
Volume 4 - Capítulo 375
A Virtude do Demônio
Enquanto a pequena esfera branca-dourada desaparecia, a mente de Eiro raciocinava, confusa. Por que ele tinha afinidade para o Elemento Sagrado? Seria por causa do tempo que passou com Avalin? Ou talvez até porque as Chamas Sagradas o consumiram?
O que aconteceria se isso continuasse a aumentar ao longo do tempo e Eiro adquirisse a Magia Sagrada que o despedaçaria quando a despertasse?
Eiro começou a entrar em pânico, seu coração acelerou e sua respiração ficou ofegante. Por sorte, Bavet percebeu isso.
— Acalme-se. Todos nós sabemos que você é anormal. Vamos dar um jeito nisso — o slime que havia se fundido com o corpo de Eiro sussurrou em sua orelha e o Demônio conseguiu se acalmar.
Bavet estaca certo, ainda não havia razão para se preocupar. A forma como a afinidade funcionava para Eiro já era estranha o suficiente; não havia motivo para entrar em pânico com um pouco de afinidade com Energia Sagrada.
Exceto que todos os outros nesta sala estavam entrando em pânico. Falando entre si, correndo até Eiro e fazendo perguntas. Merlin quase ficou inconsciente devido ao choque.
— Como você tem tantas afinidades e como elas são tão fortes?!
— Consegue nos mostrar alguns feitiços?
— Você é mesmo humano?!
Eiro sorriu enquanto dava um passo para trás por conta de todas essas crianças, enquanto Clementine exibia uma expressão de surpresa, sentada em seu assento.
Baixinho, ela sussurrou algo que Eiro conseguiria escutar:
— Papai, você é tão incrível!
Ao ver que Eiro estava um pouco sobrecarregado, Merlin fez as crianças se sentarem em seus assentos.
— Silêncio, silêncio, pode não ser comum ver uma pessoa com onze afinidades elementais, das quais cinco são fortes demais para serem medidas por este dispositivo complexo, entretanto não há necessidade de incomodar Eiro por isso.
Merlin olhou para Eiro com uma carranca profunda e sussurrou:
— Mas você precisa me explicar isso mais tarde.
A não parecia de raiva, mas como uma expressão animada. Como se Merlin quisesse fazer experimentos com Eiro para descobrir como ele tinha tantas afinidades.
— Falando sério, eu sabia que você era insano, mas nunca pensei que seria. Bem, tão insano, cara — Sarius sorriu, flutuando ao lado da cabeça de Eiro. O Demônio virou a cabeça para o lado e murmurou:
— Cala a boca.
Merlin arregalou os olhos após ouvir isso e o Demônio percebeu que criou um mal-entendido.
— Não, eu não estava falando com você, estava falando com ele.
Eiro apontou para o lado e estalou o dedo, fazendo Sarius aparecer ao seu lado.
— Ele é bastante irritante.
— A-Ah. tenho c-certeza de que ele é — Merlin murmurou confuso, enquanto Sarius reclamava.
— O que você quer dizer, irritante?! Eu sou o futuro Rei das Salamandras, como posso ser irritante?
— Nelli — Eiro esfregou a ponte do nariz e estalou o dedo de novo, fazendo Nelli aparecer junto de uma esfera de água grande o suficiente para cobrir Sarius, extinguindo as chamas dele.
— Por que eu sempre crio situações incômodas para mim mesmo? — Eiro resmungou baixinho, percebendo que o barulho da sala havia ficado ainda mais alto quando viram os dois Espíritos elementais aparecerem na sua frente.
— Eiro, se você acha isso estranho, espere até eles descobrirem que você é abenç-
— Nelli, eu juro pelo nosso contrato que eu- — Eiro rugiu, parando antes de terminar. O Diabrete se virou em direção à turma e começou a falar em voz alta: — Agora, acho que é minha vez de me apresentar. Meu nome é Eiro. O mesmo que se apresentou durante o festival, como vocês podem ter adivinhado. Como podem ver, tenho um talento mágico incrível. Por isso que não só lecionarei muitas aulas práticas de magia, como também algumas teóricas. Se tiverem alguma dúvida sobre magia, tenho certeza de que poderei respondê-la, então, por favor, me procurem se tiverem alguma dúvida a esse respeito.
— O-obrigado pela sua apresentação, Eiro. Agora, vamos continuar com nosso cronograma regular, por favor — Merlin adicionou, retirando um pouco do peso dos ombros de Eiro e acalmando um pouco a sala. O Demônio se aproximou da parede enquanto estalava os dedos e fazia Nelli e Sarius desaparecerem da vista de todos.
O resto da classe prosseguiu de forma normal, só que Eiro acabou derrotado. Ele deveria ter sido mais cuidadoso.
Se tivesse, de alguma forma, manipulado sua mana de alguma forma específica, poderia ter enganado o sistema sobre o qual o orbe funcionava. Agora isso se tornou um pouco incômodo.
