A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 378

A Virtude do Demônio

— Bem-vindos à ‘Introdução à Magia Utilitária’. Serei o professor de vocês neste semestre. Podem me chamar de Eiro — o Demônio explicou com um tom alto, sua voz alcançando todos os estudantes sentados na classe, cerca de cinquenta pessoas. — Agora, alguém consegue me dizer o que compreendem com o termo ‘Magia Utilitária’? — perguntou. Durante alguns segundos, os estudantes pensaram sobre isso, até que um jovem levantou a mão.

— É… Magias que na verdade são usadas no dia a dia? — o garoto perguntou. Eiro assentiu em resposta.

— Sim, exato. Magia Utilitária é qualquer tipo de magia que tenha usos não orientados para combate. Pensem em algum feitiço qualquer: é muito provável que o feitiço que tenham pensado seja um feitiço de combate. Comparados a muitos feitiços utilitários, eles são mais chamativos e mais fáceis para os espectadores se lembrarem — Eiro estalou os dedos e extraiu as chamas de velas próximas, criando o feitiço ‘Lança de Chamas’ para referência. Ele se livrou da lança. — Acredito que tenham entendido. Agora, deixe-me mostrar exemplos de um feitiço mais utilitário.

Ele estalou os dedos e a vela da qual havia tirado chamas antes se apagou.

— Em comparação, é muito anticlimático, certo? Mas, para a maioria das pessoas, é muito mais útil do que uma lança flamejante gigante. Nesta disciplina, não aprenderão exemplos específicos de feitiços, mas aprenderão como usar magia básica para diferentes meios. Alguém consegue me dar exemplos de como magia básica de ar pode ser usada? O que vier à cabeça.

Vários estudantes levantaram as mãos. Eles deram diferentes exemplos simples, abrangendo desde como a magia e o ar podem ser usados para limpar até como pode ser utilizada para apagar ou iniciar chamas. O resto da aula progrediu tranquilamente. Os alunos estavam interessados e Eiro explicou o básico do processo de escolher o que fazer com certos feitiços.

Começou a explicar os usos mais comuns para certos feitiços e que havia uma tênue diferença entre os diferentes ‘tipos’ de magia. Magia utilitária podia ser usada para combate e magia de combate podia ser utilizada para certos meios utilitários. Em sua maioria, ele abordou as introduções básicas do que ensinaria nesta disciplina.

Assim que terminou, aguardou que os estudantes saíssem e seguiu até a outra sala. Para a primeira aula que já lecionou, ela correu muito bem. A seguir, tinha uma aula prática na divisão de combate.

Enquanto trocava de prédio, notou algumas crianças reunidas. Elas estavam amontoadas fazendo algo bastante óbvio, então Eiro não pôde deixar de prestar atenção nelas.

Quando percebeu o que elas estavam fazendo, esfregou a ponte do nariz e se aproximou. Os estudantes o viram se aproximar e soltaram o que estavam segurando.

— O que vocês estão fazendo? — Eiro questionou com um tom frio. Um dos alunos, um calouro, estava com os olhos injetados de sangue e seu corpo todo estremecia visivelmente, como se estivesse congelando. Claro, estava frio aqui fora e havia neve no chão, mas sua temperatura corporal parecia bem alta.

Atrás do grupo de estudantes, Eiro pôde ver os dois representantes estudantis da divisão de combate, Richard e Avelina Melachine. Eles estavam sentados em uma rocha e se levantaram assim que viram Eiro.

— Oh, só estávamos conversando um pouco, sabe? Fica um pouco barulhento dentro dos prédios durante a troca de aulas. Espero que não se importe — Richard comentou com um sorriso presunçoso e Eiro revirou os olhos. Olhou para o jovem com os olhos injetados de sangue e pressionou o indicador na testa do garoto.

No momento seguinte, o garoto caiu de joelhos e vomitou. O vômito derreteu a neve e, dentro do vômito, Eiro pôde ver algumas coisas que eram impróprias para o consumo. Era provável que não matassem o menino, mas o teriam feito adoecer. Eram objetos como tabaco meio fumado, bilhetes de papel que queriam esconder e até algumas pedras. No meio disso, Eiro viu até o brinco que o garoto muito usava há alguns minutos atrás.

— Algum de vocês o forçou a comer essas coisas? — Eiro questionou, seu tom ainda sem emoção enquanto derretia a neve e fazia Nelli purificar qualquer sujeira. Ele se ajoelhou e colocou a palma na barriga do garoto, usando magia de cura para fazê-lo se sentir melhor.

— Claro que não! Como saberíamos por que ele comeu todas essas coisas? Só estávamos dando algumas dicas a ele, como seus sêniores! — Richard riu, como se a sugestão de Eiro fosse ridícula. O Demônio levantou-se enquanto ajudava o garoto a ficar de pé.

Claro, Eiro sabia que Richard estava mentindo.

— Richard, você é um pirralho e tanto. Se eu tivesse o poder de tomar as decisões, faria você e sua irmã serem expulsos desta escola imediatamente pelo seu comportamento. É óbvio que não é a primeira vez que você está maltratando outros estudantes desta forma, mas vou te dar mais uma chance. Se parar de agir como um completo canalha, não irei reportar seu comportamento para o diretor.

