A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 383

A Virtude do Demônio

Eiro sentou-se no pequeno trono de gelo que havia feito para si mesmo enquanto Ariella olhava para os cadáveres dentro do gelo.

— Você matou todas essas pessoas? — ela perguntou e Eiro riu baixinho em resposta.

— Espero que sim. Eu ficaria surpreso se ainda estivessem vivos — ele comentou. A Nefilim virou-se com uma leve carranca.

— Você sabe que não era nesse ponto que eu queria chegar — Ariella resmungou. — Por que você matou todas essas pessoas?

— Para ascender nos ranks da organização. Oh e para reunir ‘oferendas’ para alguém.

— O necromante que você quer que venha para cá? — Ariella respondeu. Eiro acenou a cabeça.

— Exatamente. Pensei que ela ficaria feliz se ao menos conseguisse alguns bons materiais ao vir aqui. Considerando que não tenho planos diretos de fazê-la lidar com o necromante que estou insinuando com os rumores.

Ariella cruzou os braços com um sorriso irônico.

— Sim, eu ficaria surpresa se você quisesse que ela te matasse.

Eiro levantou as sobrancelhas, confusa.

— O quê? Não estou falando de mim mesmo, estou falando sobre o necromante poderoso que de fato está se escondendo aqui na cidade. Só sei que teria que ajudá-la e não quero me incomodar com isso. O necromante está em um local onde não conseguiria causar problemas para ninguém, pelo menos não com grande impacto.

— Realmente há um necromante poderoso aqui na cidade? — Ariella questionou com um sorriso irônico e Eiro a encarou.

— Claro que há. Pensei que você sabia, já que era a Letra C até pouco tempo.

— Também não sei tudo sobre a cidade, mas espera, eu não entendi, se já há um necromante poderoso aqui, por que você precisa atrair outro? — a Nefilim perguntou enquanto o Demônio a encarava.

 — Certo, por que você acha que eu preciso que um necromante venha para cá? — Eiro perguntou e Ariella inclinou a cabeça para o lado.

— Porque você quer criar um exército de Mortos-Vivos para enfrentar <O Diabo>?

Eiro esfregou devagar a ponte do nariz enquanto negava.

— Não, não é por isso. Não utilizarei Mortos-Vivos, eles não serão de muita ajuda de qualquer forma. <O Diabo> é o mais fraco entre os Nobres; em termos de combate, ele é um conspirador incrível. Um enganador, planejador. Mortos-vivos que não são capazes de ver através do menor dos truques serão inúteis.

— Então por que estou aqui, se não é sobre <O Diabo>? — A Nefilim perguntou, confusa, e Eiro a encarou um pouco perplexo.

— Ariella, foi você quem me disse para lidar com os Caçadores de Mortos-Vivos. É por isso que você está aqui. Para que você possa ficar tranquila de que nada acontecerá com sua amiga. Por que você pensaria que isso tem relação com <O Diabo>? — Eiro soltou um suspiro profundo. — Se não quer continuar aqui, então pode sair, mas não me incomode mais sobre os Caçadores de Mortos-Vivos. Aliás, só para esclarecer, você poderia ter eliminado esses caras com facilidade por conta própria. Nem precisava da minha ajuda — Eiro comentou e Ariella se virou por um instante.

— Eu sei que posso. Já matei um deles mais cedo. A razão para eu ter ido até você não foi para que você matasse todos eles, mas para que assumisse a responsabilidade pelos problemas que causou. O que você não está fazendo, porque não acha que fez algo errado.

— Sim, nada está errado porque isso estava dentro das minhas expectativas. Na verdade, eu queria que eles viessem, para que eu pudesse dar à necromante algo divertido para brincar. Não é minha culpa que sua amiguinha seja uma necromante iniciante que não sabe como esconder sua magia — Eiro resmungou. — Se está tão preocupada com ela, dê seu artefato para ela. Ele pode esconder esse tipo de coisa, não pode?

Ariella olhou para Eiro com um suspiro profundo.

— Você é um pedaço de merda, sabia disso?

— Sim, sei disso, mas aqui estou eu, tentando lidar com suas inseguranças de merda de qualquer jeito. De novo, não sei por que você teria medo desses magos da vida e paladinos fracotes. Eles literal não são a menor ameaça para você. Fique ao redor da sua amiga por um tempo e lide com qualquer coisa que surgir. Não é como se os Caçadores de Mortos-vivos fossem uma grande ameaça para ela com você por perto. Mesmo que eles usem Magia de Vida por toda parte, sua amiga ficará bem. Necromantes não são feridos por- — Eiro começou a ficar um pouco irritado enquanto falava com Ariella, mas parou quando percebeu. — Ele desabou em seu trono de gelo e resmungou alto. — Pela Dama do Inverno, não vai me dizer que ela é uma morta-viva, vai?

— O q-o quê? Como você… — Ariella deu um passo para trás, chocada enquanto olhava fundo nos olhos de Eiro. O Demônio revirou os olhos.

— Porque, caso contrário, você não teria medo. Você poderia matar qualquer Caçador de Mortos-Vivos que quisesse, mas se eles usarem algum tipo de Golem de Vida, o que parece ser sua maior preocupação de qualquer forma, para passar por sua percepção, eles ainda podem ser uma ameaça. A única maneira de isso ser possível é se sua amiga não for só uma necromante, mas também uma Morta-Viva. Deixe-me adivinhar – ela é algum tipo de Lich?

