
Volume 4 - Capítulo 386
A Virtude do Demônio
Eiro colocou os pedaços de madeira entalhados ao lado. Segurou um pequeno pedaço na sua mão e o estendeu para o lado, em direção a Bavet.
— Tente transformá-la por um instante.
O Slime encostou seu núcleo contra a madeira e, em instantes, o pedaço de madeira do tamanho de um dedo virou metal. Claro que não era metal de verdade, só parecia. Ele ainda tinha a força da madeira base, que não era tão alta para começar. Seria difícil para outros perceberem, mas ainda era possível ver que era algum tipo de madeira, afinal.
Porém, não estava voltando para sua forma padrão. Estava permanecendo nesse tipo de metal, o que era o que Eiro queria. Por isso que havia feito essa madeira dessa forma, em vez de ter feito Bavet separar uma parte do seu corpo principal, afinal, embora ele pudesse resistir por um tempo, Bavet tinha que se concentrar direta nela e não era possível fazer isso por mais de meia hora. Embora Bavet estivesse praticando.
Eiro retraiu o pedaço e o segurou em suas mãos. Inseriu mana nele, sobrescrevendo a transformação da madeira feita por Bavet com sua própria vontade e controle sobre o caos e a ordem. Desse modo, a madeira voltou para sua forma original.
— Perfeito — o Demônio sorriu e começou a assobiar enquanto terminava as partes para o braço. Tudo estava se encaixando aos poucos e Eiro olhou para Armodeus. Parecia que ele ainda estava trabalhando na criação do artefato artificial.
— Quanto tempo vai levar? — o Demônio perguntou e Armodeus pensou por um segundo. Afastou-se do pedaço de metal à sua frente, no qual trabalhava com um pouco de sua mana, usando suas habilidades de artífice.
— Vou ter que continuar formando isso por cerca de um dia, mas após isso deve estar tudo pronto. Quase terminei. Quer que eu comece a inscrever o interior das partes?
— Parece bom. Desculpe, eu faria isso sozinho, mas ainda não consegui adquirir a habilidade Artificação.
— Não se preocupe com isso, rapaz. Mesmo assim, não tem como você alcançar minha habilidade tão cedo — Armodeus comentou com um sorriso presunçoso.
— Espere só, um dia eu chego lá.
— Hah, mal posso esperar para ver isso acontecer! — o Anão Ancião sorriu amplamente. Eiro sorriu um pouco, entregando os pedaços de madeira para o homem ao seu lado. Respirando fundo, Armodeus inscreveu certas runas dentro dos pedaços de madeira que Eiro preparou.
E ‘rápido’ não era um exagero neste caso, pois ele de fato conseguiu terminar dentro de um minuto. Era isso que a ‘Destreza Suprema’ tornava possível.
— Perfeito, obrigado — Eiro disse e se virou na direção de Hannah. — Agora, estenda sua mão esquerda — ele disse com um sorriso e a garota Morta-Viva virou a cabeça para Ariella. A Nefilim simples assentiu para encorajá-la e Hannah, nervosa, estendeu a mão.
Com cuidado, Eiro segurou a mão e puxou levemente os dedos para endireitá-los por um instante. O Demônio olhou para ela, direto em suas cavidades oculares vazias.
— Não se preocupe, não precisa se assustar. Eu tenho uma parecida.
Eiro comentou, acenando com sua mão de madeira na frente do rosto da garota. Com cuidado, começou a fixar as partes específicas que entalhou no lugar e explicou o processo.
— Esta será uma prótese especial. Primeiro vai te ajudar a se misturar entre as pessoas. Só a prótese já permitiria passar pela maioria das pessoas, contanto que não tentasse se destacar. Apesar de que há algumas pessoas capazes de ver através dela, o tipo de pessoa com quem você precisa se preocupar em primeiro lugar.
— E para enganar esses últimos, você precisa do artefato artificial? — Ariella perguntou e Eiro respondeu com um aceno.
— Exato. A potência dos artefatos artificiais é muito baixa se comparada aos originais. Como Armodeus ainda não tem muita experiência com isso, embora seja o maior artesão vivo, ele ainda não consegue superar essa potência reduzida. Para isso vai levar um tempo — Eiro explicou. — Por ora, combinaremos minha habilidade de criar próteses com o artefato artificial. A vantagem é que você pode ser capaz de recuperar um pouco do seu tato aqui e ali.
Ariella encarou Eiro, confusa.
— Isso é possível? Mas…
— Claro que é. Essa também é uma diferença entre Hannah e Mortos-Vivos normais. Os normais são incapazes de sentir qualquer coisa, recebem informações transmitidas através dos sentidos do seu criador. Quanto à Hannah, ela consegue ver e ouvir, mesmo sem nenhum órgão sensorial para tornar isso possível. Pela lógica, deve ser possível estender essa habilidade dela para as minhas próteses. Esta madeira deve ser um ótimo condutor para a mana e para habilidades dela — ele explicou para as duas garotas enquanto terminava de fixar a prótese no braço esquerdo de Hannah até o cotovelo.
