
Volume 4 - Capítulo 387
A Virtude do Demônio
— Você se acalmou? Eu já te disse, estou bem — Eiro disse com uma voz calma, olhando nos olhos da sua filha mais nova. Avalin acenou lentamente a cabeça enquanto olhava para o Demônio, que continuou a acariciar a cabeça dela.
Com cuidado, Eiro a levantou e a carregou escada acima. Avalin parecia ter ficado exausta depois de chorar tanto. Eiro também não conseguia culpá-la, ela havia chorado muito. Então, por ora, o Diabrete decidiu levá-la até o quarto e fazê-la dormir.
Ele continuou a tranquilizando de que estava perfeitamente bem enquanto caminhava em silêncio até o quarto dela e. Logo ela adormeceu na cama, que na verdade era grande demais para ela.
Eiro permaneceu com ela um pouco mais para se certificar de que ela de fato estivesse adormecido e depois saiu do quarto em silêncio. Entretanto, Ariella estava parada na sua frente, querendo uma resposta do Demônio.
— Vou perguntar de novo, por que você não me disse que tinha a Sacerdotisa? — Ariella questionou. — Usando-a, podemos conquistar nosso objetivo de matar <O Diabo> muito mais rápido!
Eiro deu um passo em direção à mulher, encarando-a.
— É exatamente esse o problema. Primeiro, eu não ‘tenho’ a Sacerdotisa. Essa garota é minha filha, Avalin. Nada mais, nada menos. Segundo, como você pode sequer pensar em ‘usar’ uma garotinha de oito anos dessa forma?
— Mas essa é a razão da existência dela! Ela nasceu com os poderes da Sacerdotisa Sagrada, que outro significado a vida dela possui?! — Ariella exclamou, mas Eiro bloqueou o som para que Avalin não fosse acordada.
— Quem decide isso é ela. Se ela quer se tornar alguém que luta contra monstros no futuro, eu a apoiarei com tudo o que tenho para me certificar de que ela não morra. Se ela quer se tornar uma cientista, artista, musicista ou qualquer outra profissão, eu também a apoiarei com tudo o que tenho. O que ela fará com sua vida não é algo que você, ou qualquer outra pessoa, tenha o direito de decidir. Entendeu? — Eiro disse com um rugido e Ariella quase estremeceu ao ouvir quão bravo Eiro havia ficado.
Ela colocou a mão no pescoço, nervosa, tentando segurar o amuleto que nem estava mais ali.
— Eu não entendo por que você está tentando impedi-la de cumprir seu destino… foi para isso que ela nasceu! Por que você-
— Porque eu não quero que ela lute em uma batalha que lhe foi imposta por outros. Acho que este é um momento tão bom como qualquer outro para contar isso: após minha próxima evolução, terei o poder para me tornar o nobre <O Mundo>, para ser exato. Então, vou com você e matarei <O Diabo>, para que eu possa obter uma Carta específica dele. Usando esta Carta, roubarei o aspecto da alma do Herói, que continua sendo passado para outras pessoas e matarei o Rei dos Monstros, para que eu também possa carregar esse fardo por conta própria. De uma vez por todas, irei encerrar esse ciclo inútil de guerra interminável. Sabe o que farei depois disso? Voltarei para casa e contarei a porra de uma história de ninar para minha filha! — com uma raiva profunda evidente em sua voz, Eiro passou por Ariella e seguiu o corredor em direção às escadas enquanto a Nefilim permanecia parada ali, confusa.
— O que… o que você quer dizer, você quer… se tornar o Herói e o Rei dos Monstros ao mesmo tempo? — Ariella perguntou. Eiro virou a cabeça na direção dela e assentiu.
— Sim. Para criar um mundo no qual minhas crianças, as crianças delas, netos, bisnetos e todos os seus descendentes sejam capazes de viver em paz. A existência do Herói e do Rei dos Monstros cria caos constante; eles são seres que não deveriam existir por si só, muito menos ao mesmo tempo. Então, vou me transformar na amálgama de todo esse caos! Isso não é tão difícil de entender, é?
Ariella olhou nervosa para as costas de Eiro.
— O q-o que você quer…? Não há como você querer que essas crianças aleatórias vivam uma ‘vida feliz’!
— É tão difícil acreditar que um pai quer que seus filhos estejam seguros e felizes? — Eiro encarou Ariella. — Agora, venha. Tem outra criança que desejo ajudar agora.
Em silêncio, Ariella e Eiro voltaram para o porão, onde Armodeus os aguardava. Ele estava tentando garantir que Hannah não os seguisse. Provavelmente entendeu a essência da situação depois de ouvir a voz de Avalin no fim do corredor.
Em silêncio, Eiro se sentou no banco em que estava antes e segurou outro pedaço de madeira.
— Bavet. Leve Hannah e Ariella para o ‘Quartel dos Soldados’. Só para garantir, não quero dizer as masmorras com isso — Eiro disse com um tom claro e o Slime se transformou em sua forma humanoide. Como lhe faltava bastante massa devido a Armodeus tê-la tirado, ele só pôde se transformar em uma criança.
— É claro, eu não faria essas senhoritas viverem com aquele maníaco. Sabe que ele tem tentado comer seu próprio braço recentemente, certo? — Bavet sorriu um pouco, como se achasse essa ideia divertida.
