A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 357

A Virtude do Demônio

Os primeiros quatro duelos foram… normais. Essa foi a melhor forma de descrevê-los. Certamente essas crianças eram muito capazes para suas idades, mas não havia ninguém especial entre elas. Eram, na melhor das hipóteses, medianos, mesmo que fossem extraordinários para a idade delas.

Eiro suspirou fundo e virou a cabeça para James.

— Aquele garoto convencido, como ele se compara com os outros?

James pensou sobre por um instante e deu de ombros.

— Ele mal é capaz de derrotar todos aqueles garotos, mesmo que não vão todos para cima de uma vez, eu suponho.

Eiro olhou para aquele garoto e resmungou baixinho.

— E um garoto como esse é páreo para o meu Arc…? Estão o subestimando ou algo do tipo…? — O Demônio estalou a língua enquanto James sorria.

— Não, ele não tem se destacado muito. As técnicas que você ensinou a ele são muito diretas, ‘técnicas de matar’, não ‘técnicas de exibição’. A maioria das pessoas aqui está acostumada com as últimas, então as primeiras parecem fracas para aqueles que não conhecem a arte muito bem. — James explicou, então Eiro cruzou os braços com um suspiro profundo.

— Isso significa que a luta não durará muito, então.

Eiro olhou para as duas crianças se preparando para a luta. Como eram estudantes, esse duelo não utilizaria armas reais; em vez disso, eram armas contundentes. Ambos vestiam armaduras finas que detectavam os ataques e, se a pessoa sofresse danos suficientes, perderiam o duelo. Simples assim.

O Demônio imaginou que Arc deveria ser capaz de terminar isso em… Bem, um ou dois golpes, se fosse com tudo.

Ambos os garotos pararam na frente um do outro e o árbitro soltou um assobio alto, sinalizando o começo da luta.

O garoto convencido avançou de imediato enquanto Arc continuou parado. Eiro percebeu pela sua postura que ele não estava tentando terminar o combate rápido, mas sim… ostensivamente. Com movimentos amplos e abertos, o garoto balançou a espada grande contra Arc, que deslizou para o lado e alcançou as costas do garoto.

Arc desceu sua lâmina e atingiu a armadura, mas nenhum dano foi registrado, apesar do ataque direto. A plateia começou a rir, pensando que Arc poderia ser rápido, mas fraco, porém Eiro sabia o que ele pretendia fazer e ficou feliz com isso. Seria muito divertido, mais tarde.

Na maior parte do tempo, a luta se resumiu ao garoto tentando acertar sua lâmina em Arc. Enquanto isso, Arc desviava e continuava acerava certas partes das articulações do garoto.

Mas, claro, Arc não estava tentando machucar o garoto, na verdade, estava tentando danificar a armadura de formas específicas. O fato de que a plateia estava percebendo que algo estava errado, assim como o garoto ter começado a ficar agitado com a situação, permitiu que Arc alcançasse a parte final do seu plano muito rápido.

Ele parou na frente do garoto com um sorriso presunçoso.

— Uau, eu não achava que você seria tão fraco. — Arc riu baixinho, mas o garoto cerrou os dentes e, mais uma vez, balançou sua espada, desta vez em um corte horizontal. Entretanto, Arc conteve o golpe com sua própria lâmina.

Ele a desviou para o chão e a prendeu ali. Então, com facilidade… Arc chutou o centro do peito do garoto.

O garoto voou cerca de dois ou três metros enquanto o aperto em sua lâmina se soltava, mas isso não foi tudo o que se soltou. Toda a armadura se desfez nas articulações que Arc esteve mirando durante a luta e o garoto agora estava indefeso. Ele não parecia mais um competidor.

Com um sorriso suave, Arc se aproximou do garoto e segurou a ponta cega de sua lâmina contra a garganta do garoto.

— Acho que essa luta já foi decidida, não acha?

Desse modo, o árbitro também encerrou o duelo. Claramente foi uma vitória avassaladora para Arc. Com um sorriso grande no rosto, ele se virou para Eiro e acenou para ele, se juntando aos outros estudantes na fileira que haviam formado de novo em seguida.

Todos os oito estudantes presentes ali estavam encarando Arc com confusão, incertos do que acabara de acontecer, mas o próprio Arc continuou sorrindo, sem se importar com o que ocorria ao seu redor. Isso era típico dele. Embora Eiro tivesse esperança de que ele estivesse mais calmo quando conversassem mais tarde…

De qualquer modo, neste ponto, era a vez de Eiro. Ele também precisaria exibir suas habilidades, embora ainda não tivesse pensado sobre como faria isso.

Depois de refletir um pouco, teve uma boa ideia para demonstrar, pelo menos, sua magia, apesar de que demonstrar suas habilidades de combate pudesse ser difícil sem um oponente.

Bem, por ora, o locutor terminava seu discurso e todos os outros saíram da arena, com Eiro no centro do local.

Com um estalo dos dedos, Nelli apareceu ao lado dele de novo, mas não apenas ela como Gondos e Sarius.

