A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 382

A Virtude do Demônio

— Tenho que sair por um segundo. Até lá, façam uma pausa e deixem sua mana se recuperar. Já volto — Eiro disse aos estudantes, seguindo em direção à saída da sala. Saiu do prédio e esperou que Ariella pousasse na sua frente.

O Demônio olhou para ela com um leve suspiro.

— Há algo errado, Ariella?

— É sério que está me perguntando isso? Sério?! — ela questionou, cruzando os braços e o encarando. O Diabrete pensou por um instante, mas não encontrou razões para tê-la deixado irritada.

— Espera, não me diga que você de alguma forma é relacionada aos Melachine…

— Melachine? Do que você está falando? Não, quero dizer o fato de que você está atraindo inúmeros ‘Caçadores de Mortos-Vivos’ para a capital! Ouvi sobre os rumores que você está espalhando, Eiro! — Ariella comentou. — Por que você faria isso?

— Porque eu preciso que uma pessoa venha para cá. E por que você está incomodado com esses ‘Caçadores de Mortos-Vivos’, afinal? Você é uma Nefilim, não um Lich ou algo do tipo — o Demônio apontou e Ariella esfregou a ponte do nariz, irritada.

— Porque Caçadores de Mortos-Vivos são um incômodo absoluto. Eles acham que estão acima da lei, usam seus ‘Golens da Vida’, ou seja lá como são chamados, para procurar por toda a cidade por qualquer coisa que tenha um pingo de Magia de Morte e eles-

— Não se importam de massacrar qualquer um que acreditem ser ‘herege’, eu sei, mas, de novo, por que você está incomodada com isso? O que você tem a ver com Magia de Morte?

— Não é sobre mim, é sobre as pessoas a quem sou próxima. Uma delas é uma garotinha; ela é uma necromante iniciante. Ela nunca pensaria em usar pessoas como mortos-vivos, mas pratica utilizando insetos e vermes. Se esses Caçadores de Mortos-Vivos encontrarem um destes insetos, eles conseguirão rastreá-la. Isso significa que terei que fugir com ela e isso arruinaria todos os meus planos — Ariella explicou para Eiro, que cruzou os braços lentamente.

— Hm, acho que tenho uma solução para você. Espere até o fim das aulas, daqui a seis horas mais ou menos, terei uma forma de lidar com esses Caçadores de Mortos-vivos para você até lá — Eiro comentou e Ariella pareceu um pouco surpresa.

— O que você-

— Irei atraí-los para mim, ora. Acredite ou não, tenho afinidade com magia de morte. Ainda não posso usá-la porque não pratiquei, mas tenho afinidade. Lidarei com eles. Na verdade, isso vai me ajudar ainda mais — Eiro comentou. — Se vários Caçadores de Mortos-Vivos que vieram aqui desaparecerem, isso incitará ainda mais a pessoa que quero que venha.

Ariella encarou Eiro, considerando quão leviano ele parecia encarar a situação. Ela resmungou alto.

— Se você não me der um bom plano até o fim do dia, terei que pensar sobre partir logo.

— Não chegará a isso, não se preocupe. Só venha me encontrar naquele lago do lado de fora da cidade. Você sabe, aquele em que esperei as pessoas da organização. Nos encontramos lá hoje à meia-noite — O Demônio sugeriu e Ariella resmungou baixinho e acenou a cabeça.

— Tudo bem. Agora, volte para sua aula, estou saindo.

Eiro assentiu, fazendo como Ariella sugeriu enquanto a observava voar, e começou a bolar um plano em sua mente.

Eiro estava parado na borda da pequena ilha no centro do lago congelado, vestindo sua nova armadura com uma capa por cima. Ele observou Ariella pousar no gelo coberto de neve, aproximando-se devagar.

— Certo, estou aqui, qual é o seu grande plano? — ela questionou. O tom de sua voz era uma mistura de raiva e esperança, já que ela não queria ter que partir ainda.

— Já estamos no meio dele, Ariella — o Diabrete comentou, enquanto levantava uma das mãos para frente. Dali, brotou uma pequena flor. Seu caule parecia murcho e quase petrificado, enquanto suas pétalas pareciam feitas de ossos. Era uma flor que não existia de verdade, criada ao combinar Magia de Natureza e de Morte. A Magia de Morte veio da pequena pedra mágica de morte que Eiro ainda tinha dentro de sua Tesouraria. — Espalhei essas flores em lugares específicos na cidade e na floresta próxima. Elas definitiva trarão qualquer ‘Caçador de Morto-Vivo’ para cá; na verdade, já avistei alguns deles vindo nesta direção quando vim. Claro, assumirei um papel diferente também — O Demônio disse enquanto pressionava a pedra mágica em sua mão no pequeno espaço em seu peitoral.

Ele permitiu que sua mana fluísse para dentro dela, então absorveu a magia para dentro do seu corpo, infundindo-se com ela. Logo, foi como se o corpo de Eiro começasse a apodrecer, sua armadura se transformando em algum tipo de substância óssea. Deixou sua vontade fluir para sua mana para mudar a forma como se ‘transformaria’ e, logo, seu corpo mudou como queria.

Seus chifres perderam sua cor e se transformaram em osso e a carne parecia desaparecer de suas asas e cauda, enquanto elas se tornavam algo esquelético.

Sua pele se tornou pálida e doentia. Parecia que ele era um cadáver ambulante. Como se fosse um Lich.

