
Volume 4 - Capítulo 356
A Virtude do Demônio
Eiro permaneceu no centro da arena e olhou na direção de James. Com uma piscadela rápida, o Demônio confirmou que de fato era o Eiro que ele conhecia. Não que houvesse muitas pessoas com esse nome em primeiro lugar.
James soltou um suspiro profundo e retribuiu o aceno, mostrando que compreendia a situação. Embora ainda estivesse muito curioso sobre porque Eiro escolheu esse tipo de forma para usar em público, mas esse era um tópico para mais tarde.
O discurso de Solomon terminou, então o homem que estava no comando da organização do evento assumiu a liderança.
— Agora começaremos com a Divisão Mágica. Cada estudante irá demonstrar suas habilidades extraordinárias. Então, o novo membro do corpo docente irá demonstrar sua proeza mágica para mostrar aos estudantes o nível que é possível alcançarem!
Esse cara estava falando um roteiro e sua voz mostrava que não tinha particular certeza se Eiro era tão poderoso como dito na folha de papel à sua frente, mas estava tudo bem. Logo ele acreditaria.
Eiro caminhou para a lateral, onde James também estava parado, enquanto dez estudantes entravam na arena. Um deles era Clementine, vestindo as roupas de maga dadas pela escolha, segurando um cajado bem genérico construído para o Elemento Água.
— James, por que não foi permitido que eles utilizassem seus próprios cajados…? — O Demônio questionou e James olhou para Eiro com um leve suspiro.
— Para que as pessoas não possam dizer que o poder do feitiço vem do cajado que utilizam.
— … mas o cajado que Clementine está utilizando é muito mais fraco do que aquele que fiz para ela, isso é-
— Eiro, vamos conversar depois, tudo bem? Vamos nos concentrar na apresentação por ora — James sugeriu, antes que o Diabrete assentisse com relutância.
— Tudo bem.
O primeiro estudante caminhou até o centro da arena e começou a conjurar o feito que exibiria. Era um simples feitiço do Elemento Terra, provavelmente ‘Pilar’. Quando Eiro viu o círculo mágico quase concluído, olhou para a matriz de círculos mágicos que foi criada ao longo da arena, criando uma barreira entre a própria arena e o local em que a plateia estava sentada.
O Demônio suspirou e tocou na matriz, enviando um leve pulso por meio da barreira. Isso confirmou sua suspeita. Pressionou a palma na parte da matriz logo atrás dele e começou a alterar parte dela temporariamente. Eiro tinha que manter sua concentração nisso, já que voltaria ao normal se não fizesse.
Então, o estudante terminou seu círculo mágico alterado, que criou um pilar sob seu pé. Parecia que o aluno havia alterado o feitiço por vontade própria, a julgar pela expressão de um dos professores. Era muito mais alto se comparado ao normal.
Se Eiro não tivesse removido parte da barreira, então o estudante teria sido esmagado completamente, mas, agora, a performance poderia continuar e a plateia parecia bastante impressionada. Enquanto o professor que deveria cuidar disso estava ocupado entrando em pânico, Eiro virou a cabeça para o lado e assentiu para Gondos, que voou até lá e abaixou o pilar de forma segura para que Eiro pudesse permitir que a barreira retornasse ao normal.
A plateia aplaudiu e o aluno retornou à fileira de dez enquanto o professor enviava um olhar para ele. As próximas performances ocorreram sem problemas. Um deles mostrou uma tempestade de chamas, outro exibiu uma lâmina de vento que cortou um tronco preparado para isso. No geral, para a idade e o nível aparente, as magias eram bastante impressionantes.
Então, chegou a hora da última pessoa do grupo: Clementine. Claro, embora as outras crianças fossem impressionantes… A magia de Clementine era muito maior do que isso, mas, por alguma razão, ela estava parada, olhando para o professor que estava correndo nervoso de um lado para o outro.
Eiro esfregou a ponte do seu nariz ao perceber a situação. Ao ver que as coisas não estavam funcionando direito, foi até o centro da arena ao lado de sua filha. Usando magia de vento para fazer sua voz chegar mais longe, o Diabrete explicou:
— Parece haver algumas dificuldades nos bastidores. Portanto, para que vocês não tenham que esperar mais do que o necessário, terei que intervir por um momento.
Eiro estalou os dedos e bolhas de água se reuniram ao lado de sua cabeça; Nelli apareceu. A Náiade levantou suas mãos e preparou água para Clementine enquanto Eiro formava uma grande tigela de água com gelo e deixava que Nelli derramasse o resto da água necessária ali.
A plateia ficou mais do que surpresa de ver a Náiade, algo que a maioria das pessoas só poderia ler sobre.
Clementine olhou para Eiro, surpresa, mas logo sorriu.
— Obrigada, pai… — ela disse enquanto ele sorria de volta.
