
Volume 4 - Capítulo 351
A Virtude do Demônio
Eiro ficou diante dos seus amigos, mais uma vez tendo mudado a aparência do seu corpo com a ajuda de Bavet. A única diferença para antes era que, em vez de ter um simples cabelo castanho, agora possuía um cabelo arco-íris.
— … Eiro, você sempre foi tão… — Tom perguntou com um sorriso irônico. — Como eu digo isso…?
— Estranho? — O Demônio questionou, mas Tom meneou a cabeça.
— Bonito?
— … Como é? Em que mundo eu sou bonito? — Eiro perguntou, confuso e Tom levantou as sobrancelhas.
— Quanto é o seu atributo de Carisma?
— 106, por quê?
— … Claro que tinha que ser algo insano, e não me entenda mal, você ainda parece como costumava ser, mas, de maneiras sutis, você parece um pouco mais ‘bonito’, eu acho. O carisma faz isso com o corpo, não sabia?
Eiro coçou a parte de trás da sua cabeça um pouco surpreso, suspirando.
— Não, eu sabia, só não esperava que funcionasse em um demônio, mas, quero dizer, também pode ter sido minha última Evolução, certo?
— Hm, pode ser, mas você não deveria subestimar o poder do atributo Carisma. — Tom riu baixinho. Eiro, com um sorriso irônico, invocou um espelho de gelo por meio da magia de água de Nelli. Olhou para si e passou as mãos sobre seu rosto.
— Acho que estou um pouco diferente de antes. Mesmo assim, o que isso importa?
— Oh, isso importa muito! — Tom exclamou como se fosse óbvio. — Pessoas amam aqueles que são incondicionalmente lindos. Será muito mais fácil conseguir renome se você parecer tão agradável como agora. As pessoas falarão sobre você de uma forma mais positiva. Claro, não estou dizendo que isso é uma necessidade absoluta, mas, considerando que você quer chegar lá rápido e com uma imagem impressionante, isso deveria ser algo a se almejar, certo?
Eiro cruzou os braços em pensamento e assentiu. Era um ponto válido, mas seria um incômodo se tivesse que concentrar os atributos que ganhou ao subir de nível em Carisma por isso. Com sua evolução atual, aumentar de nível era algo bem difícil para começar. Se ele se concentrasse em coisas como carisma… Então, isso significaria que seu crescimento estagnaria por um tempo.
Eiro fechou os olhos, ponderando, mas acenou com a cabeça.
— Certo, você tem um ponto. Tentarei aprimorar um pouco a minha aparência. Com roupas bonitas e uma aparência organizada, isso deve ser fácil, mesmo que eu não seja tão incrível agora. Talvez eu deva perguntar se Armodeus consegue fazer algumas roupas mais impressionantes para mim usando materiais especiais.
— Nós também temos alguns bons alfaiates na cidade, sabia? Você deveria dar uma olhada. Minha filha acabou de começar a aprender com um deles — Tom disse com um sorriso. Eiro olhou de volta para seu amigo.
Fazia um tempo desde que conseguiram se encontrar assim e demoraria bastante até que isso fosse possível de novo.
Eles continuaram conversando por algumas horas, porque essa foi uma das razões principais para Eiro ter vindo aqui em primeiro lugar. Queria ver seu amigo de novo.
Mas, após algumas horas, chegou a hora de Eiro partir. O mercador deveria ter organizado tudo para a entrega da madeira na mansão e o Diabrete tinha que voltar para a montanha em breve.
Eiro respirou fundo ao se aproximar da porta. Bavet o transformou de novo, embora ainda mantivesse seu cabelo castanho nesta cidade. Seria estranho se, de repente, ele tivesse uma cor de cabelo diferente algumas horas depois, ainda mais se mudasse de ‘castanho’ para ‘arco-íris’.
O Demônio se virou e olhou para Tom.
— De verdade, obrigado pela ajuda — Eiro disse. — Se algum dia quiser me visitar na capital de Skyhart… — Murmurou enquanto retirava uma carta da sua bolsa. — Leve isso com você. Se enfrentar algum problema na fronteira de Skyhart, mostre essa carta e deve conseguir passar sem problemas. Isso também deve possibilitar que você se hospede em pousadas de alto nível sem ter que pagar. — Eiro explicou com um sorriso. Tom levantou a cabeça e olhou para o demônio disfarçado que estava prestes a sair do prédio.
— Como você conseguiu colocar as mãos em algo assim…? — Tom questionou, mas Eiro só sorriu.
— Eu mesmo a escrevi, mas suponho que essa não seja de fato sua pergunta… Vamos dizer que eu consegui uma posição bastante poderosa.
— … É mesmo? — Tom perguntou. Parecia que essa informação era suficiente. Ele confiava em Eiro, então saber mais era simples desnecessário. — Considerarei quando eu tiver um pouco de tempo livre — O homem de meia-idade disse.
Com um leve aceno, Eiro saiu da Guilda dos Aventureiros e foi até o mercador para se certificar de que tudo foi resolvido de forma apropriada.