— Então, o que me diz? — Eiro perguntou, sua voz soando rouca, como se sua garganta estivesse se desfazendo. — Pareço morto o suficiente?

O Demônio mostrou um grande sorriso em seu rosto, exibindo seus dentes amarelos e apodrecidos enquanto um odor que lembrava o cheiro de um cadáver escapava de sua garganta.

Ariella deu um passo para trás e assentiu.

— S-Sim… você certa parece… mas como…

— Ah, explico mais tarde. Tenho a habilidade de infundir cada parte do meu corpo com qualquer tipo de magia que eu quero sem receber nenhum dano. E não apenas magia, é por isso que eu sou capaz de me fundir com aquele Slime que te apresentei daquela forma. Só através dele eu consigo parecer com um humano — Eiro explicou. Sua introdução era desconfortável de se escutar devido à sua voz e ele parecia como se estivesse prestes a cair morto.

— De qualquer modo, isso não é importante agora. Sugiro que recue por ora — o Diabrete disse enquanto concentrava sua Aura. Ele a fortaleceu, fundindo um pouco de magia da morte nela. Certificou-se de que qualquer um com a capacidade de sentir ‘morte’ acabasse o percebendo.

— É claro, eu… — Eiro começou, mas parou quando percebeu algo se aproximando.

— Ariella, afaste-se. Mostrarei a você que posso lidar com qualquer ‘Caçador de Mortos-Vivos’ que aparecer, não importa quantos sejam.

A Nefilim olhou para o Eiro, este Demônio que parecia já estar morto, pisando confiante no gelo. Eiro se agachou e pegou algo que deslizava pela neve espessa. Era uma cobra branca, agitando-se na mão dele.

Ele conseguia dizer que estava machucando sua mão por segurá-la. Não era sagrada, era só por causa da Magia de Morte com que Eiro estava infundido. Este era um dos ‘Golens da Vida’ que Ariella mencionou mais cedo.

— Bem, olá. Qual desses calcadores é o seu mestre, hein? Aquele se escondendo atrás do grande carvalho, aquele que escalou o pinheiro ou aquele que está escondido atrás da pilha de neve? — o Demônio perguntou com um sorriso amplo em seu rosto, antes de esmagar o crânio da cobra para matá-la, mas, mesmo assim, surpreendente ela continuava se movendo. Não estava de fato viva em primeiro lugar, afinal.

Essas pessoas eram capazes de usar Magia da Vida, até certo ponto e não eram tão fortes, pelo que Eiro conseguia dizer. Por ora, ele só tinha que se assegurar de ameaçar esses Caçadores de Mortos-Vivos para atrair ainda mais para cá.

O Diabrete se livrou da neve e limpou o gelo, mostrando os muitos cadáveres congelados que escondeu.

Ao ver esses corpos, um dos Caçadores de Mortos-Vivos escolheu começar a trabalhar antes que Eiro pudesse se animar. Claro, antes mesmo que atravessasse metade do lago, Eiro perfurou seu crânio com gelo e o matou.

Eles só eram fortes contra magia de Morte; qualquer outro tipo iria subjugá-los dolorosamente. Ficou evidente que este era o caso. Um dos caçadores restantes ficou bastante chocado com a visão e parecia pronto para fugir. O outro estava tão confiante quanto antes, pensando que aquele que foi morto não era nada além de um tolo. Isso não era um palpite de Eiro, ele ouviu os dois murmurando.

Entretanto, para surpresa de Eiro, o que veio em sua direção não foi o próximo Caçador de Mortos-vivos, mas um pedaço animado de gelo e neve. Como ele estava ‘vivo’ agora, Eiro também não conseguia manipulá-lo e era óbvio que não seria afetado por ataques usando gelo.

Era uma tática inteligente, então Eiro decidiu brincar junto para tornar o caçador mais confiante. O Demônio conjurou magia de gelo para tentar se livrar da criatura de neve, enquanto cada vez mais delas eram criadas pelo caçador.

Utilizando-os como cobertura, o caçador tentou se aproximar de Eiro, que continuava agindo como se estivesse em problemas. Até que o homem ficou próximo o suficiente, momento em que Eiro parou de atuar. Com um estalar de dedos, chamas apareceram no meio do ar e começaram a derreter as criaturas de neve, mostrando o chocado Caçador de Mortos-Vivos.

— Desculpa, mas você também vai se tornar alimento para a Rainha dos Mortos-vivos — o Demônio sorriu enquanto matava o segundo caçador. Ele exalava uma aura que assustaria a maioria das pessoas, assim como aconteceu com o último Caçador de Mortos-Vivos, o qual Eiro deixou escapar.

— Caçadores de Mortos-Vivos são raros, mais ainda aqueles que conseguem usar Magia de Vida. A maioria deles tende a utilizar Magia Sagrada. Desses três, o segundo conseguia usá-la, eu acho. A cobra também era um golem dele.

— Espera, três? Então você acabou de deixar um deles escapar? — Ariella questionou. — Por que você faria isso?

— Porque ele irá encontrar os outros Caçadores de Mortos-Vivos, com quem eu sei que ele já entrou em contato, para trazê-los até aqui. Quero me livrar de qualquer um com Magia de Vida que esteja aqui, por ora. Não me importo com os outros, eles são paladinos glorificados, nada mais.

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