— Mostre a eles como uma magia de verdade se parece, pode ser?
— Sim! — Clementine exclamou animada. Enquanto Eiro voltava para o lado de James, viu que o professor que estava agitado relaxou. Eiro acenou para ele por um instante e o professor pressionou as mãos juntas para mostrar que estava grato pela ajuda.
Após isso, Eiro se concentrou em Clementine e viu que ela estava tentando superar todos do seu grupo. Ela não estava criando um círculo mágico com mana, como todos os outros fizeram, mas controlando diretamente a água e a transformando em um círculo mágico. Isso, por si só, aumentaria a potência do feitiço que ela criaria.
Entretanto, Eiro percebeu de imediato qual feitiço Clementine utilizaria. O Demônio havia ensinado todas as suas crianças formas de dominarem seus oponentes. Não em poder real, mas em poder aparente. Ele lhes mostrou maneiras de pareciam muito mais poderosas do que eram ao criar feitiços que eram grandes e chamativos, mas simples de se criar e não exigiam muita mana para serem ativados.
O que Clementine estava conjurando era um desses feitiços. Honestamente ele não era tão poderoso por conta própria. Deixava os inimigos atingidos molhados e talvez um pouco machucados. Talvez, se Eiro utilizasse muita mana, conseguisse matar alguém, mas era muito desnecessário usar tal tipo de feitiço. Ele existia para ser chamativo e só isso.
Logo, Clementine terminou o círculo mágico na frente dela e encostou no centro com seu cajado. O próprio ar parece ondular como água; ondulações que corriam verticalmente por meio do ar estavam criando uma grande parede. Essa parede absorveu a água que Eiro e Nelli prepararam para Clementine e criou a parte ‘chamativa’ desse feitiço.
Do centro dessas ondulações verticais surgiu um focinho. Então uma cabeça. Depois, um corpo longo, semelhante ao de uma cobra. Era uma grande massa que utilizava todas as gotas de água que foram preparadas para Clementine, no formato de um dragão inferior, conhecido por reinar sobre muitos grandes corpos d’água, fossem grandes lagos ou até mesmo oceanos.
Era uma ‘Serpente do Mar’, flutuando no ar como se estivesse nadando nele e se movendo por toda a arena.
A Serpente do Mar flutuou ao redor por alguns instantes e parou logo atrás de Clementine, como se fosse uma criatura viva direta sob o controle dela. A plateia aplaudiu mais alto do que em qualquer outra performance enquanto a Serpente do Mar se desfazia aos poucos, afinal a água da qual era feita era de natureza mágica. Normalmente ela cairia no chão e criaria uma grande poça, mas isso seria um incômodo aqui, então Eiro tomou a liberdade de puxar o restante da mana da água com a qual ela foi criada e se certificou de que tudo funcionasse para causar o mínimo de danos à arena.
Clementine acenou para Eiro com um sorriso amplo enquanto se juntava ao grupo de novo e o locutor falou nova.
— Que show tremendamente fantástico! Parece que este ano temos alguns talentos na Divisão Mágica! Mas agora, palmas para a Divisão de Combate Físico! Em vez de termos simples demonstrações como a Divisão Mágica, para mostrar a proeza de todos ainda melhor, teremos 5 duelos separados entre os estudantes, escolhidos para ajudá-los a extrair o máximo de seu poder possível!
— Oh, então é assim que funciona? Você sabe contra quem Arc lutará? — Eiro questionou ao olhar para James enquanto todos se preparavam para os cinco duelos. James pensou por um instante e olhou para os 10 alunos entrando na arena, antes de aparentar se recordar.
— Ah, certo… Ele é um cara e tanto, posso garantir. Ele é um garoto, então não irei insultá-lo, mas se fosse um adulto… Bem, vamos dizer que eu não hesitaria em chamar sua atenção por causa de suas besteiras.
— O que há de tão ruim sobre esse garoto, então? — Eiro perguntou surpreso e James coçou a cabeça.
— É aquele com elásticos de metal no cabelo. Olhe para ele — James comentou e Eiro se virou e percebeu o problema de imediato.
— Ah, é claro… Entendi o que você quer dizer.
Aquele garoto estava se comportando como se fosse invencível, o rei deste mundo. Ele era bastante alto e parecia bastante em forma, claro, mas a arma que estava utilizando não era adequada para ele. Parecia… completamente estranha. Era uma espada longa muito grande, algo que parecia legal de se mostrar, mas difícil de se usar de forma correta, em especial ao considerar que aquele garoto parecia muito magro.
Ele não tinha o físico para usar uma arma pesada; era provável que ela o balançasse em vez de ele a balançar. Mesmo assim, ele parecia sentir que nunca perderia uma luta.
‘Bem, não tem como Arc perder para um garoto desses.’