A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 376

A Virtude do Demônio

Eiro observou com curiosidade enquanto os estudantes começavam a trabalhar. Eles inspecionaram a peça de madeira e começaram a esboçar suas ideias. A maioria deles tinha pelo menos um pouco de experiência com marcenaria, então suas ideias eram bastante realistas quando se tratava do que poderia ser feito com a madeira que receberam.

Alguns deles só estavam pensando em coisas ridículas e inúteis, como uma espada longa de um metro, feita conectando diferentes partes da lâmina, algo que tornaria essa ‘espada’ muito instável para ser usada.

Apesar de que, em sua maioria, todos estavam fazendo um bom trabalho. Eiro ficou orgulhoso com a ideia de Rudy. Em parte, por ser seu filho, mas também porque parecia diferente do resto. Ele queria fazer um modelo, algo como um tipo de escultura. Entretanto, não entalhando a estatueta na madeira, mas ao entalhar peças individuais e juntá-las como um tipo de puzzle.

Desse modo, o tamanho do modelo poderia ultrapassar vinte e cinco centímetros em qualquer direção, se o fizesse certo. Rudy só parecia incerto sobre o formato do modelo em si, ou seja, o que o modelo exibiria.

Ele olhou para Eiro, que encontrou seu olhar. O Demônio se aproximou para que Rudy pudesse fazer sua pergunta.

 — Você acha que eu consigo modelar um certo monstro…? — ele perguntou. Eiro olhou para ele, pensou por um momento e acenou a cabeça.

— Claro, não há nada de errado com isso. Muitos artistas exibem monstros em seus trabalhos. Não há nada de errado com isso, sério.

Claro, Eiro sabia de qual monstro Rudy estava falando pela forma como estava agindo. Ele se sentiu bastante honrado, na verdade. Logo, o esboço foi concluído e Rudy também anotou as diferentes peças que precisaria para construir isso sem problemas.

Depois que tempo suficiente se passou para todos desenvolverem suas ideias, Hermia passou pela sala coletando as ideias.

— Algumas são únicas — ela comentou. — Existem, no entanto, dois de vocês que eu gostaria de elogiar. Rudy e Simon. Vocês dois conseguiram descobrir uma forma de utilizar quase todas as partes da madeira, desperdiçando o mínimo possível. Além de os conceitos serem bastante interessantes.

Hermia logo entregou pequenas caixas para todos, que pareciam conter as ferramentas básicas para serem usadas nesta aula.

— O primeiro projeto em que vocês trabalharão será a criação do que acabaram de desenhar. Claro, não precisa ser igual ao que fizeram, podem mudar algumas partes, aprimorá-la ou até ir para uma ideia diferente se perceber que a sua é impossível para você — a professora explicou.

Eiro continuou ouvindo, até que os estudantes começaram a testar as novas ferramentas no bloco de madeira. Enquanto isso, a professora olhou para Eiro com um sorriso curioso.

— Agora, teria como você nos mostrar um pouco da sua própria habilidade? Estou curiosa sobre o que alguém capaz de criar tal prótese poderia criar em cerca de uma hora!

O Demônio levantou as sobrancelhas em resposta e se levantou lenta do seu assento.

— Claro, não me importo. Possui alguma madeira que eu possa utilizar?

— Claro. Você pode usar qualquer madeira que temos em nosso depósito. Tenho bastante orgulho da variedade — Hermia explicou de forma presunçosa. Ela liderou Eiro até lá enquanto o Demônio pensava sobre o que poderia fazer com o que estava à sua rente.

No fim, quando escolheu seu material, já havia tomado sua decisão do que fazer com ele. Infelizmente não havia nada especial ali, madeiras comuns e entediantes.

Por sorte, Eiro tinha sua própria mochila, que continha uma pequena caixa com alguns pedacinhos de madeira da sua própria árvore, que ele combinaria com a madeira que Hermia lhe deu para criar um pequeno efeito especial, por assim dizer.

Eiro levou a madeira de volta à sala de aula e começou a trabalhar. Só por diversão, ele pegou emprestado parte do conceito de Rudy, criando um modelo a partir de muitos pedaços menores e misturou isso com seu conhecimento como protesista.

Para que conseguisse fazer algo rápido, seu modelo seria algo pequeno. Um pardal parecia adequado, já que também era bastante leve. Isso ajudaria a tornar o efeito mais fácil.

Assim que se sentou ali, ele retirou suas ferramentas da bolsa e colocou a caixa ao seu lado, retirando as ferramentas que precisaria e colocando-as ao lado uma da outra.

Depois, encostou a ponta do dedo na primeira ferramenta e ela desapareceu num instante, surgindo em sua outra mão enquanto Eiro começava a entalhar a madeira. Pequenos pedaços foram entalhados primeiro, as partes que ficariam na parte interna do pardal.

Ele criou os mecanismos para fazê-lo se mover enquanto entalhava tudo e, logo, tinha toda a parte interna pronta, com exceção de algumas partes centrais. Estas foram feitas com a própria madeira de Eiro, para que pudesse ter algum tipo de controle extra sobre o pardal.

