
Volume 4 - Capítulo 361
A Virtude do Demônio
Eiro envolveu os dedos nos tornozelos de Evelyn e os esmagou enquanto saía da sombra. Ele pôde ouvir os estalos altos ecoando pela área.
Por sorte, estava ficando bem tarde. Ainda não era noite, mas o sol estava se pondo, então a sombra que Evelyn criou se conectou à sombra do próprio Eiro, tornando possível que ele mergulhasse nela e a atacasse.
De imediato, Evelyn caiu no chão enquanto tentava acertar Eiro com seu sangue congelado.
— Hah, desculpa, mas não é assim que funciona — Eiro respondeu sem rodeios enquanto olhava para a mulher e se movia para frente e para trás, desviando de todos os ataques de Evelyn. Ela envolveu seu sangue congelado em seus tornozelos e aparente se apoiou enquanto tentava se curar o mais rápido possível.
Logo conseguiu se levantar de novo. Evelyn apontou sua mão para frente e jorrou uma grande quantidade de sangue que formou três figuras humanoides. O sangue cristalizou-se e transformou-se em gelo, embora ainda estivesse fluindo no centro dessas figuras.
Elas avançaram em Eiro de uma vez, tentando atacá-lo com armas. Embora parecessem muito afiadas, elas ainda eram feitas de gelo. Eiro conseguiu derrotá-las com facilidade ao retirar algumas chamas concentradas do portal para o plano primordial do fogo e as lançou nessas figuras.
Apesar de que nem precisou recorrer a isso. Aquele que finalizou essas três esculturas de gelo humanoides foi Sarius. Embora a Salamandra não tivesse um controle preciso, ele tinha muito poder de fogo. Literalmente.
As chamas disparadas por Sarius foram fortes o suficiente para começar a derreter as figuras no instante em que foram criadas. O sangue se acumulava sob os pés de Eiro, ou pelo menos era isso que Evelyn estava tentando fazer, mas Eiro saía do alcance do sangue sempre que ele se aproximava.
Evelyn encarava Eiro enquanto as três esculturas de sangue e gelo derreteram por completo e o Demônio permaneceu ali. Ela puxou uma varinha vermelho-sangue e a utilizou para criar um círculo mágico de sangue na sua frente.
Mas Eiro não permitiria que isso acontecesse.
Mais uma vez, usou as sombras na área para mergulhar nelas. Por sorte, aquelas em que mergulhou estavam conectadas à sombra de Evelyn.
Eiro saiu das sombras dela. Entretanto, desta vez, não foi a sombra sob seus pés. Na verdade, as sombras criadas por todo seu corpo. As fendas em suas roupas, a forma como seu cabelo se arrumava e, claro, a postura do seu corpo. Tudo isso criava sombras por todo o corpo dela, como era de se esperar.
Foi dessas sombras que Eiro escolheu sair. Um pouco de si de cada pequena sombra. Graças ao seu corpo, tecnicamente sem forma, Eiro conseguiu se espremer por ali sem problemas.
Desse modo, o torso de Eiro cresceu para fora das omoplatas de Evelyn. O Demônio sorriu enquanto desfazia sua transformação e levantava o queixo da feiticeira.
— Surpresa! — Ele exclamou com um grande sorriso no rosto, retirando sua adaga da Tesouraria e colocando-a contra a garganta de Evelyn. — Escute, há um motivo pelo qual não vou te matar aqui e agora. Você, como a ‘Feiticeira da Pedra de Sangue’, já conquistou um nome como uma poderosa usuária de magia pelo mundo, razão pela qual vou te usar para construir a imagem de ‘O homem que derrotou a Feiticeira da Pedra de Sangue’. Rumores se espalharão e qualquer um que souber sobre você também saberá sobre mim. — Eiro explicou.
— Claro, de qualquer forma serei o companheiro do Herói, então isso será publicidade suficiente naquele momento, mas, antes disso, quero me estabelecer um pouco mais — O Diabrete continuou desviando dos ataques de Evelyn, que encarou a figura na sua frente.
Com um rugido, ela disse:
— Então? Por que você não vai me matar agora? Isso também te dará ‘publicidade’, não é?
— Você é uma idiota ou algo do tipo? — Eiro respondeu com uma carranca profunda na face. — Ninguém fora da organização saberá sobre as lutas que aconteceram aqui. Se quero me estabelecer, literal não posso matar você aqui.
— É mesmo? Então… — Evelyn começou, pensando que tinha a vantagem, desde que Eiro não queria matá-la aqui. Entretanto, antes que ela pudesse continuar, Eiro retirou o resto do seu corpo das sombras dela e desfez sua transformação.
Ele chutou as costas da mulher, enviou-a voando e a fez deslizar pela superfície congelada do lado. Ele manipulou o gelo para que Evelyn acabasse retornando para um lugar próximo de onde estava.
— Não posso te matar, mas ainda posso te machucar. Então, cale a porra da boca.
Eiro cruzou os braços com um rugido profundo.
