde que ela havia começado a estudá-la para que conseguisse falar com Felix. Como, neste momento, Hannah era incapaz de falar, Sammy imaginou que conhecer essa forma específica de comunicação seria bastante útil.

Entretanto, logo, Ariella viu o que acontecia e olhou nervosa para as crianças, depois se virou para Eiro.

— Erm… O q-o que ela está fazendo…? Ela está conjurando algum tipo de feitiço?

Eiro olhou para Ariella e suspirou fundo.

— Claro que não. Você não ouviu a explicação de Sammy mais cedo? É a linguagem de sinais. É uma linguagem que mudos e surdos normalmente utilizam.

A Nefilim olhou para Sammy, confusa.

— Ela é surda?

— O que?! Não, claro que não, ela estava me respondendo normalmente mais cedo, mas aquele garoto ali é surdo — o Demônio disse. Parecia que Felix tinha a impressão de que alguém estava falando sobre ele, desde que ele se virou e olhou para Eiro. O Diabrete sinalizou para ele: {Está tudo bem, pode continuar pintando. Não deixe que a gente te distraia.}

Felix virou-se devagar e voltou a trabalhar. Eiro sabia que um fluxo de trabalho adequado era muito importante, em especial para Felix. Seu professor havia dito isso. Como Felix ainda não era habilidoso e sim talentoso, sem qualquer tipo de experiência, era difícil para ele retornar de onde havia parado. Então, ser capaz de chegar o mais longe possível com pintura neste momento era importante se Felix quisesse completar uma pintura de alta qualidade.

— Oh… espera, ele não é uma das suas crianças? — Ariella questionou e, em vez de Eiro, foi Avalin quem respondeu.

— Não! Felix é o namorado da Sammy! — ela exclamou, fazendo a jovem em questão congelar de imediato.

— A-Avalin, o que você… — ela murmurou e Eiro virou a cabeça para sua filha mais velha.

— Pare de fingir, todos nós sabemos que é verdade.

— Urgh… pai, eu posso talvez… só talvez… usar minha habilidade uma vez…? Para, você sabe… — Sammy perguntou e Eiro levantou as sobrancelhas enquanto olhava nos olhos dela.

— Não vou deixar que você use sua habilidade única para fazer todos esquecerem o que sua irmã acabou de dizer, Samantha.

— Ooh, ele usou seu nome completo! — Arc disse com um sorriso e Sammy virou a cabeça para o lado, encarando-o.

— Eu juro aos deuses, se o pai não estivesse aqui, você pensaria que é um gato agora.

Arc estreitou os olhos enquanto olhava para Sammy.

— Então, você quer que eu me transforme em um garoto-gato, entendo? Você está à frente do seu tempo nisso, irmã…

— Arc, por favor, pare com essas referências obscuras que ninguém consegue entender — Eiro suspirou. Era óbvio que isso era algum tipo de referência sobre a vida passada de Arc, mas, como ninguém mais sabia sobre isso, Eiro queria manter assim até que ele estivesse confortável para revelar aos outros por conta própria; ele queria ter certeza de que Arc não fizesse acidentalmente os outros questionarem suas origens. Afinal, seu filho mais velho podia ser um pouco cabeça de vento, apesar de quão inteligente era.

— Claro, claro… bem, de qualquer modo… Rudy, quer começar a praticar um pouco? Você tem sua primeira aula orientada para combate daqui a uma semana, certo? — Arc perguntou. Enquanto isso, um homem alto e muito pesado entrou na sala com passos que fizeram o chão tremer um pouco.

— Ora? O garoto fará aulas de combate? Pensei que ele não faria isso? — Krog questionou, exausto só de caminhar e fazer exercícios matinais básicos com sua armadura pesada especial. Eiro virou-se para ele com um aceno.

— Sim, Rudy não está tendo aulas regulares. Ele só frequentará algumas aulas introdutórias de como portar um escudo. Por sorte, Solomon me designou para ajudar a lecionar essa aula, então não temos que nos preocupar com outros descobrindo sobre isso. O outro professor mostrará a eles a forma, enquanto eu crio mísseis para eles se defenderem, pelo menos nas primeiras aulas.

— Hu… Quer que o garoto me ajude? Eu poderia usar um alvo que nunca se quebrará — o guerreiro comentou, olhando para Rudy ao fazê-lo. O menino o encarou de volta com um sorriso.

— Err… levarei isso como um elogio por ora, mas, mesmo que diga isso, você continua me empurrando pelo menos um metro ou dois com cada ataque pesado… e esses são os únicos com os quais você precisaria da minha ajuda.

Krog soltou um gemido profundo enquanto se sentava no sofá, desapontado por Rudy não querer ajudá-lo desta vez.

— Certo, certo, eu pensei que você poderia-

Enquanto Krog falava, ele foi interrompido pelo som de algo se quebrando violentamente. Eiro esfregou a ponte do nariz enquanto olhava para o guerreiro pesado.

— O que você está fazendo? Se esqueceu de quanto pesa agora?

