
Volume 4 - Capítulo 366
A Virtude do Demônio
Eiro olhou para a mulher do outro lado da sala. Ela estava se aproximando de forma casual, como se não se importasse com os cadáveres no cômodo. Provavelmente não se importava.
— Então, você é aquele de quem todos estão falando? O cara que está quebrando todas as regras? — perguntou a mulher, sentando-se em uma das cadeiras e cruzando as pernas. A Letra na etiqueta ao redor do seu pescoço era C: o terceiro indivíduo mais forte desta organização.
Eiro também conseguia dizer que essa mulher era forte. Muito, muito forte. Poderia ser problemático lutar contra ela.
Pensou que a diferença de força entre as Letras seria minúscula, mas… parecia ser uma mentira. A diferença entre os indivíduos parecia aumentar ainda mais quanto mais alto seus ranks.
Por exemplo, essa mulher era incomparavelmente mais forte do que Evelyn e nem possuía uma carta, ou pelo menos estava a escondendo, se tivesse.
Apesar disso, Eiro conseguia sentir uma coisa… algo similar à ‘vibe’ que uma carta emitia. Era a primeira vez que Eiro encontrava algo do tipo, mas conseguiu descobrir o que era isso.
Era um artefato, mas não um artificial que as pessoas aqui faziam… Era um verdadeiro artefato, diferente das cartas.
Isso era raro por si só. Até então, Eiro só conhecera pessoas com cartas. Talvez esse fosse o fluxo do universo… o destino o guiando para onde precisava estar para encontrar mais portadores de cartas, enquanto evitava aqueles com artefatos.
Até então.
Eiro não sabia o que era. Claro, conhecia outros artefatos, ele leu histórias sobre eles, mas o problema com os artefatos, além das cartas, era que qualquer transição sobre eles foi destruída ou perdida há muito tempo. Portanto, qualquer informação que pudesse ser encontrada poderia ser verdadeira, falsa ou algo entre os dois.
A mente de Eiro acelerou e começou a pensar o que deveria fazer. Ele começou a falar, o mais fácil que poderia fazer nesse momento.
— Sim, esse seria eu. Desculpa, mas não conheço nada sobre você. Talvez devêssemos mudar isso? — Eiro perguntou e a mulher riu um pouco em resposta.
— Uau, indo direto ao ponto, hein? Ouvi falar que você não estava interessado em tais coisas, mas parece que isso é falso.
Enquanto ela falava, Eiro começou a sentir que havia algo estranho sobre essa mulher. Certificou-se de concentrar seu controle do Domínio da Verdade nos seus sentidos, mas não foi suficiente. Então tentou começou a tentar ver o ‘Caos’ ao redor dela.
O espaço ao redor da mulher estava mudando; era estranho, como se algum tipo de eletricidade saltasse pelo ar. Eiro trouxe ordem ao caos e conseguiu ver quem essa mulher era.
Ou melhor, o que ela era. Eiro soltou um suspiro profundo e retirou algo de sua tesouraria. Arremessou-a em direção à mulher, que a pegou rapidamente em resposta.
Quando a pequena peça de madeira preta a tocou, a pele de mulher soltou um leve pedaço e começou a chiar. Ela a derrubou no chão enquanto seu corpo ficava paralisado e seu ferimento cicatrizava.
— Agora, antes de continuarmos, acho que você deve me dizer o porquê de uma mulher comum ter uma perdição e porque essa perdição é ‘Energia Profana’ — Eiro sorriu, encarando-a de volta. A madeira que ele havia jogado nela era o tipo especial de madeira que Eiro usava para impedir a energia sagrada de Avalin de se espalhar sem controle. — Hmm, acho que tenho uma ideia… — ele continuou murmurando e olhou ao redor. — Todos vocês: continuem o trabalho que designei para vocês, mas não saiam de suas estações. Se fizerem isso, irão se arrepender.
Eiro moveu sua mão para frente e retirou algo do ar. Uma carta dourada com um cálice decorado. A carta se transformou no Ás de Copas e Eiro derramou o líquido preto, manipulando-o. O líquido se espalhou ao redor de Eiro e se transformou em uma lâmina muito fina, um pouco translúcida, criando uma esfera ao redor de si e da mulher à sua frente. Então, congelou o líquido para não precisar se preocupar em controlá-lo demais.
As pessoas fora da esfera, agora, eram incapazes de sentir Eiro e a mulher, mas esses dois ainda conseguiam ver tudo do lado de fora sem problemas.
Então, o Demônio retirou sua máscara e removeu sua capa.
— É um prazer conhecê-la, Senhorita Anjo. Como você foi se meter em uma organização caótica como essa? Ah, espera… Anjos não são monstros, então você deve ser uma Nefilim, mas é quase isso, de qualquer forma.
— Como você — a mulher questionou e ele apontou para seus próprios olhos.
— Você não pode enganar estes dois. Agora, responda minha pergunta, se quiser viver. Você está em desvantagem aqui. Lembra? Essa madeira emite uma quantidade de energia profana.
