A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 380

A Virtude do Demônio

Eiro esperou na saída da arena. Sua aula correu muito bem, já que modificou as armas dos estudantes para torná-las mais adequadas para seus corpos, às vezes ainda não tão bem desenvolvidos.

Mas, por ora, o Demônio estava esperando alguns estudantes que ainda tinham que terminar sua punição. O grupo de intimidadores se reuniu na frente dele, exaustos.

— Todos vocês, escrevam uma redação de dez páginas sobre o que fizeram de errado. Cada um de forma individual. Se eu perceber que as palavras têm muito em comum, ou notar que não escreveram isso por conta própria, farei escreverem uma redação de vinte páginas. Enquanto os observo — o Demônio disse com um tom severo.

Um dos estudantes encarou Eiro e respondeu, irritado com o fato de estarem sendo punidos dessa forma.

— Não acha que está exagerando?! Não faremos isso de novo, tudo bem? Pare com isso, ou contarei ao meu pai!

Eiro virou a cabeça em direção a esse estudante.

— Não se preocupe, falarei com seus pais sobre isso de qualquer forma. Então, vão em frente e digam a eles o que quiserem. Entretanto, só quero pontuar um detalhe: vocês poderiam ter matado Rico com o que o forçaram a fazer.

— Oh, não seja ridículo, agora — Richard suspirou alto, o único que não ficou impressionado com a ideia dos seus pais serem informados. — Tudo o que o fizemos fazer foi engolir algumas pedras e aquele brinco enferrujado de merda. Como poderíamos ter-

— O brinco tinha um pequeno alfinete exposto, o que poderia ter machucado Rico. Não de forma fatal, mas você poderia tê-lo ferido — Eiro comentou e, sem dar a ele outra chance de falar, Richard continuou.

— Hah… que triste, agora você está se contradizendo. Você acabou de dizer que teria sido fatal, então como isso teria matado?

Como se já tivesse vencido este ‘debate’, Richard olhou direto nos olhos de Eiro, enquanto o Demônio continuava.

— Em algum momento, Rico teria visitado a enfermaria. Lá, um dos curandeiros contratados pela academia teria percebido que ele estava ferido e teria curado a área do seu estômago. Ali, a mana teria interagido com aquele ‘brinco enferrujado de merda’ — Eiro explicou. As crianças ficaram um pouco confusas. — Aquele brinco aparente era uma herança de família, mas você já sabia disso; é provável que esse seja o motivo para você ter feito ele engoli-lo. No entanto, fiquei surpreso quando percebi que havia uma pedra mágica em miniatura incrustada nele. Não uma rara, ainda assim uma pedra mágica. A mana da cura de Rico poderia ter interagido com essa pedra mágica, fazendo com que ela produzisse até mesmo uma pequena quantidade de magia no estômago ou no trato digestivo dele. Ao considerar que era uma pedra mágica de fogo, isso poderia causar uma reação indesejada. Os curandeiros da enfermaria não são equipados para curar esse tipo de ferimento — Eiro explicou aos estudantes.

Cada um deles estava pálido ao perceberem o que poderia ter acontecido se Eiro não tivesse intervindo. Claro, Eiro estava escondendo o fato de que havia uma chance minúscula de isso acontecer, desde que o alfinete no brinco em questão era arredondado e não afiado, mas ainda poderia causar algum ferimento. Só era muito improvável.

Mais uma vez, no entanto, parecia que Richard não se importou muito. A princípio, Eiro pensou que ele, de alguma forma, não percebeu o fato de que isso não teria o ferido ou que a situação fosse improvável, mas não foi o caso, considerando o que ele disse a seguir.

— E daí, se ele é burro o suficiente para fazer tudo o que mandamos, então talvez ele mereça isso — Richard comentou e Eiro olhou nos olhos dele. Ele tentava bancar o durão e Eiro não sabia se esse garoto era assim ou estava fingindo.

— Todos vocês, exceto Richard, estão dispensados. O tempo limite para a redação é uma semana — o Demônio disse e todos saíram dali, enquanto Richard continuava o encarando.

— Hahaha, sério? Acha que é uma boa ideia ficar sozinha comigo? — o jovem questionou com uma gargalhada, como se Eiro tivesse cometido um grande erro. Ele retirou uma pequena lâmina, nada além de um abridor de latas, do seu casaco e apontou a ponta para si mesmo. — Escuta aqui, o que você vai fazer agora é o seguinte. Você vai me deixar sair e nunca falará para ninguém sobre isso de novo. Se não quiser que sua vida lamentável seja arruinada, então fará o que digo — Richard riu e Eiro o encarou.

