
Volume 4 - Capítulo 373
A Virtude do Demônio
Isso estava ficando interessante. O Demônio exibiu um sorriso grande no rosto enquanto olhava nos olhos de Kristoph. Ele afastou o punho do homem mais uma vez, desta vez utilizando magia de vento como apoio.
— Sabe, eu não planejava utilizar magia durante esta luta, mas, como você está utilizando os benefícios de ser uma Letra, não podemos dizer que isso é injusto, podemos? — Eiro perguntou e Kristoph congelou na hora.
— Como você-
— Exato, como eu sei? Pergunte a si mesmo, amigo. Agora, qual letra você é? B? Talvez até A? — Eiro continuou parado, parando o duelo enquanto Kristoph exibia um olhar nervoso.
— Não vejo como isso seja da sua conta.
— Oh, mas certamente é. Preciso enfrentar você durante minha conquista da organização, afinal — o Demônio sussurrou, alto o suficiente para que Kristoph pudesse ouvir. O homem na sua frente arregalou os olhos ao ouvir isso.
— Você… você é o cara que está causando problemas na organização? Sabe quantas pessoas você matou?
— Ah, você quer dizer dentro da organização ou no geral? Bem, de qualquer forma, a resposta seria ‘muitas’ — Eiro sorriu. O olhar no rosto de Kristoph se tornou mais afiado. Parecia que ele era o tipo mais raro de membro da organização: o tipo que se importava com os outros.
— Por que você está fazendo tudo isso? O que a organização já fez para você? — Kristoph questionou. Eiro não precisou pensar muito para responder.
— Nada. É um incômodo tê-los por perto e acho que seria legal conhecer as pessoas da organização principal. Não aquela da qual fazemos parte, mas aquela que a lidera. Sabe o que quero dizer?
— Você não deveria possuir esse conhecimento! Como você…?
— Fácil. Sou muito esperto. Bem, de qualquer modo, vamos continuar esta conversa mais tarde. Por ora, desculpa por isso, mas preciso vencer este duelo muito rápido, vamos ter uma boa luta mais tarde, eu gostaria de ver quão forte você é.
Com isso, Eiro deslizou com cuidado sobre o chão e observou enquanto Kristoph movia seu corpo para contra-atacar o Demônio. Então, o tempo parou momentaneamente enquanto o punho do homem se aproximava do rosto de Eiro, mas o próprio também tinha o mesmo trunfo na manga. Era algo que retirou de sua tesouraria e escondeu com a ajuda de Bavet no instante em que percebeu quem Kristoph era: seu próprio anel de parar o tempo.
O Demônio mal conseguiu desviar do ataque enquanto o tempo continuava para ambos.
Ao perceber que isso não funcionaria se ambos fossem capazes de parar o tempo, Kristoph criou alguma distância entre seu oponente e assumiu uma postura um pouco diferente.
Levantou os braços na frente do rosto, como uma guarda e inclinou seus joelhos para conseguir um pouco mais de mobilidade, avançando contra Eiro. Desta vez, tentava atacá-lo por baixo e à curta distância para reduzir as chances de Eiro desviar de seus ataques.
Kristoph deu um gancho em direção ao queixo de Eiro e o Demônio empurrou seu corpo para trás ao mudar seu peso. Com a palma aberta, Eiro acertou o braço estendido de Kristoph enquanto enganchava seu pé esquerdo e o levantava.
Eiro tentou mudar o peso de Kristoph para fazê-lo cair. Quando Kristoph perdeu o equilíbrio e tentou recuperá-lo ao apoiar a maior parte do seu peso em uma das pernas, Eiro se deixou cair enquanto, mais uma vez, enganchava a perna de Kristoph e a puxava.
Com seu momentum, o Diabrete se recuperou e empurrou sua perna contra o peito de Kristoph para fazê-lo cair. Porém, enquanto Kristoph caía para trás e tentava se recuperar ao pressionar os pés no chão, Eiro conseguiu se levantar e chutar a parte de trás do joelho do seu oponente e dobrá-los à força.
Ele segurou o colarinho de Kristoph, dando a Eiro controle total sobre o corpo do homem enquanto o segurava no ar do lado de fora da arena.
Durante todo este confronto, Eiro estava se permitindo ser empurrado em direção à beirada da arena, para trocar de posição durante a breve conversa que tiveram.
Desse modo, Kristoph era incapaz de se salvar com as mãos, desde que não havia chão ao seu alcance.
— Parece que você perdeu — Eiro disse com um sorriso amplo no rosto, sentindo-se em êxtase após esse duelo maravilhoso.
Claro, Eiro não utilizou todas as suas habilidades, mas quando se tratava de combate corpo a corpo, Kristoph e ele eram quase equivalentes. O Demônio tinha uma pequena vantagem. Entretanto, Kristoph também não usou todas as suas habilidades; certamente tinha alguns outros poderes além daqueles fornecidos pelos artefatos artificiais.
Mas, por ora, Eiro empurrou Kristoph para o chão. Assim que fez isso, pôde sentir a etiqueta em sua tesouraria mudar. A letra que havia antes agora se transformou na letra B. No rank em que estavam, era lógico que alguém assumisse o rank da outra pessoa após derrotá-lo.
