
Volume 4 - Capítulo 377
A Virtude do Demônio
Eiro entrou no prédio da Divisão de Artes enquanto os estudantes caminhavam até suas próximas aulas. Ele alcançou a sala onde Sammy deveria ter aula agora. A porta foi aberta e o professor ainda não estava aqui.
O Demônio espiou o interior e logo avistou Sammy sentada em silêncio. Como parecia que o professor demoraria alguns minutos, Eiro entrou.
— Então, como está indo seu primeiro dia de aula de verdade até agora? — Eiro perguntou com um sorriso enquanto parava na frente de sua filha. Ela levantou a cabeça, surpresa.
— Pai? Bem… está indo bem até agora, mas… meio chato, eu acho — ela disse.
Felizmente o controle de Eiro sobre o domínio da verdade o permitia ver através dessa pequena mentira, embora ela estivesse usando sua Habilidade Única.
— Sammy, certifique-se de não usar em excesso sua voz hoje, tudo bem? — ele perguntou, levantando as sobrancelhas. Ela percebeu o que havia feito e colocou as mãos na frente da boca.
— O-Oh, desculpa…
— Não se desculpe, você não fez por mal. Tenha mais cuidado. Não sou mais afetado por isso, mas você sim — Eiro comentou. Sammy acenou com a cabeça. — Bem, mais do que isso, já que você teve que utilizar sua habilidade para me dizer que tudo está bem, não está. Você está bem? Algo aconteceu? — Eiro questionou. Sammy virou um pouco e com cuidado a cabeça, olhando para um canto da sala, onde algumas outras garotas estavam sentadas. Elas estavam olhando para Eiro e Sammy e sussurrando entre si, zombando de Sammy.
— … Você está sofrendo bullying? — Ele perguntou. De imediato, Sammy balançou a cabeça.
— Não, não é bullying, elas são só… você sabe… um pouco malvadas.
— Um pouco… pouco malvadas? Elas estão dizendo coisas que nem eu diria aos outros. E eu matei muitas pessoas — ele comentou e Sammy virou a cabeça nervosa para olhar ao redor da sala.
— Pode dizer isso tão casualmente…?
— Claro, minha voz está infundida com magia de ar, então só você pode me ouvir agora. Não quero que nossa conversa privada seja escutada. De qualquer modo, quer que eu faça algo sobre elas? — ele sugeriu. — Sei que dizer isso pode não lhe dar a melhor das impressões depois que eu acabei de matar pessoas, mas não quis dizer isso. Eu poderia conversar com elas, ver por que estão zombando de você?
— Eu sei por que elas estão zombando de mim, pai… — Sammy respondeu com um suspiro profundo. — É porque eu não me importo com a minha aparência. Estou vestindo um uniforme padrão em vez da versão de vestido que muitas garotas da minha divisão usam… e como estamos na divisão de arte, elas têm permissão para mudar um pouco a aparência de seus uniformes para se ‘expressarem’. Então, eu me destaco ainda mais…
— Só por isso? Isso não é meio bobo?
— Claro que é, mas não muda que elas estão sendo maldosas por isso — Sammy explicou. Eiro ficou bastante incomodada ao aprender essa informação.
— Então está bem. Acho que só há uma forma de impedir isso — O Demônio comentou, fazendo uma anotação mental de como esmagar metaforicamente essas crianças por serem malvadas com sua filha.
— De qualquer forma, além disso… Como as suas aulas foram até agora? — ele perguntou, tentando mudar o tópico por ora. Sammy sorriu em resposta.
— Foi bem legal, eu acho. Tive aula de história sobre músicos famosos e foi bastante interessante. Agora, tenho aula prática de música para cantar…
— Vocês têm isso em grupo? É interessante? — Eiro comentou. Fazia sentido, seria um pouco demais ensinar cada aluno de forma individual.
— Quero dizer, acho que aprenderemos diferentes técnicas de como treinar nossa voz e quais tipos de classificação combinam melhor. Coisas do tipo.
— Então você será a melhor nessa aula. Não conheço ninguém que consegue controlar sua voz melhor do que você — Eiro disse com um sorriso e Sammy olhou para ele, também sorrindo.
— Obrigada, pai.
Assim que ela disse isso, o professor entrou na sala, então era hora de Eiro sair. Sammy acenou para Eiro enquanto ele saía e o Demônio acenou de volta. Claro também enviou um olhar rápido para as garotas sentadas no canto da sala, para garantir que elas percebessem que haviam feito besteira.
Se elas estavam tirando sarro de como Sammy estava vestida, ele mandaria fazer as melhores roupas do mundo para ela.
—
— Com licença? Você não tem permissão para entrar, uma aula particular está em progresso — uma bibliotecária parou Eiro quando ele estava prestes a abrir uma das portas da biblioteca e Eiro soltou um suspiro.
