A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 385

A Virtude do Demônio

— Eiro, pare e me diga: o que ele quis dizer com ‘trazê-la de volta à vida’? — Ariella perguntou para Eiro, seguindo-o enquanto o Demônio saía para os jardins.

— Claro não iremos trazê-la de volta à vida, isso é impossível. Pelo menos para nós, é. Vamos fazê-la parecer viva, só isso — Eiro disse sem rodeios enquanto a Nefilim atrás dele segurou seu braço e tentou pará-lo.

— Pare e explique isso agora. E por que você quer que eu dê meu artefato para esse cara, ‘Armodeus’? — Ela questionou. Eiro parou, virou-se e olhou fundo nos olhos dela.

— De novo, queremos fazê-la parecer viva. Forneci para Armodeus a informação sobre os artefatos artificiais que consegui, então ele vai adaptar isso ao seu artefato e criar uma versão artificial para que possamos ajudar Hannah a parecer mais viva, além disso, darei algumas próteses especiais que ela também pode usar. Você pode confiar em nós, só queremos ajudar.

 — Oh, sério? Tem certeza de que não há outros motivos por trás disso? — Ariella perguntou e Eiro pensou a respeito por um momento antes de dar de ombros.

— Quero dizer, ela também é uma ótima cobaia para esse tipo de coisa. Armodeus pode descobrir como fazer artefatos artificiais e eu posso testar como fazer próteses adaptativas. Se eu conseguir descobrir como fazer uma laringe protética para Hannah, para que ela fale, devo conseguir ajudar várias pessoas.

Ariella parecia ainda mais abalada do que antes.

— O que… O que você realmente é? Você é mesmo um demônio?

— Em grande parte — Eiro respondeu sem pestanejar e se virou. Ele chegou ao seu ‘pomar’ especial. O Diabrete sorriu um pouco enquanto via Hannah olhar com curiosidade para esta área escondida dos jardins.

— Você pode dar uma olhada ao redor se quiser — Eiro estalou os dedos, fazendo Nelli aparecer. — Nelli, certifique-se de que ela não vá em direção às mudas mais perigosas. Aquelas com Energia Sagrada, Fogo e Gravidade, certo?

— Tudo bem! — a Náiade respondeu e voou em direção à garota esqueleto. Parecia que ela tentou dizer algo, ou até rir, mas, considerando que ela não possuía mais uma laringe, isso era impossível.

Assim que a garota e a Náiade se afastaram um pouco, brincando ao redor, Ariella olhou para Eiro com curiosidade.

— O que é este lugar?

Com um sorriso no rosto, Eiro olhou ao redor para as árvores, até então bem pequenas, que cresciam aqui. Algumas tinham uma casca parecida com rochas, outras tinham uma superfície brilhante como gelo. Qualquer elemento mágico que Eiro tinha acesso tinha sua própria árvore aqui, crescendo devagar.

Claro, também havia árvores ‘pessoais’ para as crianças, no caso de algo acontecer com elas e precisassem de próteses.

— Algo em que preciso para trabalhar. Oh, e não quero dizer ensinar ou me aventurar. Sou um protesista, acho que me mencionei a você antes — Eiro explicou e retirou uma pequena garrafa de vidro de sua bolsa. Abriu a tampa e permitiu que a semente caísse no chão. Ela foi engolida pela terra e Eiro segurou a garrafa do líquido que Armodeus entregou para ele.

— Se quiser observar, tudo bem, mas eu preferiria que você pudesse voltar lá e entregar seu artefato para Armodeus. De que tipo ele é, afinal? — Eiro perguntou. Ariella olhou para ele, nervosa e colocou a mão no seu decote, pegando um pequeno amuleto pendurado no pescoço.

— Ele pertencia ao meu pai. Ele costumava se disfarçar como um humano e depois conheceu minha mãe. Desde então, eu mesma o uso — Ariella explicou. Eiro deu uma olhada no amuleto, tentando analisá-lo.

— Hm, certo. Funciona com outros além de Anjos ou descendentes de Anjos, certo?

— Sim. Funciona com qualquer um com inteligência para usá-lo. Então… Humanoides podem se transformar em outros humanoides, e bestas – se forem espertas o suficiente – podem virar outras bestas — Ariella explicou. — Claro, ele consegue esconder com facilidade partes como asas ou chifres.

— Hm, tudo bem então — Eiro comentou. — Então funcionará bem com a prótese que farei.

— Claro que sim — a Nefilim respondeu e Eiro começou a trabalhar. Derramou a garrafa com o slime especial liquefeito e o fundiu na semente usando magia.

