A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 371

A Virtude do Demônio

— Aqui estamos, a última parada. O grande auditório para a Divisão de Combate Físico. Logo atrás daqui está a arena utilizada para a prática de combate real. Deve ser a mesma que você utilizou durante o festival semana passada — Kristoph explicou enquanto permanecia na frente do salão.

Já havia alguns estudantes aqui, sentados em algumas das muitas cadeiras no cômodo. Isto, por si só, era quase uma arena, desde que os assentos subiam como degraus para que todos conseguissem ver o centro da sala com mais facilidade.

— Agora, só temos que esperar os outros estudantes chegarem? — Eiro questionou e o professor ao seu lado assentiu.

— Sim, exato. A aula está para começar em cerca de dez minutos, então o resto dos nossos estudantes deve chegar em breve.

— Sobre o que falaremos hoje? — o Demônio perguntou. Era provável que não houvesse muito que todos esses alunos pudessem aprender juntos, considerando que os diferentes estágios da educação estavam misturados aqui.

— Abordaremos principalmente questões organizacionais, introduzindo os novos estudantes à forma como as coisas funcionam aqui, mostraremos nossos representantes estudantis e explicaremos o formato de aulas. Tais assuntos. Tenho certeza de que também será bastante importante para você — Kristoph explicou e parecia bastante direto por ora.

— Então vamos lá para fora e teremos um sparring para que os estudantes possam ver o que eles podem alcançar?

— Exato. Depois que nós dois lutarmos, daremos aos estudantes a chance de conversarem entre si e talvez a oportunidade de treinarem, se assim desejarem.

Eiro virou a cabeça em direção aos poucos estudantes que já estavam sentados e que entravam. Os novos estudantes eram os únicos que não carregavam coisas como armas.

— Eles lutarão com armas reais?

— Os estudantes avançados, sim. Eles provaram que sabem como manusear uma arma e as responsabilidades e perigos que vêm com isso. Os intermediários terão a chance de provar isso durante o ano por meio de testes individuais preparados por nós, professores. Os estudantes iniciantes ainda não são permitidos a utilizar armas reais, entretanto, para a segurança deles — Kristoph explicou.

Eiro entendeu o que ele queria dizer. Por um longo período, Eiro também fez suas crianças usarem armas de treinamento que, na maioria das vezes, não seriam capazes de ferir ninguém.

— Suponho que aqueles que certificam o nível da habilidade também são os professores?

— Isso — Kristoph respondeu. — É necessário múltiplos professores para verificar sua habilidade e ser considerado para o teste. Geralmente estudantes iniciantes nunca são tão habilidosos. Não há nada de errado com isso, é claro! Este lugar tem o propósito de ensiná-los, afinal. Se eles já souberem tudo, não há necessidade de virem aqui.

 — Então o que aconteceria se houver um aluno capaz o suficiente para realizar o teste entre os estudantes iniciantes?

— Se houver, eu o aceitaria. Causaria um pouco de inveja nos anos superiores, mas inveja muitas vezes pode levar a um progresso maior! E é isso que desejamos aqui, não é? — Kristoph comentou com um grande sorriso. Este homem era um professor de corpo e alma.

Eiro ficou feliz de deixar Arc sob os cuidados dele por meio ano, quando ele mesmo não fosse mais dar aulas.

Aos poucos todos os estudantes entraram na sala, incluindo Arc, que acenou de forma casual para Eiro ao entrar. Houve alguns outros garotos ao redor que olharam para ele, confusos, mas Arc só riu. Ele já havia feito alguns amigos, ao que parece.

— Agora, parece que todos estão aqui — Kristoph exclamou com uma voz alta que alcançou os cantos mais distantes da sala sem problemas. Ele começou a explicar tudo o que disse para Eiro.

A maior parte era muito entediante. Eiro passou esse tempo lendo em sua mente alguns livros novos que havia preparado para momentos como este. A parte mais interessante foi quando os representantes estudantis foram chamados.

Era um jovem com duas espadas ao lado e uma jovem com uma rapieira. A julgar pelos seus físicos, eram bastante experientes. Seus músculos foram desenvolvidos para suas armas de escolha, mas nada além disso. Tinham os mesmos problemas que Jess, James e Krog, confiando demais em seus atributos em vez de tentar desenvolver seus corpos.

Entretanto, assim que os dois abriram suas bocas, Eiro não ficou mais impressionado com nenhum deles.

— Bem-vindos a esta escola, para todos os novos estudantes! Meu nome é Richard Argius Melachine. Sei que este nome deve ter algum impacto em alguns de vocês, em especial entre vocês que nem sequer possuem um último sobrenome — o representante homem exclamou com a voz alta. Seu tom e escolha de palavra deixaram evidente para Eiro que não passava de um pirralho mimado.

