
Volume 4 - Capítulo 384
A Virtude do Demônio
Eiro olhou para a garota. A julgar só pela sua estrutura esquelética, ela não poderia ter mais de 13 ou 14 anos quando faleceu. Isto era, se esta fosse sua primeira forma como um monstro. Se ela já tivesse evoluído, Eiro não teria maneira adequada de saber como ela era quando ainda estava viva.
Ela tinha arranhões em seus ossos, rachaduras. Em particular, suas mãos foram quebradas muitas vezes antes. Lentamente, o demônio segurou sua própria mão esquerda e começou a torcê-la antes de puxar seus dedos. A única forma de surgirem rachaduras daquela forma era se tivessem sido quebradas à força por outra pessoa.
Suas costelas em particular também estavam em um péssimo estado. Claramente ela foi abusada quando viva. Monstros mortos-vivos se curavam de outras maneiras; tais rachaduras não se formariam mais após a cura, mas, de novo, como ela tinha Força Vital dentro dela, ela não era uma Morta-Viva comum de qualquer forma.
— Garota. Abra seu status para mim — o Demônio disse com a voz clara e, confusa, a garota esqueleto olhou para Ariella, que também não parecia compreender o motivo.
Mas ela olhou de volta para Eiro e abriu seu status, como Eiro pediu que fizesse.
— Então, ela é mesmo uma Maga Esqueleto… — Eiro murmurou. Não conseguiu ver o reflexo do status através dos reflexos dos olhos dela, mas foi capaz de ver através da escuridão anormal em suas cavidades oculares vazias, logo avistando algo similar que poderia ser lido.
— Ah, essa deve ser a habilidade… e a única possível, as outras são comuns — Eiro comentou com os braços cruzados. — Só pelo nome, explicaria por que ela tem isso…
— Espera, do que você está falando? Como você já sabe o nome da habilidade dela? — Ariella questionou e Eiro se virou para ela. Como se fosse óbvio, falou:
— Eu provavelmente tenho a melhor percepção de todos neste mundo. Consigo ver o reflexo do sistema nos olhos dos outros e, combinando com algumas outras habilidades, sou capaz de vê-lo mesmo quando não há olhos.
— Você espera que eu acredite ni- — sem um momento de hesitação, Eiro retirou duas de suas Cartas Divinas. As outras estavam fundidas com ele, afinal.
— Eu tenho quatro delas no total. Com o Cinco de Ouros sendo uma delas.
Com um movimento do pulso, as cartas desapareceram de novo.
— Agora, entrem. Não devemos falar aqui fora sobre negócios. Não se preocupe, não há necessidade de se disfarçar ou algo do tipo. — Eiro se virou e subiu os degraus até a porta. Ariella e a garota esqueleto o seguiram, embora a Nefilim estivesse muito nervosa.
— Tem certeza de que aqui é seguro? Não há como você ficar escondido aqui por muito tempo… Assim que perceberem que vive aqui, você terá que-
— Do que você está falando? — Eiro perguntou. — Não estou escondido aqui, este lugar pertence a mim. — Eiro continuou caminhando, antes de perceber outro detalhe. — Calma lá, você pensou que eu estava me passando por um professor na Academia? Por que acha que eu estava lá?
— Você não estava? — Ariella perguntou com um sorriso irônico e Eiro esfregou a ponta do nariz.
— Parece que terei que contar um pouco mais sobre mim depois.
Eiro entrou em um dos cômodos próximos.
— Jess, o que você está fazendo aqui? Pensei que tivesse dito para continuar lendo na biblioteca.
— Eu sei que você disse, mas ainda estou lendo o livro que você me deu de qualquer forma… senti vontade de mudar um pouco de ambiente, sabe? Dormi na biblioteca nos últimos dois dias, nem consegui passar tempo com… — Jess estava explicando e levantou a cabeça do livro que lia. De imediato, ela o derrubou na mesa à sua frente e pulou da cadeira.
— Is-Isso é um Anjo? E um Morto-Vivo? Certo, eu definitiva farei uma pausa desta história! — Jess exclamou e Eiro deu de ombros.
— Quase, Nefilim e um Morto-Vivo que não é real um Morto-Vivo. Ainda não compreendi o último, então a manterei informada.
Eiro logo sentiu Ariella segurar seu braço, perplexa.
— Você não disse que não havia ninguém aqui?
O Diabrete inclinou a cabeça.
— Disse? Eu disse que vocês estariam seguras aqui, o que estão.
— Mas como podemos confiar em alguma garota aleatória como ela?
— Ariella, Jess é minha amiga e membro do meu grupo. Confiei a ela quase todos meus segredos e há muito mais em jogo neles do que em qualquer um dos seus. Então, acalme-se, além disso, tente não reagir assim quando encontrar os outros.