Por ora, Eiro tinha que se certificar de que a semente brotasse, fundindo o máximo do líquido de slime que conseguisse. Ao inserir sua vontade em sua mana, Eiro já conseguia transformar a pequena muda até certo ponto. A madeira poderia ficar mais dura ou suave, mais clara ou mais escura. Podia até se parecer um pouco mais com carne do que o normal.

Eiro respirou fundo e, após alguns minutos manipulando a semente, ela estava pronta para o próximo passo.

— Hannah, pode vir aqui por um instante? — ele perguntou e jovem esqueleto veio pulando em sua direção. — Pode colocar suas mãos aqui e inserir sua mana dentro delas? O máximo que conseguir. Sei que você tem bastante — o Demônio disse e a garota acenou com a cabeça.

No mesmo instante, ele esticou a mão em direção à Nelli, que se fundiu com ele. Agora, conseguia ver o fluxo de mana dentro dela.

— Como eu pensei — Eiro murmurou enquanto Nelli se separava dele. — Ela não é uma Morta-Viva de jeito nenhum.

Ariella olhou para ele.

— O que você quer dizer? O que acabou de acontecer?

Eiro cruzou os braços enquanto olhava nos olhos da Nefilim.

— Primeiro, ela possui ‘Força Vital’. Se não sabe o que é isso, pode-se dizer que é a energia dentro de nós. Nossa ‘Vida’. É como Mana. Bem, Mortos-Vivos não possuem ‘Vida’, eles têm algo como… Durabilidade, eu acho. Ela tem e presumo que isso venha de sua habilidade única. Ela ainda possui ‘Vida’ mesmo na ‘Morte’, mas, mais do que isso, o que é muito interessante, é ela ser sua própria necromante.

— Poderia explicar um pouco mais?

— Então, Mortos-Vivos também não têm Mana. Normalmente nem possuem almas. Existem exceções, como os Liches, embora sejam bastante raros. Mortos-vivos são trazidos à vida artificialmente por meio do seu necromante. Entretanto, Hannah possui sua própria mana, uma quantidade surreal dela. É o dobro da que eu tenho, e isso após eu passar por várias evoluções únicas.

Durante sua explicação, Eiro se assegurou de que Hannah estivesse ajudando a muda a crescer de forma correta, inserindo sua mana dentro dela, auxiliando na compressão o máximo possível para que depois pudesse usar a mana junto com Magia de Natureza para fazê-la crescer de uma só vez.

Ariella olhou para Hannah e logo se abaixou ao lado dela.

— É mesmo…?

— Uhum, sim. Honestamente, o fato de ela possuir um status já é estranho o suficiente. Mortos-vivos não-

— Possuem um, entendi a ideia agora — a Nefilim respondeu e Eiro assentiu em resposta.

— Tudo bem, então não preciso me repetir.

Após um tempo, pareceu que Hannah esgotou muito da sua mana. Suficiente para Eiro pensar que estava tudo bem prosseguir por enquanto.

Ele colocou as mãos na muda e manipulou a mana de Hannah com a sua própria, deixando-a absorvê-la devagar enquanto a muda crescia cada vez mais. Logo, alcançou o quadril de Eiro, depois o peito e, não muito depois, já estava se elevando sobre ele.

Ela já possuía madeira para fazer todas as próteses que Eiro queria para Hanna. Com um golpe, Eiro cortou a base do tronco e o limpou, removendo os galhos e folhas. Ele só queria os galhos mais grossos e o tronco em si. O resto era inútil. Eiro envolveu os braços ao redor do tronco e o levantou.

— Agora, senhoras, vamos voltar para a oficina de Armodeus — o Demônio sugeriu com um sorriso e as duas o seguiram de volta para a mansão. Eiro carregou o tronco com cuidado até a sala em que o Anão Ancião aguardava.

— Ah, já voltaram? E com tudo o que precisamos… Sabe, magia é muito conveniente, não é? — Armodeus perguntou com uma risada e Eiro assentiu com a cabeça.

— Eu diria que sim. Agora, peço desculpas por Ariella não ter entregado o artefato; ela vai te dar agora. Tudo bem?

A Nefilim olhou nervosa para o amuleto em seu pescoço e acenou com a cabeça.

— Se isso de fato ajudará Hannah, então claro…

— Então vamos lá — Eiro observou Ariella entregar o artefato para Armodeus, que deu uma olhada rápida.

— Me dê um tempinho, tá? Pode demorar um pouco para descobrir.

— Claro, claro, vou trabalhar nas partes para o braço dela, para que possamos testar adequadamente — O Diabrete sugeriu e cortou um pedaço de madeira na lateral do tronco, entalhando-o em seguida.

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