— O q- o que é isso? Três Espíritos, invocados pelo menos homem? Que maravilhoso, parece que temos um especialista em invocação aqui! — O locutor anunciou, mas a risada de Eiro ecoou pela arena.

— Você pode pensar que sim, mas não sou particularmente um ‘especialista’. Esse é o começo do que posso fazer, sabia?

Eiro riu e virou a cabeça em direção aos seus três Espíritos. Com acenos rápidos, eles confirmaram que estavam prontos. Claro… Eiro escolheu demonstrar uma habilidade particular sua.

Essa era a forma que ele queria utilizar para se tornar parte do grupo do Herói, além de se tornar um aventureiro de rank S. Eiro tinha que mostrar alguma habilidade. Pois, no fim, mesmo se fizesse isso, não importava. O tipo de que seria uma ameaça para ele conseguiria descobrir sobre essas habilidades de qualquer forma.

Eiro segurou a capa que vestia e a guardou em sua tesouraria, revelando a armadura branco-dourada que usava. O Demônio pressionou a mão no centro da armadura e ela mudou de cor, assumindo um tom cinza, como a cor de uma rocha, também assumindo uma textura similar.

Eiro e Gondos começaram a trabalhar. O Demônio supriu sua mana ao Golem, que criou rochas que Eiro poderiam manipular com a mão com facilidade. O que ele fez foi terraformar a arena. Uma pequena colina, um buraco aqui e ali, soltar um pouco só solo… mas foi isso. Então, Eiro terminou com isso com rapidez.

Então, foi a vez de Nelli. Com sua água, ele criou uma pequena lagoa e um rio artificial correndo pela arena. Isso também aconteceu dentro de meros instantes, rápido o suficiente para que a maioria das pessoas perdesse se tivesse desviado a atenção.

Agora, Eiro trocou o modo ‘Água’ de sua armadura por ‘Natureza’. nada disso tinha efeito direto na sua magia…, mas parecia mais impressionante.

Eiro colocou a mão em sua bolsa e arremessou seu conteúdo no ar. Alguns momentos depois, a grama cresceu por todo o local e até algumas flores brotaram. Este lugar estava se transformando em um jardim.

Após isso, o Demônio soltou um suspiro longo e profundo enquanto sua armadura assumia uma cor preta, emitindo até mesmo uma névoa escura. A escuridão se espalhou a partir dele e envolveu toda a arena. A barreira havia sido desativada de acordo com os desejos do Diabrete e a escuridão se espalhou por toda a área. Ficou tão escuro que parecia que a noite havia chegado de repente: era exata o que Eiro queria.

De dentro da escuridão, inúmeras pequenas chamas apareceram. Como estrelas flutuando bem na frente dos rostos da plateia.

Pequenos cristais de gelo foram iluminados por meio das chamas criadas por Sarius, como parte do treinamento de precisão do Espírito e, bem no centro do céu acima da arena, um grande orbe de gelo brilhante flutuava como a lua. Eiro havia combinado gelo e fogo de novo e criou esse fenômeno.

O que as pessoas viam agora era Eiro com sua armadura dourada, parado no centro de um lindo jardim, iluminado por uma lua artificial durante a noite, que surgiu magicamente ao meio-dia. Neve caía do céu e refletia a luz das estrelas flutuando acima da cabeça da plateia.

Tudo isso não levou nem um minuto para ser criado e um homem tornou tudo isso possível. Neste instante, a voz de Eiro se espalhou por todo esse cenário.

— Agora, mesmo que eu seja de origem comum, espero que estejam cientes de que sou suficientemente capaz de ser professor nesta Academia. Se posso fazer algo desse tipo em um minuto, o que acham que serei capaz de ensinar a essas crianças em seis meses?

Eiro olhou ao redor com um sorriso grande no rosto e depois estalou os dedos. A escuridão desapareceu em um instante e todos ficaram cegos momentaneamente, o que foi tempo suficiente para Eiro fazer o resto da magia desaparecer sem deixar rastros. Assim, ele estava parado ali, no centro da arena, que parecia a mesma de alguns minutos atrás.

Claro, o único motivo para isso ter funcionado era porque todo esse ‘Jardim’ era um grande círculo mágico que Eiro criou. Não teve muito efeito, na verdade, só devolveria a ele um pouco da magia que usou para conjurar tudo aquilo, mas o círculo mágico consumiu todo o feitiço e, portanto, tornou possível que tudo desaparecesse de uma vez.

Com isso, parecia não haver mais uma única pessoa capaz de subestimá-lo. Até James ficou mais do que chocado com o que acabou de acontecer enquanto suas crianças, sentadas entre a plateia, estavam torcendo pelo Demônio.

Tudo funcionou como Eiro havia planejado. Ele virou a cabeça em direção à sala de observação, onde todos aqueles nobres estavam sentados e o encarando em confusão enquanto Lognir e Solomon não puderam deixar de rir com suas expressões chocadas.

Entretanto, havia algo que deixou Eiro preocupado… Nem a expressão, nem os batimentos, nem nada mudaram na Rainha desde que Eiro começou sua apresentação.

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