— Na verdade — Eiro murmurou —, isso pode ter sido muito útil.
O fato de que um professor com onze afinidades elementais seria espalhado rapidamente. Seu nome se espalharia dentro da escola e, claro, alcançaria os pais dos estudantes, estabelecendo Eiro como um indivíduo extraordinário. Na verdade, isso era o que queria a longo prazo, então não era um grande problema.
Isso o ajudaria a aprender a lidar com tanta atenção de uma vez. Assim que a aula terminou, Eiro foi falar com Merlin, prometendo que conversariam mais tarde. O Demônio passou por Clementine e passou as mãos por seus cabelos enquanto saía para ir às outras divisões da escola, para fazer um tour rápido, pelo menos.
Estava interessado nas divisões de Arte e Artesanato, por razões óbvias. Como o local mais perto era o prédio da Divisão de Artesanato, dirigiu-se para lá.
A reunião introdutória para essa divisão já havia se encerrado para que os estudantes pudessem ir para as primeiras aulas do dia. Como Eiro conhecia todo o cronograma de Rudy, chegou lá no momento perfeito, desde que a primeira aula dele era ‘Introdução à Marcenaria’.
Eiro esperou na frente da sala pelo professor chegar. Uma artesã anã de meia-idade. Este tipo de divisão não era cheio de nobres, desde que nenhum nobre enviaria suas crianças para se tornarem artesãs, mesmo que fosse o sonho da criança. A mesma situação ocorria com os professores. Portanto, Eiro conseguiu se dar bem com ela muito rápido, em especial porque ela estava interessada no artesanato por trás de sua mão.
— Então, quem fez essa peça maravilhosa? — ela perguntou, curiosa e Eiro sorriu de modo presunçoso.
— Eu fiz, na verdade. Sou um protesista experiente. Meu professor se certificou de me treinar para trabalhar com qualquer tipo de madeira da melhor forma possível na minha cabeça, então acredito que sou muito bom em entalhe e marcenaria no geral.
— Intrigante! Mas devo perguntar: o que é essa madeira? Ela quase emite ar frio, mas é bastante quente ao toque.
— Ah, é uma madeira mágica especial. É o motivo pelo qual consigo fazer isso — Eiro explicou, desenhando um pequeno círculo mágico no ar com os dedos.
A professora olhou para a mão de Eiro e depois para o rosto do Demônio.
— Como você consegue mover uma mão de madeira dessa forma?
Eiro piscou para ela com um sorriso no rosto.
— Segredo comercial. Agora, vamos lá, não vamos deixar os estudantes esperando. Tenho certeza de que você não se importaria se eu observar por um tempo?
— Claro! Vamos lá! — a professora exclamou, embora ainda estivesse curiosa com a mão de Eiro. Os dois entraram na sala e o Diabrete avistou Rudy em uma das estações de trabalho com um cubo de madeira de 25 centímetros colocado à sua frente.
— Bem-vindos à ‘Introdução à Marcenaria!’ Meu nome é Hermia Viatella, sou a coordenadora da especialização em Marcenaria — a professora se apresentou. — E este aqui é Eiro, outro professor da nossa escola que também se interessa bastante por esta arte. Ele observará a nossa outa hoje, já que é novo na escola.
Eiro sorriu para os alunos e acenou para eles.
— Agora, quem pode me dizer o que é o mais importante quando se trata de trabalhar com a madeira? — Hermia perguntou e houve um estudante que levantou a mão na hora, na verdade, aquele sentado ao lado de Rudy.
— A madeira em si! Se você escolher madeira de baixa qualidade, não será capaz de fazer nada com ela, não importa quão habilidoso você seja — ele exclamou, pensando que a resposta era óbvia.
Apesar de não parecer um nobre, parecia que sua família era bastante rica, então era provável que só tenha utilizado os melhores materiais. Felizmente, Hermia não concordou.
— Veja, essa resposta está completamente errada. Pode parecer lógica, mas não. Sim, você aí? Rudy, não é?
— Sim, é Rudy. Bem, a qualidade da madeira é importante, claro, mas um verdadeiro artesão consegue fazer algo incrível até com sobras. Madeira de alta qualidade pode ser uma base melhor e facilitará criar algo bom, mas sua própria capacidade de extrair o melhor do que lhe é dado é o mais importante.
Hermia olhou de volta para Rudy e acenou a cabeça.
— Exato, jovem. Você disse perfeita: “Sua própria capacidade de extrair o melhor do que lhe é dado.” Pensamento criativo e a habilidade de colocar essa criatividade em prática. O que uma pessoa pode ver como lixo pode ser o tesouro de outra. Talvez percebam isso com mais clareza após nossa primeira prática. Vocês possuem alguns lápis e papéis ao lado. Olhem para a madeira que lhes foi fornecida e pensem sobre o que querem criar com ela. Pode ser o que quiser, contanto que o único material utilizado seja esse único bloco de madeira.