
Volume 4 - Capítulo 359
A Virtude do Demônio
— Câncer… é uma doença tumorosa, não é? O tipo que é difícil de tratar mesmo com a maioria dos feitiços de cura… — Eiro perguntou com uma carranca triste. Arc assentiu em resposta e olhou para o lado.
— Foi… Horrível. Se espalhou por todo o meu corpo e senti uma dor completa e absoluta durante o último ano da minha vida… Em algum ponto, todos os meus amigos pararam de me visitar no hospital e meu avô, a única família que me restava, morreu e eu nem fui capaz de ir ao funeral.
Assim que Eiro escutou essa explicação, percebeu algo.
— E você desejou que não fosse capaz de sentir dor física daquela doença, ou a dor emocional por estar sozinho. Quando você morreu, esse desejo foi realizado.
— … Sim. Foi isso. A princípio, quando acordei, eu estava assustado, mas então eu fiquei feliz ao perceber o que estava ocorrendo. Depois, fiquei feliz porque essa era a única escolha que eu tinha. Os “pais” que me deram à luz nessa vida me abandonaram, pois me achavam uma aberração, me vendendo para o exército por causa das minhas habilidades únicas. Lá, conheci os outros e você — Arc explicou.
— Os outros são… — Eiro começou, mas Arc meneou a cabeça.
— Não que eu saiba. Os outros não têm memórias de suas vidas anteriores, são pessoas normais.
Eiro acenou a cabeça em resposta e olhou para o jovem à sua frente.
— Em algum momento, me conte mais sobre a sua vida passada. Quero saber mais sobre ela, mas primeiro… — o Demônio moveu a mão para o lado e fez o movimento de retirar algo de uma prateleira. Em sua mão, uma estatueta de madeira apareceu. Eiro havia criado durante a viagem de volta à cidade enquanto era carregado por Lognir.
— Você reconhece esse homem? Ou as roupas estranhas que ele veste? — Eiro questionou e Arc deu uma olhada rápida na estatueta.
— Eu… não conheço o cara, mas as roupas definitivamente são do meu antigo mundo… ele está vestindo jeans, moletom… tudo muito moderno, eu diria.
— O que são essas coisas? Elas são feitas com materiais que nunca vi antes — Eiro comentou.
— Ah… Jeans é feito com brim, mas não tenho ideia do que isso é feito, mas moletons e camisetas são feitas de poliéster. São como materiais artificiais, eu acho? Nunca os vi aqui, então não é de estranhar que sejam desconhecidos para você… — Arc comentou, antes de perceber algo importante. — Mas, espere, quando você viu esse cara?
— … Eu te explico algum dia. Só… Quando encontrar esse cara, não importa a circunstância… Escute o que ele tem a dizer e não o irrite. Trate-o como um deus, se precisar — Eiro disse sem pestanejar.
Afinal, este homem que Eiro encontrou naquele espaço em branco, aquele que deu a Eiro a possibilidade de desbloquear aquela habilidade, era claramente o <Negociante Arcano>. Um ser poderoso o suficiente para criar itens lendários, as Cartas. Era óbvio que ninguém seria páreo para ele em uma luta.
Alguém capaz de criar tais objetos seria capaz de utilizar todas essas habilidades de qualquer forma.
Eiro respirou fundo e guardou a estatueta de volta em sua tesouraria.
— Quem é esse cara…? — Arc perguntou e Eiro o encarou.
— Alguém com quem você nunca deve se envolver.
Eiro bateu na porta para dizer a Bavet para entrar e o Slime o fez. Ele se pressionou contra o corpo do Diabrete e o transformou de novo antes que Eiro e Arc saíssem.
— Quando todos voltarmos para a mansão, falaremos mais sobre isso. Por ora, isso é suficiente. Divirta-se pelos próximos dias neste acampamento.
— Huh? Espera, eles não disseram que você seria um professor? Você não estará aqui durante o acampamento? — Arc questionou e Eiro balançou a cabeça.
— Tenho mais algumas coisas para resolver. Estarei aqui durante o primeiro dia de aula normal. Me pediram para dar aula de combate mágico e físico. Também estarei em algumas aulas de marcenaria, mas isso ainda não está definido.
Arc assentiu em resposta.
— Então eu terei aula com você! Acho que posso relaxar!
— … Faz tanto tempo que não nos vemos que você esqueceu a minha forma de ensino? — Eiro perguntou sem rodeios e Arc parou por um instante.
— Certo… Isso significa que-
— Você terá mais dificuldade do que qualquer outra pessoa — Eiro respondeu sem hesitar enquanto Arc abaixava a cabeça com um gemido profundo.
— É, justo.
Com um sorriso, Eiro esfregou a mão pelo cabelo do filho enquanto voltavam até os outros.
— Então, vocês cinco voltarão para suas aulas especiais e eu levarei Avalin e Leon de volta para casa. Se algo der errado, me informem para que um dos seus professores me contate e estarei aqui o mais rápido possível.
— Nós sabemos, pai — Sammy respondeu com um sorriso pequeno e um tanto envergonhado, desde que ele estava dizendo isso na frente de várias outras pessoas que eram seus colegas de turma.