— Eu sei. Vou treiná-lo mais cedo ou mais tarde. Por ora, não dou a mínima para o que acontece com o corpo dele — Eiro comentou. — Contanto que ele esteja em sua cela, pelo menos.
Em silêncio, Ariella empurrou Hannah para fora da sala, olhando para Eiro ao sair. Assim que a porta se fechou, o Diabrete parou de trabalhar e se levantou. Armodeus olhava para o Demônio com preocupação enquanto Eiro começava a andar pela sala.
— Está tudo bem, rapaz? — Armodeus perguntou e Eiro se virou para ele. Os olhos dele estavam ficando vermelhos de raiva.
— Hm? É claro, está tudo bem. Só que a pessoa por quem eu, por algum motivo, tenho algum interesse romântico quer usar minha filha de oito anos para seus próprios motivos egoístas enquanto a Energia Sagrada da minha filha continua ficando cada vez mais forte a ponto de ela quase me incendiar! Tudo está indo como essa desgraça foi planejada! — Eiro gritou, batendo com raiva na parede ao lado com a mão esquerda. Uma rachadura se formou na parede de tijolo. Então, Eiro bateu de novo. E de novo e de novo, até que a pequena rachadura se tornasse uma grande indentação na rocha e sua mão começasse a sangrar.
O ferimento se curou rápido, mas o sangue ainda estava em sua pele.
— Oh, cala a boca, seu desgraçado nojento! — Eiro gritou, encarando a notificação que apareceu ao seu lado.
[<O Diabo> está se divertindo com sua raiva.]
— Eu juro por todas as forças desse mundo que um dia irei caçá-lo e matá-lo miseravelmente para me livrar dessa marca de merda!
[<O Diabo> ri de você]
Eiro olhou para a parede na sua frente e, com um movimento rápido, bateu sua testa contra o tijolo.
— Só cale a porra da boca. Só… — Eiro rugiu e cerrou os dentes a ponto de ficar com medo de eles se quebrarem. Eiro respirou fundo e se obrigou a relaxar. — Aqui estava eu, pensando que tinha controle sobre essa marca.
O Demônio olhou para Armodeus, que havia se levantado de preocupação por Eiro.
— Rapaz, você está bem? Com quem você está falando?
— Eu te disse sobre a marca que recebi de <O Diabo>, certo? Bem, sempre que ela ativa, ele sabe tudo o que estou pensando. Duvido que ele consiga fazer isso em qualquer outro momento, mas quando a marca se ativa… é quando preciso me preocupar com ele. Já faz um bom tempo desde que ela se ativou. Pensei que a tivesse sob controle, mas ao que parece era outra mentira que disse a mim mesmo.
Armodeus caminhou até Eiro, colocando a mão no ombro do Demônio.
— Rapaz, se acalme. Sei que sua situação é muito única, mesmo assim, você não está sozinho. Sabe disso, né?
Eiro, apesar de ainda sentir raiva extrema, acenou a cabeça com um sorriso. Ele estava relaxando de novo, sentindo a influência direta da marca desaparecer.
— Eu sei. Obrigado, Armodeus.
O Diabrete olhou para a madeira que havia jogado no chão.
— Felizmente, ainda posso usá-la… gostaria de fazer o máximo de partes substituíveis possíveis para ela enquanto tenho a chance. Talvez eu a ensine sobre como manipular sua Força Vital para que ela consiga substituir as partes sozinha, se precisar.
— Sim. Concentre-se nisso, rapaz. Vamos lá, vamos trabalhar. Sempre me ajuda a relaxar um pouco — Armodeus levou Eiro de volta ao banco, onde o Demônio se sentou e agarrou a madeira de novo. Algumas partes estavam amassadas, mas não era um grande problema.
— Se importaria de me ensinar sobre artifício enquanto estamos aqui? Posso precisar de um pouco mais de distração do que só o trabalho… — Eiro riu estranhamente e o Anão Ancião acenou a cabeça.
— Claro que sim, rapaz. Seria uma honra ensiná-lo. Tenho certeza de que você já sabe a teoria… Então vou te mostrar as ações básicas, se estiver tudo bem para você.
— Sim, tudo bem. Obrigado — Eiro respondeu. Armodeus assentiu em resposta, olhou para a pequena oficina improvisada que havia montado aqui e segurou uma pequena garrafa de vidro. Após isso, começou a explicar o método de prática mais básico: colocar magia em um recipiente como este.
Eiro ouviu com atenção, entalhando as partes para o corpo de Hannah enquanto Armodeus prosseguia inscrevendo os padrões rúnicos dentro delas.
Assim que os dois decidiram que deveriam encerrar o trabalho desta noite, colocaram tudo de lado, guardaram o artefato artificial que ainda estava sendo finalizado e decidiram ir para seus quartos.
— Boa noite, Armodeus. Obrigado por hoje — o Demônio sorriu e o Anão Ancião respondeu com um aceno.
— Sim. Sempre, rapaz.
Eiro se sentou na cama em seu quarto logo depois. Conseguiu organizar seus pensamentos de novo, assim esperava. O que faria a seguir era loucura, afinal.
Ele segurou uma pequena gema branco-dourada em sua mão. Logo após injetar uma pequena quantidade de mana dentro dela, a pele de Eiro começou a chiar e emitir um leve vapor.
— Acho que devo continuar aprimorando essa habilidade por enquanto.
Desse modo, pelo resto da noite, Eiro continuou se esforçando ao ponto de quase se incendiar, infundindo-se com Energia Sagrada.