Então, Eiro voltou até a entrada da cidade, embora logo tenha visto um jovem caminhando em direção ao portão com um olhar determinado. Havia sangue em sua armadura e lâmina e os dois guardas que estavam posicionados do lado de fora imediatamente se endireitaram quando o viram.
— Viram algo interessante hoje? — O jovem questionou e os guardas se entreolharam por um momento de forma hesitante. Foi neste instante que Eiro passou pelo portão, pronto para deixar este lugar.
— Sim, senhor Argenson. Esse homem aqui veio essa manhã com uma grande quantidade de madeiras diferentes e únicas, puxando uma carroça com seu próprio poder físico, algo que deveria ser impossível de se fazer.
Eiro parou, desde que era impossível fingir que não havia escutado os guardas.
— Há algum problema aqui? — Ele perguntou com um pequeno sorriso e o jovem balançou a cabeça.
— Claro que não. Você deve ser bastante poderoso, se esse for o caso. A julgar pelo seu físico, você é um guerreiro? — O jovem questionou, mas Eiro deu de ombros.
— Eu me chamaria de um pau para toda obra. Conheço algumas técnicas corpo a corpo, um pouco de magia, algumas habilidades de produção… Sou um aventureiro, então tentei aprender qualquer coisa que pudesse ser útil.
— … Interessante. Meu nome é Rumia Sieg Argenson II, atuando como Senhor desta cidade e Barão da sua Majestade Sagrada. Poderia responder algumas perguntas?
— Nah, acho que não — Eiro respondeu sem rodeios ao se virar, acenando para o jovem enquanto tentava sair. — Até mais.
Perplexo e confuso, Rumia Jr. correu até a frente de Eiro e tentou pará-lo ao segurar sua mão.
— O que você está fazendo é uma clara má conduta para com um dos homens de sua Majestade. Tal desrespeito seria punível com a morte se falasse assim com as pessoas erradas.
— Garoto, escute. Primeiro: você é um Barão. Ninguém vai se importar se eu te espancar aqui mesmo, exceto seus próprios homens. Segundo: alguém com o seu status não é capaz de cortar nem um único cabelo na minha cabeça. E terceiro… — Eiro suspirou ao retirar o broche que recebeu de Solomon há muito tempo. — Sou um enviado diplomático de Skyhart. Embora este país e Skyhart possam não ser aliados, também não estamos em particular bons termos. Realmente quer correr o risco de uma guerra porque teve vontade de questionar um homem com habilidade acima da média? — O Demônio perguntou. Rumia o encarou de volta.
— Claro que não. Sinto muito se fui rude. Pode ir embora, se quiser.
— Obrigado, esse era o meu plano desde o começo. — Eiro disse e se virou, mas claro que ele não permitiria que o Demônio saísse tão fácil. O Diabrete já havia notado aqueles que ele havia trazido para espiar as pessoas ao redor da cidade e agora Rumia Jr. os ordenou que seguissem o Demônio. Devido a esse fato, Eiro ficou um pouco irritado. Esperava que isso acontecesse, mas não queria lidar com isso.
Embora, talvez isso pudesse ser usado a seu favor.
— Bavet. Quando eu te disser, mude meu cabelo para o modo arco-íris e faça minhas roupas mais vibrantes. — O Demônio sussurrou. Ele utilizaria essa chance para fazer rumores de sua existência se espalharem pelo ‘Reino Sagrado’. Ou melhor, rumores da existência de ‘Eiro, o Aventureiro’, a persona que criaria a partir de agora.
Demorou um pouco, mas, em breve, Eiro chegou a um ponto que era longe o suficiente da cidade para não ser visto por pessoas normais. Ele se esticou e estalou os dedos. Com um pouco de magia de terra e de vento combinadas, Eiro fez parecer que um pouco de poeira estava caindo do seu corpo enquanto se transformava em sua nova persona.
Seu cabelo mudou para as cores do arco-íris e parecia brilhar com uma luz tênue e, de repente, suas roupas pareciam mais extravagantes. Claro, os espectadores iriam informar Rumia Jr. sobre essa transformação e os nobres deste Reino descobririam sobre sua existência. Devagar, rumores sobre o homem de ‘cabelo arco-íris’ se espalhariam. Em especial porque Rumia Jr. tentaria descobrir cada vez mais informações sobre ele e isso aconteceria enquanto Eiro criava seu próprio nome por Skyhart.
Parecia um bom plano para espalhar de forma passiva sua fama, ainda mais por meio de um plano tão simples. Ainda mais com o que Eiro fez a seguir.
Ele se virou e olhou para o homem que parecia ser o líder dos ‘espiões’ e encontrou o olhar dele, sorrindo amplamente. Com um estalar de dedos, a neve ao redor dos pés de Eiro começou a girar ao redor do seu corpo.
E, assim que a neve se acalmou, o Demônio havia desaparecido.
Eiro utilizou o líquido do Ás de Copas para se tornar invisível para os espectadores e depois correu pela floresta até o lugar em que Lugo o esperava.
Isso deveria ser suficiente para deixar Rumia Jr. com suspeitas e, com sorte, devido ao seu status social, que deixou claro para Rumia, seria impossível que o garoto impedisse a madeira que preparou para ser entregue a ele.
No fim, tudo estava correndo bem.