— Você acha que me assusta? Só quero falar com você para tentar entender. A escola oferece bastante apoio aos alunos, em especial se eles estão passando por certos problemas mentais. Saúde mental é um problema sério. Não vivemos mais na época em que as pessoas pensariam que você foi possuído por um espírito maligno. Agora, podemos diferenciar entre um verdadeiro espírito maligno e alguém precisando de muita ajuda. É óbvio que você precisa de muita ajuda — Eiro explicou sem pestanejar. — Posso marcar uma sessão entre você e a Sra. Klitzing, aparente ela é muito expe-

— Ah, cala a boca! — Richard resmungou alto. — Não há nada de errado comigo, você é um idiota absoluto. Estou muito bem.

Eiro soltou um suspiro profundo. Também não levava toda essa coisa de ‘saúde’ mental tão a sério antes, mas depois de ter longas conversas com Arc sobre o mundo em que ele costumava viver, começou a perceber que isso poderia ser muito mais sério do que pensava. Arc continuava falando sobre como gostaria que seu antigo mundo fosse mais parecido com este, em termos de como esse tipo de assunto era tratado.

Mas isso não era importante agora; o que importava era que Richard estava ameaçando se ferir para se livrar do controle de Eiro.

— Tudo bem, se não acredita em mim… — Richard pressionou a ponta do abridor de latas em sua própria palma, fazendo seu sangue escorrer. — Oh, parece que o novo professor Eiro agrediu um nobre… toda a divisão pode confirmar que você foi bastante agressivo conosco ontem também… ele deve sentir inveja de quão pouco ele mesmo cresceu…

O jovem continuou sorrindo, mas Eiro não aceitou a brincadeira.

— Acho que, antes disso, podemos ir até a enfermaria. Guarde isso e venha comigo.

— Hein? — Richard respondeu, perplexo. — Você não se importa que estou prestes a arruinar sua carreira?

— Arruinar, minha criança? Eu sou um aventureiro, sou o substituto de um professor que literal matou estudantes aqui. Sou um amigo próximo do rei. Esfaquear um babaca como você não me arruinará em nada — Eiro respondeu e agarrou o braço de Richard para arrastá-lo até a enfermaria.

Richard estalou a língua.

— Tudo bem, então terei que recorrer ao plano B. Se você não me escuta, direi aos meus homens para irem até sua casa e matarem suas crianças. Eles são profissionais, treinados ao mais alto nível por nossos- — de repente, o garoto percebeu que sua mão estava presa em sua coxa.

Assim que Richard escolheu ameaçar Eiro com isso, o Diabrete escolheu descobrir se ele estava fingindo ou falando sério. E era impossível para Richard mentir menos; ele com certeza tentaria levar isso adiante.

Então, ao considerar que ele estava ameaçando matar pessoas, Eiro decidiu que era justo parar de tratá-lo como uma criança. Richard não estava brincando com jogos de crianças como Eiro pensava. Ele estava brincando na liga dos adultos.

Portanto, Eiro o tratou como tal. Ele segurou o abridor de latas e pressionou através da mão de Richard até que saísse do outro lado, depois continuou pressionando até esfaquear a perna dele com a mesma lâmina.

— Certo, você foi longe demais. Direi o que acontecerá a partir de agora. Você irá para o seu dormitório, sentará em sua mesa e começará a escrever a redação que eu disse. Então, irá se encontrar com Rico e se desculpar com ele, enterrando seu rosto de convencido na terra em que ele está. Se não disser isso, vou te perfurar com algo maior que um abridor de latas. Entendido? — Eiro questionou com um sorriso suave no rosto, com os olhos total fixos nos de Richard.

— Você é maluco! — Richard exclamou, mas Eiro não se importou em nada com o que ele tinha a dizer.

— Foi você quem ameaçou matar minhas crianças porque tem um problema comigo. Deve assumir a responsabilidade por isso — o Demônio respondeu.

Ele retirou o abridor de latas da perna e mão de Richard, limpou o sangue e curou os ferimentos com a ajuda de Nelli. Agora, parecia que Richard havia cortado acidentalmente suas calças com sua espada ou algo do tipo.

Caro, no fim do dia, Richard era uma criança. Mesmo que ele estivesse brincando com adultos, isso não mudaria tão cedo, mas Eiro estava pronto para quebrar suas próprias regras por idiotas como Richard a qualquer momento.

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