— … É fácil se esquecer, sabe — Krog disse, tentando se levantar depois de quebrar o sofá sob seu peso, devido à armadura especial que usava. Como ele parecia estar com um pouco de dificuldade, Eiro o puxou.

— Vá lá fora, eu pratico um pouco com você.

— Urgh… Certo, certo… — devagar, Krog saiu da sala, saindo para os jardins. Ele nem prestou muita atenção à garota Morta-Viva, ou à Nefilim sentada ao lado de Avalin, de tão exausto que estava.

De qualquer modo, por agora, tudo estava indo bem. Ariella parecia entender que Avalin não era uma ferramenta a ser usada e que Eiro se importava com as crianças. Se ela compreendesse isso, então significava que Eiro não tinha nada a se preocupar com isso.

O Demônio se sentou em uma das cadeiras e começou a pensar sobre suas próximas ações. Até que a Rainha dos Mortos-Vivos viesse para a capital, ele não tinha muito a fazer. Continuaria treinando os membros do seu grupo até o torneio para o companheiro do Herói. Se Eiro vencesse, algo que estava bastante confiante, ele ainda teria algum tempo até conhecer o Herói atual.

Seria neste ponto que Eiro começaria a se mover em direção a completar seus outros planos. Iriam até a capital do Império Sagrado e encontrariam Zaragon, para que James e Eiro pudessem matá-lo.

Então, usando o que quer que Zaragon tivesse em sua loja, Eiro e Ariella, assim como o grupo do Demônio, se desejassem ajudar, prosseguiriam e tentariam lutar com <O Diabo> para que conseguisse adquirir a ‘Chave que abre tudo’.

Tudo isso ainda estava um pouco distante e exigiria muita preparação. Claro, até lá, Eiro precisava reunir outro grupo, o qual esperava ter conseguido crescer até lá.

No fim do dia, tudo estava indo de acordo com os planos.

— Certifique-se de praticar suas posturas apropriadamente. Vejo todos vocês amanhã — disse Eire aos alunos da aula que acabou de terminar. Todos eles se levantaram de seus assentos e saíram da sala para irem para suas próximas aulas.

Entretanto, antes que Eiro tivesse a chance de sair, algumas outras pessoas entraram na sala. Não eram alunos, já que não vestiam uniformes, mas também não pareciam professores. Eles vestiam um conjunto específico de armadura, que também era diferente dos guardas da escola.

— Posso ajudar? — Eiro perguntou enquanto guardava suas coisas na mochila e os dois se aproximaram.

— Você é ‘Eiro’? — Um deles questionou. Eiro acenou a cabeça enquanto a respondia.

— Sim, sou eu. De novo, posso ajudar? — o Demônio semicerrou os olhos enquanto olhava para os dois. A julgar pela cor de suas armaduras, Eiro pensou que eram parte da guarda de uma família específica. — O garoto Melachine chamou vocês aqui? — Eiro perguntou. Os outros dois guardas assentiram.

— Isso mesmo. Precisamos que nos siga.

— Uhum — enquanto revirava os olhos, Eiro passou pelos dois e foi em direção à porta, pronto para seguir até sua próxima aula. Entretanto, um dos guardas se meteu rapidamente e disse:

— Você não escutou o que falamos? Precisamos que nos siga.

— E só vou dizer uma vez: não me importo com o que precisam de mim. Vocês não podem me obrigar a fazer nada.

— Lorde Melachine deseja falar com você. Você é um mero plebeu, você deveria escutar o comando de um duque se deseja continuar trabalhando aqui — um deles disse. Eiro esfregou a ponte do nariz, incomodado.

— Essa merda de novo não… desçam do pedestal, vocês dois não são nada além de idiotas. Eu me encontrarei com Melachine, mas porque eu queria visitá-lo de qualquer forma por conta do comportamento do pirralho. Ele está no escritório do diretor, não é?

— H-Huh? Sim, ele está. Como você-

— O que foi, acha que eu sou algum idiota? Só fiquem quietos e me sigam — Eiro resmungou. Caminhou pelos corredores, passando pelos alunos para chegar ao escritório do diretor, onde o duque o esperava. Os guardas o seguiram rápido; Eiro não desacelerou para deixar que o alcançassem. Logo, o Diabrete chegou ao escritório. Claro que ainda não podia ser rude sem motivo com o diretor ou com o duque, então não abriu a porta de uma vez, mas bateu nela.

— Entre — o diretor disse e Eiro entrou. Ele viu o diretor atrás da sua mesa, mais guardas parados junto às paredes da sala, assim como um Richard Melachine machucado sentado em uma cadeira. Com o Duque Melachine sentado ao lado dele, encarando Eiro com raiva.

De imediato, o Duque se levantou e se aproximou de Eiro, encarando fundo os seus olhos. Sem hesitar, ele balançou a mão e tentou bater em Eiro, mas o Demônio não deixou, segurando a mão do Duque.

— O que está acontecendo aqui? — Eiro perguntou… ele já tinha uma ideia, ao ver o sorriso no rosto de Richard, embora houvesse algumas lágrimas, claramente falsas, nos olhos do menino.

Comentários