A mulher sorriu e levantou a mão. Um redemoinho de luz branca apareceu em sua palma e envolveu Eiro.
— E você deve ter esquecido que a perdição dos demônios é a energia sagrada, sobre a qual tenho total controle! — A Nefilim exclamou. Entretanto, Eiro coçou a bochecha. Claro, machucava, mas Eiro conseguia resistir a esse tanto. Isso não era nada se comparado a morrer enquanto queimava em chamas sagradas.
— Terminou? — Eiro questionou. Claro, também havia infundido seu corpo com a madeira profana que acabou de pegar para anular essa magia sagrada. Geralmente se Eiro fosse qualquer outro demônio, ele ainda teria sido atordoado por isso e acabado morrendo, mas o ‘atordoamento’ devido à sua perdição nunca foi um problema para ele.
Era provável que essa fosse uma vantagem de ter uma alma humana.
— O quê, mas como…? Você é um demônio! — a Letra C exclamou alto e Eiro soltou um suspiro profundo.
— Escuta, se eu quisesse lutar, eu não teria criado este espaço onde possamos falar em paz. Aquela ameaça de você estar em desvantagem foi algo que eu disse para que você também não tentasse lutar comigo. Então, acalme-se, pare de se esconder e vamos conversar — Eiro sugeriu. A Nefilim na frente dele assentiu a cabeça e afastou sua energia sagrada, observando a pele de Eiro se regenerar na frente dos seus olhos.
Após isso, duas asas brancas se espalharam de suas costas e dois chifres branco-dourados de carneiro brotaram de sua cabeça. Suas roupas eram de um preto profundo, criando um contraste sutil entre sua aparência e roupas.
Mas não só isso: era como se Eiro e essa Nefilim fossem o oposto um do outro, apesar de ainda possuírem algumas similaridades.
Um deles era o tipo mais inferior de criatura profana, um diabrete e o outro era a mais inferior das criaturas sagradas.
Nefilins eram descendentes de anjos e pessoas. Quando isso aconteceu, os Deuses puniram os Anjos ao torná-los Anjos ‘Caídos’ e se tornaram criaturas Profanas, enquanto suas crianças foram permitidas continuarem sendo criaturas sagradas, mas seriam vistas como ‘Monstros’ neste mundo.
Os pais e filhos eram incapazes de ficar juntos, ou então se matariam por estar na presença um do outro. Uma existência triste, mas era assim que as coisas eram.
A mulher encarou Eiro, que a encarou por um tempo.
— Poderia não me olhar assim?
— Desculpa. É a primeira vez que vejo um da sua espécie — o Diabrete comentou. — De qualquer forma, deixe-me perguntar de novo: por que você é parte desta organização?
— Porque eu quero ser a mais forte, por que mais? — a nefilim comentou e Eiro suspirou fundo.
— Isso é uma mentira. Sinto muito, sei quando os outros mentem, então nem tente.
— … Tudo bem. Estou aqui porque quero encontrar alguém. Isso é bom o suficiente para você?
— Isso é verdade, pelo menos. Quem você quer encontrar? — Eiro perguntou, curioso. A Nefilim o encarou com uma carranca profunda.
— Certo, não sei o que está acontecendo, mas por que eu deveria contar tudo isso para um demônio? O que você fará com essa informação?
Eiro a encarou de volta e levantou as sobrancelhas.
— Isso é verdade… Não sei por que estou tão curioso, sinto que gostaria de saber mais sobre você.
A Nefilim deu um passo para trás ao ouvir a forma como Eiro estruturou sua resposta, incerta do que dizer, mas o Diabrete continuou:
— Quero dizer, não acontece com frequência de se conhecer uma Nefilim. Você é a única raça de monstros que nasceu sem monstruosidade. Sinto que você seria capaz de simpatizar muito bem com a minha situação, então nos daríamos bem.
Outra parte disso era que, quando Eiro a ‘analisou’ por meio do Caos e da Verdade, ele conseguiu um leve vislumbre do tipo de personalidade que ela tinha. Ela parecia gentil, tinha valores fortes e não possuía hostilidade para com Eiro. Seria bom se conseguisse evitar ter que lutar e, em vez disso, pudesse se tornar amigo dela.
Nefilins, apesar de serem o tipo mais inferior de criaturas sagradas, ainda eram fortes, então tê-la como amiga ajudaria a longo prazo. Ele não sabia por que sentia vontade de tê-la por perto, mas sentia isso.
— Eiro… O que está acontecendo com você? Ela literal tentou te atacar e você não revidou? Em vez disso, está sendo… legal…? — Nelli apareceu ao lado de Eiro, visível apenas para o Demônio.
Eiro virou a cabeça na direção dela, com um sorriso irônico.
— Sim, por quê? Algo errado com isso?
— … Por favor, não me diga que… — Nelli murmurou, confusa.
— Te dizer o quê?
— Que você está apaixonado por uma Nefilim…