— Bom. Então, divirtam-se e aprendam bastante — Eiro sorriu e abraçou todos brevemente, antes que tivessem que voltar para suas aulas especiais. Então Eiro começou a caminhar pelo prédio, segurando a mão de Avalin com a sua esquerda e a de Leon com a mão direita.
— Papai, por que você parece tão diferente agora? — Avalin perguntou, já que isso estava na sua mente desde que se reencontraram. Eiro riu e olhou para ela.
— Para que eu não tenha que vestir uma máscara o tempo todo. Dessa forma, posso andar livre — o Demônio disse. Claro… Ele ficava um pouco mais fraco que o normal, então acabaria utilizando suas roupas normais se precisasse ou não quisesse que certas ações suas fossem conectadas à sua nova persona.
— Mas eu gosto mais de como você normalmente está! — Avalin exclamou, bufando e Eiro riu.
— É mesmo? E você, Leon? Você também gosta mais de mim quando estou com a aparência que costumo ter?
O menino, ainda um pouco casado, olhou para seu pai e estreitou os olhos.
— Eu só gosto do papai… quando ele é o papai.
Com uma leve risada, Eiro respondeu:
— Então, você me ama incondicionalmente, hein? Acho que temos um vencedor para ‘quem ama mais o papai’…
Quando Avalin escutou isso, ela segurou a mão de Eiro com suas duas mãos e o encarou.
— Não! Eu amo mais o papai!
Rindo, feliz por poder se divertir com esses dois dessa forma, o Demônio, em seu disfarce de Humano, continuou a percorrer a escola para se familiarizar com ela. Mais tarde, precisaria ir até o castelo.
—
— Você sabe como deixar sua mana fluir, certo? — Eiro perguntou e Charles o encarou de volta com um aceno, como se fosse óbvio.
— Claro que sei… tudo o que eu preciso fazer é inserir o máximo de mana que conseguir nesta semente, certo?
— Tipo isso, mas não diretamente — Eiro respondeu com um suspiro profundo. — Isso não é tudo o que você precisa fazer. Precisa inserir a sua mana na semente, claro, mas se apenas despejar sua mana nela até acabar, vai precisar de muito mais tempo que o necessário. Crie um círculo de mana com os seus membros. Primeiro, permita que saia da sua mão direita para a esquerda. Pode ser um pouco mais difícil, já que um dos seus braços é uma prótese, mas ainda deve funcionar por conta da madeira que utilizei.
— E que uso isso tem? — Charles questionou, como se fosse desnecessário. — Não posso continuar usando essas próteses? Elas já funcionam muito bem…
— Sim, mas, no fim do dia, elas ainda são como ‘próteses’. Minha mão também é uma prótese, mas também é como um cajado e já consigo sentir levemente o toque por meio dela — Eiro explicou.
Charles pareceu um pouco surpreso que esse fosse o caso e Eiro continuou explicando:
— Assim que a árvore começar a crescer o suficiente para que materiais possam ser colhidos, ela se alterará de acordo com a sua mudança. Será como se ela fosse parte do seu corpo, só que distante de você. É por isso que ela será o melhor material para sua prótese, pois já é uma parte de você. A mesma árvore que você começar a cultivar hoje será um reflexo do estado da sua mana nos próximos 10, 20 e 30 anos. Ela murchará quando você morrer, mas ninguém mais terá utilidade para ela de qualquer maneira.
— … Certo… Então, vou tentar isso, eu acho. Então, tenho que deixar que circule pelo meu corpo, saia de uma palma para outra. E depois…
— Crie o círculo e certifique-se de que a regeneração de sua mana está aumentando enquanto faz isso. Depois, você moverá a mesma quantidade de mana que recebe de volta para a semente. Se combinar isso com meditação, você será capaz de continuar com os usos até que esteja exausto, em vez de até que sua mana se esgote — Eiro disse. Ele se fundiu com Godos para que conseguisse ver o fluxo de mana de Charles. O Demônio se assegurou de ajudá-lo a corrigir os erros e garantiu que ele fizesse tudo da forma mais eficiente.
Parecia que, em algum momento, Charles entendeu a utilidade de fazer tudo isso e ficou muito melhor. A semente foi colocada em algum lugar nos jardins reais, um lugar que não muitas pessoas vinham, mas foi especial fechado para que ninguém pudesse entrar depois disso. Porém, era o lugar favorito de Charles na cidade, então era um bom local que possuía uma conexão profunda com ele.
Com um pequeno sorriso no rosto, Eiro continuou observando Charles até que tivesse certeza de que o príncipe poderia fazer isso mesmo sem a sua orientação.
— Certo, perfeito, mas tenha certeza de não se sobrecarregar. Se, em algum momento, ficar cansado ou com fome, vá em frente e faça uma pausa. Não precisa machucar o seu corpo por isso, seria o oposto do que queremos.
Dessa forma, Charles começou a criação da sua árvore pessoal, utilizando uma das sementes que Eiro entregou para ele. O Demônio pegou uma das árvores que havia colhido de sua própria árvore e se perguntou qual seria a fruta da de Charles.