Eram pequenas engrenagens, pinos, juntas e objetos minúsculos. Pequenos por si só, mas capazes de ter grande influência sobre o movimento de todo o modelo.

As últimas partes que precisava fazer eram o exterior, que criou para serem o mais próximo possível de penas.

Assim que todas as partes foram concluídas, Eiro guardou suas ferramentas e estalou seus dedos, começando a juntar o corpo do pardal. Pouco a pouco, ele cresceu e, dentro de um minuto ou dois, estava feito.

O pardal permaneceu na mesa na frente de Eiro e, enquanto levantava a cabeça, ele percebeu que os estudantes haviam se reunido ao redor para observá-lo trabalhar. Até Hermia parecia hipnotizada, em especial por conta da habilidade de Eiro em fazer suas ferramentas mudarem de uma mão para outra instantaneamente.

Com um leve sorriso, Eiro colocou o pardal de madeira em sua mão. Permitiu que sua mana fluísse para dentro dele, junto com um pouco da sua própria Força Vital, para que conseguisse controlar com mais facilidade a magia dentro do pardal.

Esta magia era simples magia de ar, que preencheu cada espaço vazio dentro do pardal. Com cuidado, Eiro invocou o Três de Espadas dentro da sua prótese, enquanto envolvia o pardal com suas mãos. Sem ninguém ser capaz de ver, fundiu as lâminas com uma parte específica do pardal.

Então, após fundir as próprias lâminas com magia de ar para torná-las invisíveis, algo possível após Eiro ter infundido sua Força Vital nos fios. Conseguia controlar o próprio pardal como quisesse.

Ele começou a pular ao redor da mão de Eiro, imitando um pardal real, batendo suas asas e voando ao redor da sala com magia de ar.

— Como isso… você está usando magia? — Hermia questionou, perplexa. Eiro sorriu e acenou a cabeça.

— Claro, este tipo de coisa é impossível sem magia — o Demônio explicou como se fosse óbvio.

Fez o pardal de madeira flutuar, fazendo-o pousar ao seu lado de novo. Ele ainda continuou pulando como um pardal faria, para tornar sua imagem mais mágica para os estudantes aqui.

— Não posso prometer que vocês conseguirão fazer coisas assim no futuro. Não estou utilizando apenas minhas habilidades de marcenaria, afinal. Entretanto, se desejarem, podem dar uma nova vida para uma vida velha — Eiro sorriu, estalou os dedos e fez o Três de Espadas desaparecer, de modo que o pardal não fosse nada além de uma estátua de madeira, parada na mesa na frente do Diabrete.

— Como acabei de mostrar a vocês, embora ser criativo seja importante, inspirar-se naquilo que já existe também pode levar à criação de coisas maravilhosas. Como isto, vocês podem ser inspirados pela natureza ou pelo trabalho das outras pessoas. Depende de como vocês querem que as coisas que façam interajam com o mundo ao redor — Eiro explicou, pegando o pardal e o colocando em sua bolsa.

Os estudantes, animados para começar a trabalhar após verem o pardal de Eiro, voltaram para suas próprias bancadas e continuaram a praticar com suas novas ferramentas.

Enquanto isso, Eiro os observava, dando uma olhada em que tipo de pessoas os estudantes eram. A maioria era bastante sincera, felizes por estarem em uma escola prestigiosa. Só de a frequentarem, teriam uma quantidade imensa de oportunidades futuras. Se eles se graduassem, ficariam bem pelo resto da vida.

Em especial aqui nesta divisão, em que muitos estudantes eram de famílias mais pobres, isso era algo que eles apreciavam e reconheciam. Eiro não teria muitas chances de lecionar aqui, mas tinha certeza de que aproveitaria as poucas oportunidades que tivesse.

Depois que a aula acabou, ele permaneceu dentro da sala enquanto os estudantes saíam, para ter outra breve conversa com Hermia. Ele ficou feliz de conhecê-la; ela parecia uma pessoa legal, uma que ficou animada com o trabalho dele.

Quando Eiro saiu, alguns estudantes outras turmas estavam entrando na sala e ele percebeu que Rudy estava o esperando no corredor.

— Não tem mais nenhuma aula para ir? — Eiro perguntou com um sorriso. Rudy coçou a bochecha.

— Claro que tenho, só queria conversar com você ir. Você provavelmente não me acompanhará o dia todo, não é?

— Não, não vou, desculpa. Eu ia ver como Sammy e Felix estão. Depois disso, meu primeiro dia estará quase no fim, só terei que visitar o escritório para resolver alguma papelada — o Demônio explicou.

— Oh, certo! Bem, então, como nós temos que trabalhar nesse projeto por um tempo, não apenas na aula, poderia pedir para você…

— Não interferir? — Eiro perguntou e Rudy acenou com a cabeça.

— Não é que eu não apreciaria sua ajuda, só quero fazer isso por conta própria. Quero ficar melhor nisso, sabe? — o garoto respondeu.

— Claro. Não se preocupe, Rudy.

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