
Volume 4 - Capítulo 381
A Virtude do Demônio
Eiro saiu da arena, observando Richard se afastar rapidamente após a interação deles. Nelli estava flutuando ao lado da cabeça de Eiro e o encarando.
— Isso foi mesmo necessário? Ele é uma criança.
— Sei que ele é uma criança, mas, considerando que ele ameaçou matar minhas crianças de verdade, não permitirei que alguém assim saia impune — Eiro comentou. — Devo pensar em como lidar com isso…
— Não pode simples matar o garoto como faria com qualquer outro? — Sarius sugeriu e Eiro virou a cabeça em direção à Salamandra.
— Por acaso, você compreende por que eu concordei em ser professor aqui na escola?
— Eh… porque você estava entediado.
— Não é só porque estou entediado. Estou desperdiçando um tempo valioso que eu poderia usar para treinar e dar continuidade aos meus planos. A razão para eu não estar fazendo isso e, em vez disso, estar aqui é muito simples, na verdade — Eiro começou e, quando estava prestes a continuar, Gondos expressou seus pensamentos.
— É porque você deseja descobrir novos lados de você mesmo, não é? — o Golem sugeriu e Eiro concordou.
— Exato. Pelo que me recordo, quando vi o fragmento de um ‘humano’ em minha alma, aquele garoto tinha mais ou menos a idade das crianças aqui. Talvez um pouco mais velho, mas não muito. Estando ao redor de tantas crianças, por mais emocionais que sejam, eu posso ser capaz de aprender algo sobre esse lado da minha alma, certo? A maioria dos estudantes aqui são humanos, afinal.
— Certo, você quer se expor ao máximo de humanos diferentes, na esperança de se tornar mais humano? — Nelli perguntou e Eiro assentiu.
— Uhum. Já venho tentando e está funcionando muito bem, eu diria. Ajudei Rico só de conversar com ele sobre suas preocupações e planejo ajudar Richard também de alguma forma. Se eu posso ajudar os outros, então por que não eu mesmo?
Nelli virou a cabeça para olhar para os dois Espíritos ao seu lado, enquanto Eiro soltava um suspiro profundo e começava a caminhar, afastando-se da arena. Ele tinha que ir para sua próxima aula agora.
Enquanto caminhava pelo campus, o Demônio se certificou de notar tudo o que acontecia ao seu redor. Em particular, ele queria ter certeza de que nenhum outro tipo de bullying estava acontecendo, pois sabia que acabaria tendo que lidar com isso e não queria se atrasar para sua próxima aula.
Eiro tinha um monte de aulas práticas e algumas aulas teóricas. Uma das suas aulas teóricas foi esta manhã e agora tinha uma aula prática de magia. Mais especificamente, era uma aula prática para a linha de criação do círculo mágico da Divisão Mágica.
Eiro atravessou o campus e chegou à sala especial criada para a prática real de magia, com fortes barreiras cobrindo as paredes para que nada desse errado. Os estudantes já estavam reunidos aqui, segurando varinhas muito básicas em suas mãos.
Enquanto Eiro entrava, já havia avistado a maioria dos alunos aqui. Ainda faltavam alguns, mas eles também chegaram um ou dois minutos depois do sino tocar.
— Agora, vamos esperar que vocês três não se atrasem para a próxima aula — o Diabrete suspirou um pouco. — Então, só para confirmar: todos vocês são estudantes do segundo ano, não é? — Eiro questionou e os alunos acenaram com a cabeça.
— Bom, bom. Isso significava que já aprenderam sobre a teoria por trás da criação de círculos mágicos ano passado. Por ora, por favor, criem um Círculo Mágico ‘Vazio’. Não se preocupem, nada vai acontecer com ele por enquanto, sem pressão, só quero ver se todos vocês conseguem ‘desenhar’ magia no ar — ele explicou, demonstrando o que queria dizer com um círculo mágico ‘vazio’.
Enquanto os alunos faziam isso, Eiro pegou um certo livro de sua Tesouraria e o abriu em algumas páginas específicas.
— Perfeito. Todos vocês parecem ter o requerimento básico. Conseguem desenhar magia no ar e, em termos de forma, seus círculos mágicos vazios parecem quase todos perfeitos. alguns de vocês demoraram mais do que outros, mas sem problemas. Por ora, desativem esses círculos mágicos para que eles não nos incomodem mais — o Diabrete sugeriu e todos os círculos vazios brilhantes desapareceram na frente dos estudantes. — A partir de agora, como vocês já sabem o básico, é simples. É como escrever. Por enquanto, vocês conhecem as letras. Vamos dizer que cada letra é um aspecto individual de um círculo mágico, como uma runa. Parece simples, certo?
Eiro começou a desenhar um círculo mágico no ar. Por ora, desenhou a runa básica ‘ar’.
— Então, usando várias letras, vocês conseguem criar palavras — Eiro continuou, desenhando um círculo ao redor da runa e conectando-a a duas outras runas dentro do círculo, formando uma espécie de triângulo. — A partir dessas palavras, vocês podem seguir para o território das frases — ele adicionou mais três runas e as conectou entre si em um triângulo, criando um simples hexagrama.
