A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 374

A Virtude do Demônio

— Maneira autodestrutiva.? O que você quer dizer? — Eiro questionou com uma carranca. Ele tinha uma breve ideia do que Merlin queria dizer, mas queria se certificar.

— Claro que quero dizer sobre ensinar sua criança a se machucar para curar os outros, seu tolo!

— Então, você é uma das pessoas a quem Solomon contou sobre a habilidade deles? — Eiro suspirou fundo, e Merlin o encarando.

— Falando de sua Maj-

— Escute, sou um amigo próximo de Solomon, ele não se importa quando eu falo assim com ele e não irei me referir a ele assim quando ele nem estiver presente. Agora, quanto à habilidade de Clementine: quanto você sabe sobre isso? — Eiro perguntou. Merlin resmungou para si, mas acenou a cabeça.

— Que ela tem a habilidade de receber o ferimento de outros para curá-los. É uma habilidade perigosa e o fato de que você a força a utilizá-la diariamente é repugnante! — o mago exclamou e Eiro esfregou a ponte do nariz.

— Não estou forçando-a a fazer isso, a habilidade em si que a força. Ela não recebe os ferimentos, ela os ‘come’. Se não fizer isso com frequência, ela enlouquecerá ou morrerá de fome. Então, pedi para que ela comesse pequenos ferimentos, como cortes e machucados do tipo, que ela mesma pode curar em poucos instantes. Ela sacia sua ‘fome’ dessa forma — Eiro explicou. Merlin olhou fundo os olhos do Diabrete.

— Então… e quanto àquele garoto que você força a se machucar para que ela possa ‘comer’ os ferimentos?

— Arc? Suponho que, como Solomon confie em você para manter o segredo de Clementine, eu também possa te dizer o de Arc. Ele também possui uma habilidade especial. Ela o torna resistente à dor, literalmente não sente o corte. Claro, se eu não soubesse que Clementine estaria ali para curá-lo, eu nunca faria com que ele fizesse algo do tipo.

Merlin não tinha certeza se o que Eiro dizia era verdade, mas este homem parecia sincero, pelo que conseguia dizer, mas antes que conseguisse chegar a uma conclusão, Eiro olhou fundo nos olhos do mago.

— Para deixar claro: eu nunca, jamais, colocaria minhas crianças em perigo. Tudo o que eu faço é para garantir que elas estejam seguras no fim e que possam viver a vida que desejarem, mesmo que eu me vá no futuro.

O velho fechou os olhos e abaixou a cabeça.

— Peço desculpas. Parece que te julguei mal.

— Não se preocupe. Você agiu assim porque estava preocupado com elas. Não há como eu ficar bravo por isso. Entretanto, como um mago, deve saber que compreender toda a situação é muito importante — com uma piscadela, Eiro continuou caminhando e Merlin acenou a cabeça. Os dois entraram juntos na sala de aula. Ela tinha o mesmo formato da anterior, só que este local era mais adequado para práticas com magia.

Havia diferentes gemas colocadas por todo o local e havia um grande orbe esférico no centro. Estava disposto de forma que pudesse ser removido com facilidade, então estava ali para esta aula. Era mais alto do que Eiro, no entanto.

Os estudantes já estavam reunidos, aguardando os professores.

— Por favor, sentem-se, começaremos — Merlin disse, sua voz ecoando pelo longo salão. — Hoje, falaremos sobre algumas questões organizacionais e depois testaremos a força e progresso das capacidades mágicas de todos. Os primeiros alunos também terão suas afinidades oficialmente avaliadas.

Eiro levantou a sobrancelha e olhou para o grande orbe atrás dele. Este era o instrumento utilizado para medir isso, muito diferente do processo que Eiro conhecia.

A primeira parte da aula foi simples, igual a que Eiro havia escutado na aula anterior, então não prestou muita atenção. Em vez disso, olhou para os estudantes para se recordar de seus rostos.

Cerca de meia hora depois, Merlin caminhou na frente do grande orbe e bateu suas palmas.

— Agora, nossos representantes estudantis virão aqui e nos mostrarão o que está prestes a acontecer.

Os dois estudantes, mais uma vez um jovem e uma jovem, desceram os degraus e pararam na frente do orbe. Para Eiro, parecia que eles eram bastante estudiosos e pessoas abertas. Um excelente contraste com os pirralhos de mais cedo.

— Primeiro, todos os calouros terão suas afinidades testadas. Já houve alguns testes preliminares antes de entrarem, mas como gostaríamos de saber mais detalhes, utilizaremos este dispositivo especial. Você coloca a mão em sua superfície e permite que sua mana flua para ele. As formações complexas criadas por um Artífice experiente analisarão tudo e transformarão suas afinidades em imagens observáveis acima dele. Aqui, deixe-me mostrar — o jovem explicou o processo e fez como explicou.

 A mana dele fluiu para o orbe e girou dentro da névoa branca dentro dele. Após alguns segundos, a névoa se retraiu e se transformou em uma rocha do tamanho de um punho. Depois, esta rocha desapareceu e um pequeno tornado se formou. Era minúsculo, no entanto, do tamanho de um dedo.

— Como podem ver, tenho duas afinidades. Terra e Vento. O tamanho da imagem mostra quão forte sua afinidade é. Nosso caro professor Merlin interpretará a imagem utilizando outro pequeno dispositivo criado por um artífice. Agora, chamaremos todos os calouros para frente na ordem alfabética de seus sobrenomes.

