A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 363

A Virtude do Demônio

Uma pequena placa de metal com uma letra gravada nela. Era um simples Z, com nada mais. Enquanto se sentava no peito do morto M, que acabou de ter seu coração dilacerado pelas lâminas do Três dos Espadas, Eiro olhava para a etiqueta que recebeu quando se juntou à organização.

Ficou feliz por finalmente se tornar uma letra. Era provável que isso facilitasse as coisas, até certo ponto. Isso também removeu qualquer dúvida de dele de que as regras adicionadas pela organização eram inúteis.

Eiro se levantou do cadáver e pegou o item responsável pela criação do Aegis falso ao redor de M, um pequeno colar. Esses artefatos artificiais eram úteis, para dizer o mínimo. Ele não conseguiu encontrar nada que fosse capaz de mudar o peso e trajetória das botas, então era provável que fosse uma habilidade do próprio M.

Eiro abriu um buraco na superfície do lado e jogou o corpo ali. Evelyn rugiu com uma voz furiosa após ver isso.

— Você não possui nenhum respeito pelos mortos, não é?! — Ela questionou. Eiro a encarou com uma expressão vazia sob sua máscara.

— Claro que tenho. Só não pelas pessoas por quem não tinha respeito quando estavam vivas. Agora, cale a boca e me conte sobre os privilégios de uma letra.

— E porque eu faria- — ela foi interrompida pela sensação de uma das lâminas de Eiro perfurando seu ombro.

— Porque estou ordenando. Por isso — Eiro respondeu sem pestanejar e depois desviou de um dos ataques de sangue de Evelyn, disparado por meio do ferimento que ele acabou de criar. — Hm, que incômodo — O Demônio adicionou, antes de usar algumas chamas para cauterizar o ferimento. — Talvez fosse melhor se eu usasse chamas em primeiro lugar — Eiro murmurou. — Ou eu poderia fazer seu corpo todo ficar em agonia, se preferir isso.

Evelyn arregalou os olhos enquanto encarava Eiro.

— Eu sabia! Então, você possui esses desejos, afinal-

Eiro rosnou alto, pressionou o pé no estômago de Evelyn e inseriu mana em seu corpo, misturando-a com a maior parte de mana que havia sido reunida dentro dela.

Evelyn começou a se contorcer de agora, mas o fato de que era incapaz de se mover devido à forma como estava restringida piorou ainda mais a situação.

— Eu já te disse, não — Eiro respondeu. — Coloque isso na sua cabeça feia antes que eu a mutile para você. 

O Diabrete cruzou os braços ao dar um passo para trás.

— Agora, fale. Quais privilégios uma letra possui?

Parecia que Evelyn mal estava consciente neste ponto devido à dor extrema que sentiu pela primeira vez na vida, então Eiro teve que esperar um pouco por uma resposta adequada.

— M-Mais missões e… e… — O corpo dela se contorcia, o que fez sua mandíbula ficar rígida por um momento. — V-Você pode aprimorar seus a-artefatos e ar-armas… em troca de algumas mis-missões, também ganhar artefatos…

— Ah, então é por isso que eles os tinham. Acho que devo visitar a divisão de pesquisa da organização logo. Não deve ser tão difícil encontrá-la — Eiro murmurou, olhando ao redor. — Parece que não há mais ninguém com vontade de me enfrentar, hein?

O Demônio soltou um suspiro profundo.

— Há muitos escondidos na mata, ótimo. Terei que caçá-los eu mesmo.

Eiro pressionou o pé no gelo e correu em direção à área em que a maioria das pessoas estava reunida. Quando chegou neste local, o Diabrete utilizou o gelo atrás dele e o transformou em algumas lascas finas, que disparou na testa das pessoas escondidas aqui, pensando que Eiro não as percebeu.

Dois, cinco, sete, treze… logo, Eiro conseguiu outra pilha de cadáveres frescos e intactos. Aqueles que pareciam inúteis para ele foram mortos com um pouco mais de descuido, pois foram eliminados instantâneamente.

Eiro levou esses corpos até o gelo e os manipulou para levá-los ao mesmo lugar em que os outros cadáveres estavam, jogando-os na água.

Por que estava fazendo isso? Era simples: necromantes não conseguiam fazer muito sem cadáveres, então Eiro queria fazer o seu melhor para dar à ‘Rainha dos Mortos-Vivos’, que ele esperava que viesse para cá, algo para brincar. Pelas breves histórias que Armodeus lhe contou, ela não parecia uma pessoa calorosa. Ele só queria ter certeza de que ela não viesse aqui sem motivos e, pelo menos, tivesse algo para mantê-la ocupada.

Eiro não queria virar um inimigo dela, afinal. Ela era uma pessoa com Magia de Morte no grau Mestre; não havia como ele querer irritar alguém assim, poderia cair morto sem ser capaz de fazer nada.