— Eu sei. Sou um professor e, coincidentemente, o guardião do jovem que está tendo aulas aqui. Só quero ver como ele está.
Então, sem se importar com a bibliotecária, Eiro abriu a porta e entrou. De imediato, Felix o avistou e sorriu para ele com um aceno rápido. O professor dele também olhou.
{O que você está fazendo aqui? Você está nos incomodando} ele disse em linguagem de sinais.
A biblioteca ao lado de Eiro deu um passo para frente e olhou para o Demônio.
— Ah, ele perguntou o que você-
— Só estou aqui para observar por um tempo, se estiver tudo bem para você. Não se preocupe, ficarei em silêncio — Eiro respondeu, falando ao mesmo tempo que usava linguagem de sinais.
O idoso acenou com a cabeça e apontou para a mulher ao lado de Eiro.
{Eu sei, estava falando com ela. E não tente ser engraçado, isso não combina com você.}
{Bem, Felix achou engraçado.}
{Na verdade, eu só me acostumei com suas piadas de pai horríveis… e você nem é meu pai…} Felix respondeu com um sorriso irônico. Suas mãos estavam cobertas de tinta, deixando Eiro ainda mais curioso sobre o que o garoto estava fazendo.
Eiro virou a cabeça para a bibliotecária.
— Eu disse que poderia estar aqui, não disse?
— C-Certo, desculpa por presumir… — ela responde e, nervosa, saiu da sala.
{Você parece muito respeitado} Eiro disse.
{Não, aquela jovem é uma fã do meu antigo trabalho.}
{Certo, me disseram que você costumava ser um artista renomado} Eiro comentou enquanto se aproximava de Felix e do seu professor, que acenou a cabeça.
{Eu já me interessei por isso.}
{‘Interesse’, hein?} Eiro suspirou. Ouviu que o trabalho desse homem estava no museu aqui. Ele criou um estilo novo de arte e era a história da arte ambulante.
{Mais do que isso, estou bastante impressionado com esta criança. Ele já é bastante habilidoso. Você deve ter conseguido um bom professor para ele} o professor comentou e Eiro balançou a cabeça.
{Não contratei, não sou o pai dele. Na verdade, o pai dele nunca o permitiu pintar ou esculpir, embora seja o maior talento de Felix.}
O professor arregalou os olhos.
{Então, ele não possui experiência? Pensei que ele só estivesse sendo humilde na minha frente…}
{Haha, certo. Não. Enquanto arte é o maior talento dele, seu segundo maior seria se gabar. Se ele diz que é inexperiente, então isso é verdade} o Demônio riu, com uma piscadela direcionada para Felix, que lia os sinais de mão com um sorriso estranho.
O professor virou a cabeça para Felix e olhou para a pintura dele.
{Então, isso é ainda mais impressionante do que pensei. Sabia que deveria haver uma razão para o Rei ter pedido para eu ser um professor particular tão de repente e aí está.}
{Fico feliz que esteja gostando de ensiná-lo, então.}
{Gostando? Estou em êxtase!} o professor disse com um grande sorriso, substituindo sua expressão anterior. Então, Eiro olhou para a pintura que Felix desenhou e sua ficou em branco por um instante.
Esta pintura retratava algo que aconteceu. Não com Felix, mas com Eiro. Foi o momento em que a ‘Marca do Diabo’ de Eiro produziu a ‘Marca da Ira’.
Parado ali, dentro de uma bolha de gelo, envolvida em águas turbulentas, um Demônio agarrava o próprio rosto. O mundo ao redor da bolha desaparecia e tudo o que se podia ver era a raiva que aquela criatura sentia naquele momento.
Aquele sentimento puro de fúria assassina.
— Então, você estava acordado durante isso, hein…? — Eiro murmurou baixinho, sem mover as mãos. O professor estava olhando para a pintura, mas Felix não. Ele olhava para Eiro, para ver como ele reagiria, sabendo que o pintou dessa forma.
{Eu… sinto muito. Se quiser, eu me livro disso agora mesmo, eu…}
{Não. Está ótimo. Você fez um bom trabalho mostrando como eu me senti naquela época. Tenho certeza de que você se sentiu muito parecido, afinal.} Eiro comentou com um sorriso, desta vez fazendo os sinais de mão.
{Isto… Essa pintura deveria ser você?} o professor perguntou e Eiro assentiu com a cabeça.
{Uhum, sim. Algo de errado com isso? Eu tenho uma forma única de lidar com minha fúria.}
{Entendo… Então, não irei perguntar por que ele retratou você como um demônio. Isso deve ser muito particular.}
{Está tudo bem, não se preocupe. Sou uma pessoa bastante irada, se eu quiser ser e ‘Ira’ é algo conectado aos Demônios. Tenho um certo passado com demônios, então é bem provável que seja o motivo da mente a dele ir para isso. Pelo menos eu espero que sim… Gostaria que Felix não me visse realmente como um monstro.}