Ariella ficou confusa mais uma vez e, de repente, um jovem caiu do teto. Ele mal conseguiu se equilibrar.
— Ei, pai, Rudy disse que estamos sem alguns vegetais que ele queria usar para fazer o jantar amanhã — Arc disse tranquilo depois de sair de uma das passagens secretas da mansão e percebeu as duas pessoas paradas atrás do seu pai. — Ei, legal. De qualquer modo, quer que a gente vá comprar amanhã depois da escola?
— Tudo bem, eu mesmo vou comprá-los amanhã. Você pode voltar direto para casa — Eiro comentou. — Além disso, tenha mais cuidado usando essas passagens. Eu preferiria que você não utilizasse as verticais. Pelo menos não quando Clementine ou eu não estivermos por perto para checar você.
— Tá.., mas pode me ajudar a subir de novo? — Arc perguntou com um leve sorriso e Eiro suspirou. Ele estendeu o pé na direção do filho, que pulou e foi impulsionado através da passagem secreta para voltar para o andar de cima.
— M-mas, como… Quem… O quê? — Ariella questionou com um sorriso enquanto recuava um pouco. — Isto é algum tipo de asilo?!
— Isso é meio rude, não é? — Eiro respondeu sem pestanejar. — Por ora, fique em silêncio e me siga.
O Demônio atravessou a sala e logo acessou outra passagem secreta, desta vez um conjunto de escadas.
— Aonde estamos indo…?
— Vamos encontrar alguém que espero que possa te ajudar um pouco — o Diabrete disse enquanto descia as escadas, ouvindo ouviu Bavet gritando irritantemente ao longe, no lugar para onde Eiro se dirigia.
— Você está abusando de mim! — o Slime gritou enquanto o Anão Ancião na frente dele resmungava baixinho, em sua própria barba.
— Eu vou te mostrar o que é o abuso se não calar a boca…
Eiro esfregou a ponte do nariz.
— Algo errado?
Bavet transformou sua forma comum e translúcida de Slime em um beija-flor e começou a voar na frente do rosto do Demônio.
— Sim, algo está errado! Este cara continua arrancando partes do meu corpo!
— Bavet, foi isso que eu pedi para ele fazer. Também já expliquei para você o motivo disso, não é?
— Oh? Você fez? — Bavet questionou surpreso e Eiro reclamou.
— Sim, eu fiz. Armodeus, como está indo?
— Tudo bem. Poderia ter ido mais rápido se esse bastardo não continuasse reclamando. Tentei liquefazê-lo, para que você possa usar magia com isso adequadamente. Deve ser mais difícil do que o normal, mas acho que funcionará.
— Perfeito. Obrigado. Ah, essas duas são aquelas de quem falei. Esta Nefilim é Ariella, esta garota Morta-Viva é Hannah — Eiro apresentou as duas. Ele havia visto o nome dela em seu status antes e, embora devesse ser óbvio, as duas garotas ainda ficaram bastante surpresas por Eiro saber o nome dela.
Armodeus caminhou até a garota esqueleto com um sorriso no rosto.
— É um prazer conhecê-la, mocinha. Então é por você que eu tenho que aturar esse Slime irritante, hein? — ele riu levemente enquanto Ariella olhava nos olhos de Eiro.
— Ninguém aqui está bem da cabeça? Quem reage assim?
— Sou um demônio com total controle sobre minha monstruosidade, possuo quatro Cartas Divinas e inúmeras habilidades ridículas. Uma Morta-Viva e um Nefilim não são grande coisa, considerando tudo isso — Eiro comentou sem hesitar e Ariella suspirou fundo.
— Tudo bem, se você diz. Explique o que está acontecendo, então. Por que esse… Humano estava trabalhando em algo para Hannah?
— Primeiro de tudo, ele não é um humano, ele é um anão ancião. Segundo, tente ser um pouco mais grata, nem todos conseguem algo que o Rei dos Artesãos criou, mesmo que parcialmente — Eiro sorriu, mas antes que Ariella pudesse dizer algo mais, o Diabrete segurou o recipiente cheio com um líquido criado por meio da alquimia usando o corpo de Bavet. — Armodeus, houve uma pequena mudança de planos. Antes, eu queria fazer algo para disfarçá-la, mas agora, planejo algo diferente. A garota possui Força Vital, então podemos fazer para ela algumas próteses especiais — Eiro sorriu.
— Força Vital? Em uma Morta-Viva?! Interessante! Precisa da minha ajuda? — Armodeus perguntou, curioso, e Eiro assentiu.
— Sim, preciso que use o Artefato que Ariella possui e crie uma versão artificial dele. Sabe mais ou menos como fazer isso, certo?
— Sim, estive lendo, sem parar, todas aquelas coisas que você me deu… acho que sei mais ou menos o que você quer fazer — o Anão Ancião sorriu. — Vamos trazer essa mocinha de volta à vida, eh?