Muitos estudantes aqui estavam na mesma posição, na verdade. Era assim que as crianças nobres eram, em sua maioria. Era triste, mas era isso que um status elevado fazia com muitas pessoas. Até Charles era um pirralho assim antes de perder seus membros. Seu comportamento era conhecido por ser um lixo absoluto pelos países próximos, mas, agora, ele era um jovem bem-comportado que era grato pelo que tinha.

Eiro esperava isso até certo ponto. O que o irritou era que esse jovem, Richard, estava olhando para Arc e os garotos ao redor dele quando falou sobre o impacto do seu nome. Assim como muitos outros estudantes.

A partir dali, o breve discurso que Richard preparou foi preenchido com narcisismo e aversão aos plebeus. Claro que ele não disse nada específico, mas Eiro conseguia analisar as mudanças sutis no seu tom de voz.

A garota ao lado dele não era muito melhor. Seu nome era Avelina Herma Melachine, irmã gêmea de Richard.

Esses dois eram filhos do Duque Melachine, primo materno de Solomon. Felizmente o bom comportamento de Solomon veio dessa mãe, então aparente o Duque Melachine era gentil como Solomon, ainda que muito mais implacável por ser o líder de uma enorme companhia mercantil.

Parecia que esse fato subiu à cabeça dessas duas crianças. Eiro soltou um suspiro profundo enquanto os dois falavam, um suspiro alto que interrompeu Richard e Avelina por um momento. Eles viraram a cabeça na direção de Eiro, com carrancas profundas. Sabiam que tinham que respeitá-lo como professor, mas também sabiam que Eiro era um plebeu.

Com essas emoções conflitantes, encararam-no.

— Há algum problema, senhor…?

— Hm? Desculpa, só fiquei irritado com esse discurso condescendente de vocês. Continuem — Eiro respondeu, ainda sentado em sua cadeira. Cruzou as pernas e acenou para os dois continuarem. Alguns estudantes riram, um deles sendo Arc, é claro enquanto Richard e Avelina continuaram parados, irritados com as palavras dele.

Não poderiam mostrar isso, então continuaram. Kristoph, porém, transmitiu suas preocupações e sussurrou na orelha do seu colega:

— Eiro, por favor. Aja profissionalmente.

— Kristoph, eles são adultos. Se agirem dessa forma, vou reclamar — Eiro disse sem rodeios, sem se importar com a opinião do colega. Pelo próximo semestre, Eiro era um educador, portanto, como um, era sua responsabilidade educar essas crianças sobre o comportamento correto.

Kristoph compreendeu o que ele quis dizer e, apesar de ainda não concordar com isso, percebeu que o que Eiro disse não era ruim.

Como o discurso deles já tinha acabado de qualquer forma, era hora de saírem. Kristoph liderou os estudantes e Eiro caminhou no fundo para se certificar de que ninguém ficasse para trás ou se perdesse. Assim que alcançaram a arena, Kristoph pegou armas de treinamento para os estudantes. O único problema com isso era que eram espadas genéricas. O mesmo formato, mesmo peso, mesmo tamanho, para todos os estudantes.

— Não temos outras armas para dar a eles, pelo menos? — Eiro perguntou para Kristoph, que balançou a cabeça.

— Claro que não. Esta pode ser a primeira vez que alguns deles seguram algo do tipo. Durante o primeiro ano, eles descobrirão qual tipo de arma é melhor para eles. Veja, os estudantes intermediários já têm suas próprias armas de madeira, moldadas da maneira que seria melhor para eles.

— Eles as escolhem por conta própria?

— Claro. Não estamos aqui para negar os desejos de ninguém.

— Sim, mas estamos aqui para guiá-los e torná-los mais fortes para que saibam como lutar. Alguns desses estudantes estão usando armas erradas — Eiro disse e o professor ao seu lado o encarou.

— Escuta, é bom que tenha suas próprias opiniões sobre esse assunto, mas sou professor nesta escola há quinze anos. Acho que sei o que seria melhor para esses estudantes.

— Certo. Desculpa por isso. Não queria insultá-lo.

— Não se preocupe. Agora, prepare-se para o sparring, por favor. Esses ternos devem ser feitos para permitir que lutemos livremente — Kristoph explicou e Eiro assentiu.

Tirou o paletó e arregaçou as mangas da camisa. Claro, o colete que estava utilizando era, na verdade, as asas que Bavet fez um bom trabalho escondendo, então eram flexíveis. Podia usá-las sem preocupações; a mesma situação ocorria com o cinto que vestia.

As únicas partes que teve que tirar foram os sapatos e luvas que tinha com o tenro. Eles não serviam direito e o irritariam durante a luta. A grande parte da personalidade de Eiro naquele momento, além do cabelo colorido que o tornaria único, era sua mão de madeira azul-claro, que podia utilizar como cajado. Então, Bavet não estava a escondendo, nem colocando algo como uma pele por cima.

Quando viram a mão de madeira de Eiro, alguns dos estudantes riram, chamando-o de aleijado que não seria capaz de ensiná-los, mas o Demônio os ignorou.

Só que Arc não.

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