— Aqui está. Usando letras e palavras, você cria uma frase coerente. É como falar. Você quer transmitir uma informação específica e usa o conhecimento que reuniu até então — Eiro sorriu e olhou para o Grimório em sua mão. — Algumas pessoas usam frases individuais para escrever livros, para transmitir ainda mais informações.
Desse modo, Eiro começou a acenar sua mão ao redor, expandindo este feitiço simples, ‘Rajada’, de maneiras extremas. Seu tamanho triplicou e se tornou completo.
— Deem uma olhada neste círculo mágico. Ele parece complexo, mas, no fim, eu não utilizei técnicas diferentes do que todos vocês já conhecem. Se quiserem, vocês conseguem criar um círculo mágico como este — Eiro explicou aos estudantes, que encaravam em completo choque o que viam. Essa coisa foi feita tão fácil na frente deles, dentro de alguns instantes. — Agora, alguém consegue me dizer o que este círculo mágico faz? — Eiro perguntou com um sorriso. Os alunos pensaram por um instante, até que um deles levantou a mão.
— É uma versão modificada do feitiço ‘Rajada’ com muitas runas de ‘fortalecimento’ para aumentar o efeito do feitiço… então, eu diria que é uma ‘rajada’ muito mais forte?
Eiro sorriu.
— Exato. Este é um feitiço ‘Rajada’ muito forte — o Diabrete o ativou, longe das crianças e, como se todo o ar de onde estavam fosse repentinamente empurrado para frente, os alunos puderam sentir seus corpos sendo puxados. Alguns deles até tiveram suas varinhas puxadas de suas mãos, mas Eiro as pegou.
— Claro que eu poderia ter feito esse feitiço fazer muitas outras coisas, mas só o fiz fazer isso. Vocês acham que criar esse feitiço desta forma valeu a pena para obter esse resultado? — Eiro questionou e os estudantes se entreolharam e pensaram sobre isso por um tempo.
— Parece que sim — um deles respondeu e Eiro sorriu enquanto criava outro círculo mágico para mostrar outro princípio. O professor de teoria havia pedido para que ele fizesse isso.
Eiro criou outro círculo mágico menor. Ainda era bastante complexo, mas, pelo menos, era muito mais simples que o anterior. Então, ativou-o e um dos alunos caiu no chão quando uma rajada de vento ainda mais forte soprava na direção oposta.
— Então, como explicam isso? Este círculo mágico menor e menos complexo é mais poderoso do que aquele gigante e complexo de antes — o Demônio perguntou aos alunos, mas nenhum respondeu, pois estavam muito confusos. — Vejam, o motivo é simples. Ser complexo não significa que seja melhor. Algo que vocês sempre devem almejar como magos que usam círculos mágicos é simplificar qualquer um dos seus círculos. Este pequeno era uma versão direta mais simples daquele maior. Este sendo o caso, e se eu transformasse essa versão menor na parte central de outro círculo mágico gigante? O que aconteceria?
Um dos estudantes levantando a mão após a explicação de Eiro, tentando responder.
— Ele se tornaria mais fraco de novo…?
Eiro meneou a cabeça.
— Oh, não, não foi isso que eu quis dizer com ‘complexo não significa melhor’. Se pegarmos um círculo mágico básico e adicionarmos outras partes mais complexas a ele, com um plano específico, ele se tornará mais forte, mas não é certo assumir que qualquer círculo mágico muito complexo é muito forte e não significa que seu oponente é habilidoso. Em vez disso… alguém consegue me dizer por que isso poderia significar que seu oponente é menos habilidoso do que você?
— Bem, se temos dois magos e eles conseguem causar o mesmo efeito por meio de um círculo mágico, mas um deles é mais simples enquanto o outro é muito complexo, então isso significa que aquele com o círculo mágico mais simples é mais habilidoso… é isso?
— Sim, exato — Eiro respondeu. — Como o outro mago não possui uma compreensão tão alta dos princípios dos círculos mágicos como você, ele teve que recorrer a métodos complexos. Acho que todos entendem o princípio agora. Todos vocês poderiam recriar o feitiço ‘Rajada’ para mim? E torná-lo o mais simples possível. Não se preocupem com a força por enquanto.
Eiro se virou devagar enquanto observava os alunos animados começarem a trabalhar, antes que notasse algo surpreendente. Através de uma das janelas, pôde ver uma figura familiar voando pelo céu. A princípio, Eiro esperava ser Lognir voltando da viagem para espalhar boatos sobre o ‘Necromante’, mas aparente ele já havia voltado há alguns dias; então era provável que não fosse ele. Além disso, o castelo ficava na direção oposta.
Então, Eiro concentrou os olhos um pouco mais do que o normal, estando em uma sala tão pequena e percebeu que era a Nefilim Ariella, aproximando-se lentamente da Academia por algum motivo.
Eiro mal conseguia ver a expressão dela, mas, a julgar pela sua linguagem corporal, ela estava muito irritada… Isso não acabaria muito bem para ele, então.