Eiro estava sentado em sua cadeira e cruzou as pernas, observando os primeiros estudantes se aproximarem. Ao considerar que o sobrenome do primeiro estudante era ‘Abeth’, aqueles sem um sobrenome seriam chamados por último.

Assim que pensou nisso, sobrou uma aluna no final. A plebeia sem um sobrenome. Havia outros plebeus, mas só por ser um plebeu não significava que não tinha um sobrenome. Muitas pessoas ricas e influentes, que talvez fossem plebeus, ainda tinham sobrenomes para facilitar as coisas.

Clementine se aproximou, com algumas crianças nobres sussurrando e rindo entre si, mas Eiro não pôde deixar de sorrir por conta do que estava prestes a ocorrer. Ele tinha certeza de que a afinidade de Clementine com Água e Luz era a maior que já tinham visto ali. Talvez até maior do que a de qualquer outro estudante ou professor aqui na escola.

Ela olhou nervosa para Eiro, que acenou a cabeça com um sorriso para encorajá-la. Respirou fundo e colocou a palma no orbe, sua mana fluiu para dentro dele. Devagar, a imagem de água foi criada no centro do orbe. Ela fluiu para fora dali e se tornou uma grande esfera. Uma que ocupava mais da metade de todo o orbe. A sala ficou em silêncio, enquanto a água desaparecia para ser substituída por uma esfera branca de luz que era um pouco menor do que a esfera de água.

Nervosa, Clementine deu um passo para trás e olhou para os outros estudantes, que a encaravam em choque.

— Essa… coisa está quebrada? — um deles murmurou, confuso. — Não há como ela possuir tal-

— Espera, mas ela não é a garota do festival?

— Você está certo, aquela que criou a Serpente do Mar gigante!

Devagar, os alunos mais velhos começaram a perceber quem era essa garota. Os calouros já sabiam do que ela era capaz, afinal, já haviam passado duas semanas juntos. Com as bochechas coradas, Clementine subiu de volta os degraus e se sentou ao lado de algumas garotas com quem parecia ter feito amizade.

Mas então, um estudante levantou a mão. Merlin o chamou e o aluno perguntou.

— Seria possível para nós sabermos como suas afinidades são?

Merlin pensou por um momento, aproximando-se do orbe.

— Claro, com prazer.

O velho colocou a palma na superfície de cristal, enquanto todos os estudantes se concentraram no que viam. Até Eiro ficou bastante curioso.

Mas o que todos viram não era um elemento comum, mas algo diferente. No centro do orbe, letras brilhantes começaram a flutuar, formando uma esfera que cobriu cerca de um quarto do orbe.

— O único elemento com que possuo afinidade não pode ser chamado de elemento. É mais um princípio do que algo tangível, como o chão sob nossos pés ou o ar que respiramos. É chamado de ‘Arcana’. Minhas capacidades práticas de conjuração podem ser limitadas, mas tenho a oportunidade de aprender sobre magia em profundidade. Exploraremos mais sobre este tópico em uma das minhas aulas, no entanto.

Eiro encarou as letras.

‘Runas.’

Elas eram runas. E não quaisquer runas, elas eram runas antigas, de uma linguagem que ninguém era capaz de aprender. Seu coração começou a acelerar. Sério, Eiro teria que ter uma conversa com Solomon alguma hora. O fato de ele ter escondido essa pessoa dele era quase frustrante, mas, neste instante, Eiro só ficou animado.

— Agora, meu colega. Também nos mostrará suas afinidades? Você certamente parece ter algumas delas, não? — Merlin comentou, recordando a todos que assistiram ao festival sobre o que Eiro os mostrou.

O Demônio se levantou e se aproximou do orbe.

— Claro, vamos esperar que essa coisa aguente — Eiro riu. Não se importava em mostrar esse tipo de coisa. De qualquer forma, não mudaria nada e Eiro já estava preparado para mostrar suas afinidades.

Eiro inseriu sua mana na esfera de cristal e deu um passo para trás. O primeiro elemento mostrado foi água. Ela encheu lentamente o orbe, excedendo com facilidade a afinidade de Clementine, até que o orbe fosse totalmente preenchido, sem um único local vazio. A água então congelou para o elemento gelo.

Depois, o gelo desapareceu, sendo substituído por um tornado devastador. Um que também preenchia todo o orbe. Após isso, surgiu uma rocha, mais uma vez, preenchendo o dispositivo por um todo. O mesmo pode ser dito para as chamas que vieram depois disso. As chamas brilharam e deram às sombras, o primeiro elemento que não cobri tudo. Depois veio a Natureza, mostrando-se na forma de raízes que cresciam umas ao redor das outras para formar uma esfera que cobria metade do orbe.

Então, uma energia roxa-rosa preencheu um quarto do orbe, representando a magia de Gravidade. Depois veio uma névoa preto-roxo e sinistra com cerca do mesmo tamanho do orbe da gravidade. Essa era a Energia Profana.

Por último, surgiu uma pequena esfera branca-amarelada, do tamanho de um punho, flutuando ali. Embora ninguém, exceto Eiro e Merlin, soubesse o que isso significava: Magia de Morte, revelada por meio de um orbe de ossos.

Mas, assim que Eiro se virou, o que surgiu no centro foi um orbe de luz branco-dourado muito, muito pequeno. Era do tamanho da unha do mindinho de Eiro.

Uma pequena esfera representando a afinidade para Energia Sagrada dentro deste demônio.

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