— Mas isso é um pouco problemático. Eu tenho clara vantagem aqui e sou mais forte que você, mesmo em uma situação em que você tenha a vantagem. Seria uma ótima chance de matá-la neste momento… — O Demônio comentou ao desviar de outra lança de gelo feita com o sangue de Evelyn. — Você consegue, pelo menos uma vez, fazer algo além desse truque repetitivo? Como se eu tivesse medo de você? Você é patética — Eiro resmungou irritado —, mas esse não é o ponto.
Com um movimento rápido, ele pressionou o gelo e o fez engolir Evelyn. Claro, não totalmente. Na verdade, seus membros foram afetados. Como ela era uma maga de gelo, devia ter uma quantidade considerável de resistência ao frio. Parecia que ela tentava manipular o gelo ao redor dos seus membros para escapar, mas, como a mana de Eiro ainda estava nessas áreas, não funcionou.
Enquanto ela estava presa ali, incapaz de se mover e impotente, com um sorriso curioso e excitado, ele se aproximou. Ele pôde ver Evelyn estreitar os olhos com desgosto com o que presumia que estava prestes a acontecer.
Eiro levou sua mão até o peito de Evelyn e a mulher fechou os olhos, mas nada aconteceu.
— Hm, então são as mesmas runas. Interessante. Entendo os padrões, mas se não sei o que as próprias runas significam… Que incômodo — Eiro murmurou enquanto olhava de perto para a Carta da ‘Pedra de Sangue’ que foi colocada no colar que Evelyn usava. Até então, só teve a chance de olhar a parte de trás. Parecia haver um aglomerado de runas um pouco mais concentrado aqui, como esperava, então esse era um conhecimento valioso se quisesse descobrir como aprimorar os itens das Cartas de alguma forma ou criar ‘artefatos artificiais’.
Evelyn abriu os olhos e o encarou, confusa. Ela conseguia ver o fluxo sanguíneo do Demônio, então tinha certeza…
— Você real não está interessada no meu corpo? — A feiticeira questionou. — Não me diga que só consegue se excitar com aquelas cri-
— Cale a boca. Não ouse terminar essa frase — Eiro interrompeu. — Já disse que não sinto nenhum desejo sexual, mas parece que você não me escutou. Não que isso importe, você estará morta daqui a alguns meses de qualquer forma.
— Por que você não irá roubar minha Pedra de Sangue se a deseja? — Evelyn perguntou.
Eiro a encarou como se fosse óbvio, apesar de que sua expressão não pudesse ser vista por baixo de sua máscara.
— Porque, quando eu te derrotar publicamente, as pessoas podem dizer que foi porque você não possuía sua Pedra de Sangue. É por isso. Quero que você esteja no seu poder máximo. Na verdade, quero fornecer a você uma situação em que esteja com uma clara vantagem, enquanto eu terei algumas desvantagens. Se isso significar que posso te humilhar, não me importo de correr o risco.
De repente, à distância, Eiro escutou outra pessoa se aproximando.
— Agora, cale a boca, tenho mais alguns convidados — O Demônio comentou enquanto pegava sua capa e a vestia, para que fosse mais difícil para outros reconhecerem sua armadura como sendo igual à que apareceu durante a performance na escola.
Entretanto, esses pensamentos foram deixados de lado. A julgar pela reação de Evelyn à pessoa se aproximando, Eiro concluiu que esse homem também era uma Letra. Logo, notou a etiqueta que ele carregava em sua mão para mostrá-la a Eiro.
Ele era a letra M. O que significava que era mais forte que Evelyn, a atual letra Q.
— Então, foi você quem matou um dos nossos e, agora, até mesmo aprisionou a Feiticeira da Pedra de Sangue? Que intrigante!
— É mesmo? Eu não me importo. Vamos começar, certo? — Eiro sugeriu sem pestanejar. Ele não se importava com quem essa pessoa era, afinal. Só queria matá-lo e aumentar seu rank para também se tornar uma Letra, afinal, o ‘sistema de ranks’ funcionava dessa forma. A regra de que alguém tinha de se tornar o Número 1 para desafiar a Letra Z não estava incluída nisso. Isso foi algo inventado pela própria ‘Organização’.
Tecnicamente, poderia desafiar as Letras sempre que quisesse e, se as matasse, poderia aumentar seu rank dependendo de quem matou. Se Eiro matasse a Letra A, era provável que se tornasse uma Letra instantaneamente.
No entanto, o homem riu.
— Desculpa, mas não acho que isso será necessário. Não vim aqui lutar com você! Na verdade, gostaria de convidá-lo! Convidá-lo a lutar ao meu lado e dominar essa organização.
Eiro olhou surpreso para o homem. Ele dizia a verdade: queria dominar a organização e queria a ajuda de Eiro para isso.
— Interessante. Por que você deseja dominá-la? — Eiro perguntou sem hesitar e o homem sorriu.
— É simples: amo conquistar as coisas. Seja mulher ou homem, seja no combate ou no amor, contanto que eu possa torná-los minha, eu lutarei. Agora… aqui temos… Uma organização feita com as pessoas mais fortes desse mundo? Imagina quão incrível seria conquistá-la!