Ariella encarou Eiro em silêncio e então se virou lentamente.

— Ela não é um Lich, é uma ‘maga esqueleto’, de acordo com sua raça… eu a conhecia há alguns meses em minhas buscas. Ela manteve suas memórias de quando estava viva. Isso por conta de uma habilidade dela, é uma-

— Habilidade única. Foi o que pensei. Elas são honestamente um saco. Certo, mudança de planos. Eu não queria que você fosse lá ainda. Amanhã às 08:00h, venha até minha casa com a garota — ele disse, escrevendo a localização exata em um pedaço de papel que entregou para Ariella. — Lá é um local seguro para ela e podemos resolver isso. E eu tenho que apresentar alguém para você. Só que, se você não se comportar quando conhecê-la, terei que te matar — Eiro disse sem rodeios. — Mesmo que eu não queira.

— Não sei se está tão ‘claro’ quanto você diz — Ariella respondeu. — Tudo bem, confiarei em você sobre isso, mas eu juro, se for algum tipo de truque, também não hesitarei em te matar.

Eiro deu de ombros.

— Tá, eu sei. Agora, não acho que eles voltarão hoje à noite, então você pode voltar. Tenho certeza de que está preocupada com a garota.

O Diabete olhou nos olhos de Ariella, que acenou com a cabeça.

— Você está certo, estou muito preocupada. Obrigada — a Nefilim respondeu enquanto esticava suas asas. Ela se levantou do solo e voou em direção à cidade.

Enquanto isso, Eiro continuou sentado ali, pensativo.

— Certo, parece que é hora de sairmos para caçar — ele comentou, livrando-se da Magia de Morte com que estava infundido e esticando seu corpo para se livrar da sensação de rigidez que vinha com esse tipo de infusão. Respirou fundo ao dar o primeiro passo em frente e enterrou o pé no gelo. Com o máximo de força que conseguiu reunir sem quebrar o gelo, Eiro pulou e bateu suas asas para obter impulso extra.

Por sorte, o ‘Caçador de Mortos-Vivos’ que fugiu ainda estava perto o suficiente para Eiro alcançá-lo. Faziam alguns minutos desde que ele fugiu, afinal. Eiro se certificou de se mover sem fazer barulho, antes de mergulhar direto na sombra do caçador sem ser percebido. Ali, Eiro se esconderia até que este caçador se encontrasse com outros da mesma classe, para que pudesse matá-los todos de uma vez.

Isso poderia tornar todo o processo um pouco mais fácil do que ter que esperá-los. Talvez Eiro até conseguisse capturar um deles se tivessem acesso à Magia de Vida para estudar um pouco mais sobre o elemento. Se eles estiverem vivos, a Rainha dos Mortos-Vivos também os apreciaria como presentes. Eiro só queria ter certeza de que poderia ficar do lado bom dela o mais rápido possível. Muito dependia de se darem bem, agora que Eiro planejou tudo para atraí-la para a capital.

Felizmente, parecia que Eiro logo teria acesso aos presentes perfeitos para ela.

Eiro se sentou dentro do seu escritório e continuou registrando o andamento dos seus planos e o que teria que fazer para tudo progredir de forma adequada.

— Certo, nesse ritmo, terei evoluído mais uma vez ao começo do torneio neste verão. Exceto se esta evolução acontecer de uma forma diferente. Nelli, você sabe algo sobre Monstros com Habilidades Lendárias?

A Náiade flutuou ao lado do Demônio e cantarolou em contemplação.

— Nem, acho que não. Nunca ouvi sobre algo do tipo antes, mas não imagino que seja muito diferente da evolução por meio das Cartas?

— Mas essas são Evoluções Únicas. Esta será uma Evolução Lendária. Está em um nível diferente. Talvez eu deva tentar acelerar o processo um pouco?

— Bem, você sempre pode passar o seu tempo livre caçando monstros. Sabe que existe uma ‘Aliança Nobre’ que foi descoberta recentemente? — Nelli apontou e Eiro cruzou os braços, reflexivo.

— Talvez eu devesse simples eliminar aquele lugar. Alguns monstros Nobres devem aumentar o meu nível várias vezes. Ou eu poderia tentar matar <A Morte> assim que a ‘Rainha’ chegasse aqui. Ela pode roubar as técnicas, eu consigo a experiência. Todos saem felizes, certo?

No instante em que dizia isso, ele virou-se devagar. Notou alguém se aproximando do prédio à distância.

— Bem, suponho que devemos continuar planejando isso algum momento mais tarde. Por ora, temos um convidado para entreter — Eiro abriu a janela e pulou, pousando com cuidado na área na frente da mansão.

A poucos metros dele, Ariella pousou, segurando alguém firme envolto em um pano. Eiro conseguia ver sua forma de qualquer modo.

Era a garota esqueleto de quem Ariella havia falado. Ariella a soltou com cuidado e a garota olhou ao redor, nervosa. Suas cavidades oculares ocas pareciam absorver qualquer vestígio de luz ao redor. Rachaduras cobriam seu crânio em múltiplas partes, mal o mantendo unido.

Eiro conseguia dizer que ela tinha bastante mana, uma quantidade monstruosa. Entretanto, outro detalhe era ainda mais estranho. Ela tinha algo que nenhum Morto-Vivo deveria possuir… esta garota Morta-Viva possuía Força Vital.

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