
Volume 4 - Capítulo 379
A Virtude do Demônio
— Todos vocês, segurem suas armas. Aqueles que já possuem um pouco de experiência e acham que sabem como usar sua arma, por favor, venham para o lado. Os outros, venham aqui para o outro lado — Eiro disse aos estudantes. A maioria deles aparentava já saber como lidar com a arma de escolha, fosse uma lança, bastão, espada ou adaga, eles tinham algum tipo de experiência, mas alguns alunos não seguravam espadas de maneira comum.
Claro, como Arc era parte dessa turma, ele era parte do primeiro grupo.
— Como não tenho conhecimento sobre o nível de cada uma de suas habilidades reais, gostaria que formassem uma linha; a ordem não é importante e um após o outro mostrem alguns movimentos em que tenham confiança. Se precisarem de um alvo, posso criar um para vocês, então me digam — Eiro explicou para os estudantes, que formaram uma linha como ordenado.
Enquanto fazia isso, ele voltou sua atenção para os alunos sem nenhuma experiência em particular.
— Vocês continuarão observando comigo. Saber como as outras pessoas se movem é o primeiro passo para aperfeiçoar a sua técnica.
Os estudantes acenaram com a cabeça enquanto escutavam o professor. Assim, um após o outro, os alunos mostravam a Eiro alguns de seus movimentos. No geral, a maioria era dolorosamente mediana em seu nível de habilidade. Não havia nada muito bom no que faziam e havia muitos movimentos desperdiçados no que mostravam.
Na verdade, alguns deles eram bastante habilidosos; Arc estava entre eles, mas o resto precisava de muito mais treinamento do que estavam recebendo agora.
Demorou um tempo para todos os estudantes terminarem de mostrar tudo e Eiro se certificou de fazer uma anotação mental para cada aluno. Recordou-se de duas forças, fraquezas e do que precisaria para ajudá-los a melhorar a partir do ponto em que estavam.
A primeira decisão que tomou era muito simples.
— Formarei duplas entre vocês. Treinem um pouco enquanto eu converso em particular com cada um — o Demônio anunciou, formando as duplas dependendo de quem seria mais adequado em termos de combate.
— Primeiro, vocês seis — Eiro começou, olhando para os estudantes que ainda não tinham muita experiência. — Em vez de dar dicas logo de cara, preciso saber mais sobre quem são como pessoas. Vamos conversar um pouco, tudo bem?
Eiro olhou para os alunos, que concordaram . Um deles era o garoto intimidado que Eiro afastou do grupo de Richard e Avelina mais cedo.
— Okay, então. Para começar, digam-me sobre seus interesses. Que tipo de armas gostariam de usar? Especialmente se forem nobres, a família de vocês possui algum tipo de ‘estilo familiar’ particular? — Eiro perguntou com um sorriso. Um após o outro, os estudantes contaram a Eiro o que ele quisesse saber.
O Diabrete inspecionou o corpo deles enquanto conversavam para que tivesse uma breve noção do que seria melhor para eles em sua experiência pessoal. Então, depois de um tempo, o garoto que foi intimidado levantou a mão.
— É… meus pais mediram meus talentos em algum momento e aparente eu possuo talento para combate corpo a corpo, mas acho que isso está meio errado, talvez?
Eiro levantou as sobrancelhas, surpreso. As mãos do garoto tremiam intensamente. A princípio, Eiro pensou que fosse por conta do choque de sofrer bullying, mas, agora, ele parecia estar bem. Neste momento, parece que o menino não conseguiria lutar usando as mãos, ou melhor: mesmo com qualquer arma, ao considerar que suas mãos tremiam sem motivo aparente.
O Demônio retirou uma folha de papel em branco e uma caneta de sua bolsa e entregou para o menino.
— Por favor, poderia escrever seu nome nesta folha de papel cinco vezes? Eu te dou 30 segundos. — sugeriu.
Confuso, o menino olhou para Eiro, que começou a contar a partir de 30. Logo, o garoto terminou e Eiro pegou a folha de papel, olhando para a escrita do garoto.
— Hum, a mediação parece correta. Normal, nosso corpo e talento não estão necessariamente conectados. Mesmo que você tenha muito talento para música, você pode nascer surdo. O que acontece é que você pensa que possui talento para combate corpo a corpo, enquanto suas mãos são inúteis devido ao tremor, mas este não é o caso. Explicarei mais tarde; por ora, deixe-me ajudar os outros um pouco — comentou com um sorriso.
Ele se levantou e caminhou até onde as armas de treinamento de madeira estavam, então segurou uma adaga e uma lança. Retirou sua faca de esculpir e inseriu sua broca contra elas, mudando o formato das armas para serem um pouco mais adequadas ao peso ou comprimento para os alunos em questão.
Então, ele os juntou a outros estudantes com físico similar e um estilo de combate que parecia adequado para eles no momento e fez com que os alunos inexperientes os copiassem por enquanto, para que se acostumassem a como segurar suas armas de treinamento.