Como isso era um duelo e ambos concordaram, Eiro se tornou a Letra B. Entretanto, isso significava que havia mais uma pessoa que ainda era mais forte do que Kristoph na organização.
Eiro estalou os dedos e, com a ajuda de Gondos, fez a plataforma desaparecer. Depois, caminhou até Kristoph e o ajudou.
— Bom trabalho, C — Eiro sorriu e o homem à sua frente o encarou enquanto empurrava a mão de Eiro para o lado.
Ele tirou a sujeira de sua camisa ao se levantar e alguns dos estudantes vieram correndo até onde os dois estavam.
Claro, estavam muito excitados depois de ver uma luta dessas. Os movimentos rápidos dos dois professores, o nível absoluto de perícia e o raciocínio por trás de cada ação que realizavam. Isso era algo que todos os estudantes ansiavam.
Era muito mais fácil ver isso em um combate corpo a corpo do que em uma batalha com armas, desde que era necessário um controle muito mais preciso.
O Demônio sorriu para o homem ao seu lado enquanto alguém entrava na arena. Era um homem idoso, que Eiro reconheceu da sala dos professores. Era um dos professores da Divisão de Magia.
— Estou procurando por Eiro, ele está aqui? — ele perguntou em voz alta e Eiro virou a cabeça em sua direção.
— Sou eu. Ah, devo assistir à sua aula a seguir?
— De fato. Desculpa se estou o afastando tão de repente, Kristoph — o homem disse com um sorriso e Kristoph bufou enquanto olhava para Eiro.
— Não se preocupe, Merlin. Acabei de levar uma surra de qualquer jeito. É mais fácil se recuperar da vergonha se ele não estiver aqui.
Enquanto isso, Arc encarava o professor de magia que se aproximava.
— Puta merda, o nome dele realmente é Merlin?
— Sim, há algo errado com o meu nome? — o mago questionou, tendo uma percepção bastante alta. Nervoso, Arc coçou a bochecha e balançou a cabeça.
— Nada, nada de errado. É muito legal, na verdade.
Merlin, o mago, bufou em resposta e olhou para Eiro.
— Por favor, vista-se e me siga. Ou nos atrasaremos para a aula e não podemos permitir isso.
Eiro olhou para os estudantes e sorriu.
— A partir de amanhã, darei aulas práticas para os estudantes do primeiro ano, mas também terei algumas aulas com estudantes do segundo e terceiro ano. Isso significa que nos veremos de novo. Espero que nos demos bem durante o próximo semestre.
Com isso, Eiro se virou enquanto acenava para os estudantes, olhando para Kristoph mais uma vez.
— Desculpa pelo atraso. Tenho certeza de que já sabe quem sou, mas quero me apresentar formalmente. Sou Eiro, é um prazer trabalhar com você — o Diabrete disse ao estender a mão e Merlin se virou.
— Sou Merlin. O prazer é todo meu.
Apesar do que disse, o tom de Merlin indicava que ele não estava animado de trabalhar com Eiro. Por ora, ele deveria esperar e ver o que acontece antes de dizer algo sobre o comportamento dele.
O Demônio respirou fundo e seguiu Merlin até outra parte do campus, onde a divisão Mágica poderia ser encontrada.
— Farei um tour com você mais tarde, por ora devemos nos apressar e encontrar os estudantes. Ouvi falar que um deles é sua filha?
— Sim, ela é. Você não terá problema a ensinando, não se preocupe. Ela é uma garota brilhante e animada com tudo o que faz. Ela possui ótima afinidade com magia de Luz e de Água, embora sua especialidade resida em cura — Eiro explicou e Merlin virou a cabeça na direção dele.
— Uma maga de cura, é isso? Então há algum motivo para ela ter escolhido tantas aulas de combate mágico?
— Acredito que um curandeiro precisa ser capaz de se proteger. Se chegar a isso, durante uma luta contra outras pessoas, o primeiro alvo é o curandeiro. Um dos papéis mais importantes, apesar de ter as menores proezas em combate. Faz sentido, certo? Mas, se esse curandeiro conseguir revidar, todo o grupo terá mais possibilidades de táticas para executar.
— Ah, entendo. Então é para autodefesa? Isso significa que ela já é uma curandeira experiente o suficiente para se dar ao luxo de desviar sua atenção para algo do tipo? — Merlin questionou, embora com uma leve carranca no rosto.
Eiro ignorou isso e estalou os dedos, fazendo Nelli aparecer.
— Esta é uma das minhas parceiras, Nelli. Ela tinha um contrato com meu falecido pai. Ele era um protesista, então, ao longo dos anos, ele e Nelli adquiriram muita experiência em magia de cura. Portanto, fui ensinado por eles e, após Nelli fazer um contrato consigo após meu pai falecer, escolhemos ensinar Clementine. Sabíamos que ela tinha talento para magia de cura desde criança, afinal.
— É mesmo? E essa criança, você ensina que a magia deve ser usada dessas maneiras?
— Hm? Que maneira você quer dizer? — Eiro perguntou e Merlin parou de caminhar por um instante.
— De maneiras tão imprudentes e autodestrutivas.