— Tente mover o seu braço um pouco, tudo bem? — Eiro pediu a ela. Hannah esticou lentamente a mão e fechou o punho. Girou um pouco o pulso e se virou para Ariella, mais do que animada. Sem hesitar, pegou a caneta que Eiro havia preparado para ela e começou a escrever no papel.
‘Eu consigo me mexer muito bem!’ Hannah escreveu animada e Eiro riu.
— Isso não é tudo. Agora, para a próxima parte, preciso que esvazie sua mente. Será um pouco desconfortável, formigante… pode até doer um pouco, mas preciso que me prometa que não vai me empurrar. Certo?
Hannah ficou confusa, mas ela acenou com a cabeça.
Eiro envolveu as mãos ao redor da dela e tentou controlar sua Força Vital. Geralmente isso não deveria ser possível, mas antes, quando ele observava o fluxo de magia de Hannah após se fundir com Nelli, percebeu que a alma dela não havia perdido seu formato, apesar da ausência óbvia de carne.
Essa habilidade única era bastante poderosa, ao que parecia, se era forte o suficiente para manter o formato da alma dela intacto. Entretanto, como este era o caso, também era possível para Eiro dar essas próteses para ela. O Demônio puxou a Força Vital para dentro da pele protética de madeira. Hannah estava se contorcendo, mesmo assim aguentou muito bem. Logo, Eiro afastou suas mãos.
— Agora, tente mover sua mão de novo — ele sugeriu. Hannah fez como pedido e sua mão – que estava trêmula antes, sendo mantida por meio de magia – agora se movia quase normalmente. Claro que um pouco mais devagar e desleixada, ainda assim, funcionou.
Ainda mais animada do que antes, Hannah pulou do lugar onde estava sentada. Moveu as duas mãos para ver a diferença causada pela prótese de forma ainda mais evidente. De imediato, ela abraçou Ariella alegre, antes de olhar para Eiro.
— Não se preocupe, não se preocupe, começarei a trabalhar com o resto em breve. Eu… — Eiro começou a dizer, embora tenha parado. — Eu… preciso cuidar de outra coisa primeiro.
Largando tudo, Eiro foi até a porta e a abriu. Passou pelo corredor do porão e correu em direção às escadas. Havia concentrado toda sua atenção na Força Vital de Hannah, para se certificar de que nada desse errado, então quase não percebeu. Ele teve sorte de vê-la se aproximar.
— Agora, o que você acha que está fazendo aqui? — Eiro perguntou com um olhar severo e a garota parada ali logo encontrou o olhar do Demônio — Você não deveria estar dormindo? Como passou pelos seus irmãos tão fácil?
— Não estou cansada, papai! — Avalin exclamou alto. — Eu quero brincar com você!
— Desculpa, querida… não tenho tempo para brincar com você agora… brincaremos amanhã, tudo bem?
— Você disse isso ontem! Eu quero brincar agora! — ela gritou e segurou a mão de Eiro, dedicada a não o soltar.
— Com licença…? — à distância, Ariella pareceu ouvir o que Avalin disse. — Eiro, você tem outra filha?
A Nefilim se aproximou com passos rápidos. Ela parecia mais interessada na vida de Eiro agora. Sob quaisquer outras circunstâncias, ele teria ficado feliz, mas como Avalin às vezes agia por capricho, sendo difícil até para Eiro prever, esta era uma situação que não planejou que acontecesse.
— Avalin, vamos lá. Vou te levar para a cama e depois nós-
— Não! Eu quero brincar com o papai agora! — ela gritou, fazendo uma de suas birras. Eiro planejou ignorar e levá-la para o andar de cima, mas, de repente, sentiu um choque percorrer seu corpo enquanto uma faísca branco-dourada caía de sua mão.
— O quê? — Eiro murmurou e Avalin puxou a mão, assustada com a faísca. Imediatamente, lágrimas se acumularam nos olhos dela enquanto começava a corar muito.
— Não se preocupe, não se preocupe, está tudo bem, querida. Não é como da última vez, isso nem machucou! — Eiro a tranquilizou e a abraçou. O Demônio esfregou a mão na nuca dela e tentou acalmá-la. Neste ponto, Ariella os alcançou e pôde ver o que estava acontecendo.
Fumaça subia do corpo de Eiro onde quer que tocasse em Avalin e o Demônio e a Nefilim se encararam por um momento.
— Não há como… essa garota é… — Ariella questionou e Eiro só a encarou. Devagar, Eiro expressou a frase: ‘Não diga mais nenhuma palavra’, tentando fazer com que ela se virasse e voltasse para a outra sala como se nada tivesse acontecido, mas, claro, Ariella não iria simples aceitar isso.
— Eu te disse que precisava da ajuda dela e você a esconde de mim? Porra, o que diabos há de errado com você?! — a Nefilim gritou e Eiro a encarou, fazendo o corpo da mulher estremecer por inteiro.
Usando magia de vento, Eiro se certificou de que Ariella conseguisse escutar suas palavras, para se assegurar de que não houvesse mal-entendidos.
— Não xingue perto da minha filha.