Enquanto isso, começou a falar com o garoto intimidado.
— Agora, como eu estava falando mais cedo, eu… — Eiro começou e o garoto olhou para ele, nervoso.
— E-Eu não acho que posso aprender a lutar, Minha família tem uma longa história como soldados, então quiseram me colocar aqui, mas eu não acho que é adequado para mim.
O Demônio olhou nos olhos do garoto.
— Está dizendo que não quer aprender a lutar?
— Eu, eu não sei…
Eiro olhou para o garoto e soltou um suspiro profundo.
— Tudo bem, vamos continuar com o exemplo de antes. Um homem surdo com talento para música. Na verdade, isto não é uma combinação aleatória, mas um dos maiores músicos de todos os tempos nasceu surdo. Apesar disso, ele se sentiu atraído pela música e aprendeu a compor e tocar ao sentir as vibrações do ar em sua pele, em vez de escutar os sons que produzia. Por que você acha que ele passou por todo esse trabalho? Porque ele só era apaixonado pela música.
Eiro se sentou ao lado do garoto e colocou a mão em seus ombros.
— Mesmo que você pense que não quer saber como lutar, isso é verdade? Talento não produz paixão. Paixão produz talento. Acredito que você quer saber como lutar.
O garoto olhou para suas mãos, ainda trêmulas, talvez até um pouco mais do que antes.
— Veja, tenho muito orgulho dos meus sentidos. Tenho olhos ótimos, por exemplo e visão dinâmica incrível. Eu ainda conseguiria ver o que estava acontecendo se alguém parasse o tempo ao redor. — O Demônio riu, já que isso não era uma mentira. — E esses olhos mostraram uma coisa, que, enquanto você escrevia seu nome, o tremor das suas mãos não lhe afetou. Suas mãos se moveram perfeitamente como você queria e você tem uma caligrafia muito bonita. Ela é consistente, como se tivesse estudado caligrafia por anos.
— Então isso me daria o talento para ser um escriba, não é? — O garoto perguntou e Eiro balançou a cabeça.
— Não, não, não é disso que estou falando. O motivo para suas mãos serem tão trêmulas não é porque elas foram feridas de alguma forma ou deformadas. Não tem nada que o impeça de lutar. Na verdade, o oposto. Suas mãos estão fazendo isso porque elas querem se mover, elas querem ser usadas. Presumo que você tenha um valor muito alto de destreza, enquanto seus números reais não chegam a esse ponto.
— S-Sério, você acha isso?
— Sim, com certeza. Se você quiser, posso pedir para um amigo fazer um pequeno item para você brincar de vez em quando. Se fizer isso com frequência, é bem provável que sua destreza aumente ao subir de nível — ele explicou e olhou para o garoto, vendo que ele estava ficando muito animado. Era evidente que ele não tinha confiança em si mesmo.
— Você é amigo do meu filho, Arc, certo? — o Diabrete perguntou de repente e o garoto virou a cabeça em sua direção.
— O-Oh, sim! Ele é muito legal, foi a primeira pessoa que falou comigo, é divertido estar ao redor dele.
— Fico feliz de ouvir isso. Ele pode ser bastante problemático de se lidar às vezes, então obrigado por aturá-lo — o Demônio sorriu. — Escute, sei que você fica desconfortável ao falar sobre isso com seus amigos, mas se aquelas crianças te intimidarem de novo, pode contar para Arc sobre isso. Ele é o meu filho mais velho, ele sabe como cuidar dos outros e não tem o menor medo de enfrentar pessoas como Richard e Avelina.
O garoto ficou em silêncio e acenou a cabeça, antes que Eiro se levantasse de novo.
— Agora, Rico, vá em frente e forme uma dupla com Mark. Tente copiar a postura dele por enquanto.
O garoto, Rico, assentiu e correu animado. Feliz por ter conseguido lidar com isso, Eiro pensou sobre por onde deveria começar a modificar as armas para os outros alunos, para torná-las mais adequadas ao seu tipo físico e estilo de combate.
Mas, enquanto pensava sobre isso, ouviu alguém se aproximar por trás.
— Quem teria pensado, você é um bom professor, hein? — Kristoph suspirou alto e Eiro continuou olhando para seus próprios estudantes enquanto respondia.
— Você acha que Solomon colocaria um total psicopata aqui? Na verdade, sou um cara muito legal, acredite ou não. Um pouco homicida, claro.
— Acho que terei que julgar por conta própria. Por ora, não faça algo muito maluco e continue apoiando seus alunos. Certifique-se de não começar a tratar alguns de forma melhor do que outros. Tratamento preferencial é muito contraprodutivo quando se deseja ser um bom educador.
— Claro, não se preocupe. Irei ensiná-los adequadamente — Eiro respondeu. — Mas, por agora, continue cuidando dos seus próprios alunos, pode ser? — o Demônio perguntou com um sorriso no rosto.