Richard soltou um suspiro profundo enquanto se aproximava de Eiro.

— Você realmente acha que isso me assusta? Eu pensei que você já tivesse percebido quem nós somos. Acho que plebeus inferiores como você são tão ignorantes como eu pensava. Escute aqui, em vez de fazer o que você acabou de sugerir, faremos o seguinte: você vai se virar, deixar nosso novo amigo sob nossos cuidados e nunca mais nos incomodar de novo. Isto é, se você quiser que suas crianças tenham uma vida escolar satisfatória.

Eiro sabia que estava sendo ameaçado. Era claro que havia algo errado com Richard em um nível profundo. Os batimentos dele não mudaram em nada durante tudo isso. Sua irmã, Avelina, se remexia, ficando assustada ao enfrentar Eiro. Ele estava exercendo um pouco de pressão neles, afinal. Richard, no entanto, não ficou nada assustado. Sua mente estava calma e ele permaneceu controlado na frente de Eiro.

— Uhum, certo. — Eiro revirou os olhos, continuando a derreter mais da neve. Ele fez com que ela se envolvesse ao redor dos membros dos estudantes que estavam fazendo bullying com o garoto ao lado de Eiro e fez com que o seguissem.

— Vocês têm aula prática de combate agora de qualquer forma, certo? Por coincidência, esta aula é uma das poucas em que a arena é compartilhada entre todos os estudantes. Embora eu esteja ensinando os estudantes do primeiro semestre, já que vocês estarão lá de qualquer forma, tenho quase certeza de que não terá problema se eu punir vocês por ora — o Diabrete disse, sem se importar com o que Richard tentava fazer enquanto lutava para se libertar do gelo.

Parecia que ele estava tentando usar magia de fogo básica para derreter o gelo, mas a magia de gelo de Eiro era capaz de aguentar esse aumento de temperatura.

Desse modo, Eiro liderou o grupo de estudantes até a arena, onde os outros alunos já estavam reunidos. Também havia outro professor aguardando Eiro, mas ele não esperava que ele trouxesse esses estudantes dessa forma.

Kristoph se aproximou de Eiro, encarando-o com uma carranca profunda.

— Eiro, o que você está fazendo?

— Oh, eles estavam fazendo bullying com um calouro e Richard me ameaçou ao insinuar que também faria bullying com meus filhos, então aplicarei uma medida disciplinar contra eles agora mesmo. Se não se importar — Eiro disse sem rodeios e Kristoph piscou em surpresa.

— Ehhh… Não, acho que tudo bem? Você não irá machucá-los, certo?

— O quê, claro que não! Só farei com que o corpo inteiro deles esteja dolorido amanhã — o Demônio apontou enquanto estalava os dedos. — E isso vai começar com vocês correndo cinquenta voltas ao redor da arena.

— O quê? Cinquenta voltas, você é malu- — um dos estudantes questionou, mas Eiro só virou a cabeça e o encarou.

— Eu gaguejei?

Derrotado e incapaz de fazer muito contra isso agora, todos os alunos começaram a correr pela arena.

— Não esperava uma punição tão leniente…

— Kristoph, isso é só o começo. Por ora, vou me certificar de que eles estejam exaustos e com dores musculares intensas e horríveis. Conversarei com os pais de todos, é claro — Eiro comentou e Kristoph o encarou como se ele fosse louco.

— Alguns dos pais deles vivem do outro lado do país. Como espera fazer isso?

— Eu tenho meus meios de sair do ponto A ao B rápido, sabia? — ele respondeu com um sorriso e depois enviou o aluno intimidado para os outros estudantes do seu semestre. — Mas devo dizer, estou surpreso. Não achei que você falaria tão abertamente comigo.

— Bem, estava pensando em como eu poderia te matar, mas aí eu fui visitado por C. Bem, suponho que ela seja D agora… De qualquer modo, ela me assegurou que você era confiável e como eu sei que ela é a pessoa mais gentil da organização, relevarei suas ações caóticas por enquanto.

Eiro não pôde deixar de sorrir quando ouviu Kristoph falar sobre Ariella, mas antes que pudesse dizer algo, Kristoph falou:

— Bem, hoje faremos muitas práticas livres de qualquer maneira, já que temos que esperar as aulas teóricas terminarem primeiro, então tudo bem que você as faça serem assim, mas, quanto às outras turmas, eles ainda terão que prestar atenção.

—Oh, claro. Se precisar que eles tirem uma pausa ou algo do tipo, tudo bem. Só faça com que continuem após isso. não seja muito leniente com eles, caso contrário perderá o propósito — Eiro apontou e Kristoph deu de ombros.

— Justo. Certo, então vá e comece sua aula com os calouros. Você se recorda de todo o conteúdo, não é?

— É claro, tenho uma memória absoluta perfeita. Incrível, na verdade — o Diabrete comentou e o homem ao seu lado resmungou alto.

— Claro que você tem.

Assim, sem mais nem menos, Eiro foi em direção aos alunos do primeiro ano e começou a aula. Eles deveriam praticar os movimentos básicos, utilizando as armas de madeira que receberam antes. Apesar de saber o que tinha que ensinar a eles, ele começou a mudar tudo um pouquinho.

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