Bem, de qualquer modo, era bom que este lago quase nunca fosse visitado, então era o armazém perfeito para esses cadáveres. A maioria das pessoas não saía das muralhas em primeiro lugar, porque não sentiam necessidade e, no caso de aventureiros, mercadores e afins, não havia necessidade para eles virem.

Não havia plantas interessantes para serem colhidas e monstros também não se reuniam no lago, pelo menos não com frequência. Se o fizessem, então seria no verão e os monstros só queriam beber água.

De qualquer maneira, muitos monstros hibernavam no inverno, então Eiro não precisaria se preocupar com alguém encontrando esses cadáveres por um tempo, pelo menos não até que a ‘Rinha da Morte’ viesse. Bem, Eiro conseguiu subir 7 níveis hoje. Não subia de níveis assim há um tempo, então foi uma sensação muito agradável. Ele estava há menos de um terço do caminho para evoluir de novo.

Eiro pensou sobre o que faria a seguir e decidiu que voltaria para a cidade por ora. Ainda tinha algum trabalho a fazer e, agora que era uma letra oficialmente, tinha acesso a muitas mais informações que antes.

Considerando que a infraestrutura básica da organização ainda deveria permitir acesso a tudo o que precisava e queria, o fato de que não seguiu as ‘regras’ não importava nada para ele.

Eiro segurou Evelyn pelo cabelo e começou a puxá-la pelo gelo, mantendo os membros dela cobertos em blocos grossos de gelo.

— Agora, como devo fazer isso…? — ele se perguntou quando percebeu que seria um incômodo carregar Evelyn com os blocos de gelo assim. Então, em vez disso, simples removeu todo o gelo e decidiu que conseguiria lidar com Evelyn se ela tentasse atacá-lo.

Não que ela fosse capaz de fazer isso. Eiro a perfurou com seu ferrão e inseriu um anestésico em seu sangue.

— Não me diga que a Pedra de Sangue te torna imune às peçonhas e venenos? — Eiro resmungou, percebendo que isso não pareceu funcionar e que Evelyn ainda estava bem acordada.

Ela começou a rir, como se tivesse a vantagem de alguma forma, mas Eiro deu de ombros e continuou.

— Bem, acho que teremos que seguir o caminho mais difícil.

O Diabrete pressionou a palma no centro do peito de Evelyn e inseriu sua mana no corpo dela, mas, desta vez, em vez de misturá-la com toda a mana dela, só fez isso com a mana ao redor do coração.

Claro, isso não danificaria seu coração, mas esse tipo de método de tortura tensionava todos os músculos ao redor da área, incluindo o coração. Com alguns ajustes finos de onde queria causar dor, o Demônio foi capaz de deixá-la inconsciente após quase ter um ataque cardíaco devido à dor imensa que sentiu.

Agora, com ela inconsciente, Eiro pôde carregá-la sem se preocupar com Evelyn fazendo algo incômodo enquanto tentava voar. Ele não queria derrubá-la, afinal, ela ainda seria útil.

Por ora, Eiro respirou fundo e pensou sobre seus próximos passos. Assim que definiu um plano de ação, levantou-se do chão e tentou se esconder enquanto voava em direção à cidade.

Eiro deixou Evelyn na mansão de sua família, desde que não queria lidar mais com ela e voltou para a organização.

Em vez de pousar no meio da área como antes, Eiro foi pela rota ‘legítima’. Entrou por meio dos meios adequados e, embora todos tenham o evitado no instante em que perceberam quem Eiro era, o Demônio não se importou.

Isso ajudou a mostrar a todos que ele não estava mais no lago, já que não precisava esperar mais, para que ninguém fosse lá e encontrasse os corpos que havia escondido. Eiro entrou no prédio central, onde a maioria das pessoas estava reunida e caminhou até a mesa no centro.

— Olá. Me tornei uma letra, então gostaria que me mostrasse a divisão de pesquisa — Eiro disse diretamente.

Algumas pessoas pareciam sentir que essa era a melhor hora para atacar Eiro e completar a missão que receberam, mas o Demônio se defendeu com bastante facilidade.

As flechas que foram disparadas foram cortadas ao meio e as pessoas que pularam em sua direção foram chutadas para o outro lado do salão.

— Que rude! Eu estava falando com alguém! — o Diabrete exclamou, olhando para o executivo atrás do balcão. — Agora, por favor, pode me mostrar o lugar? Ou preciso arrancar sua cabeça e ir lá sozinho?

O executivo estremeceu e deu um passo para trás. Em algumas horas, Eiro se tornou uma Letra e eles sabiam que duas Letras haviam ido lutar contra ele… não esperavam que nenhuma delas fosse derrotada.

Comentários