A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 350

A Virtude do Demônio

Eiro atravessou a cidade sendo encarado pelas pessoas ao redor, mas, com alguns sorrisos sutis, eles conseguiram se acalmar um pouco dessa visão surpreendente e continuaram com seus dias.

Afinal, por mais discreta que a cidade parecesse, ela era a única cidade que hospedava as quatro Damas das estações. Essa não era a primeira vez que viam alguém extraordinário vir aqui.

Eiro sabia disso, então não se preocupou muito. Eles prestariam atenção nele, claro, mas não ficariam assustados ou algo do tipo. De qualquer forma, sua primeira parada foi no maior mercador da cidade. E o motivo para isso era simples: pagar para que toda a madeira fosse transportada até sua mansão na capital.

Eiro pagou muito ouro extra para permitir que conseguissem carroças, cavalos e homens para essa curta viagem, que eram necessários. Também entregou um documento oficial que o permitia viajar por certas cidades sem precisar pagar pedágio. Era um privilégio que Solomon lhe deu sair para essa viagem, no caso de Eiro fazer isso ao voltar.

Mas, enquanto fazia isso, notou muitas coisas que haviam mudado aqui na cidade. Parecia que ainda havia alguns soldados reunidos, homens e mulheres que eram do mesmo país daqueles que vieram para conseguir que as Damas os ajudassem. Provavelmente queriam ver se Eiro retornaria em algum ponto e prendê-lo.

Mesmo se Eiro se revelasse, poderia matá-los com um único peteleco do seu dedo. Bem, um peteleco infundido com magia de vento para criar lâminas cortantes que atravessariam suas gargantas, claro, mas isso ainda contava na opinião de Eiro.

— Algum problema, meu senhor? — O mercador perguntou, esperando que Eiro finalizasse o contrato com sua assinatura e o Demônio disfarçado assentiu.

— Nenhum. Só estava aproveitando a paz desta cidade.

Após Eiro dizer essas palavras, com uma razão específica em mente, o mercador engoliu em seco.

— Claro, é bastante pacífico aqui… Embora não acredite que sempre seja assim… Meu senhor, se me permite fazer uma sugestão, seria melhor sair o mais cedo possível. Há alguns meses, um demônio enlouqueceu aqui. Muitos de nós acham que ele pode voltar e matar o resto de nós…

— É mesmo? Vocês informaram alguma fonte oficial sobre isso? Ouvi rumores sobre tal ataque perto daqui, mas não saiu nada nos jornais e não há contos dos bardos sobre isso. — Eiro comentou. O mercador coçou sua cabeça.

— Claro que tentamos. Talvez as pessoas que lidam com essas coisas não acharam que era algo digno de mencionar?

Eiro encarou o mercador, confuso.

Isso… era mentira. Eles nunca tentaram informar uma fonte oficial. Talvez ele não quisesse ser visto como um covarde na frente de quem pensava ser um nobre influente, rico e poderoso, para tentar esconder o fato de que eles estavam assustados para falar sobre isso… mas não faria sentido. Parecia ensaiado demais para ele.

— Bem, talvez os funcionários da Guilda dos Aventureiros saibam um pouco mais sobre isso. Eles devem ter lidado com tal informação, não é? — Eiro perguntou, apesar de já saber a resposta.

— Ah, sim, Tom certa seria capaz de lhe contar muito mais do que eu. Peço desculpas, meu senhor — O mercador disse com um sorriso estranho, mas Eiro balançou a cabeça.

— Não é nada pelo que se desculpar. Não é como se você me devesse alguma informação. Acontece que sou um pouco estudioso e lido com grandes somas de dinheiro. Então, claro que sei o valor da informação. Monetária e sentimental. — Eiro sorriu ligeiramente. — Agora, acho que vou dar uma volta pela cidade. Você disse que o processamento básico deve ser concluído em algumas horas, certo? Voltarei para verificar tudo antes de partir.

— Oh? Meu senhor, não está planejando passar algumas noites? Nós temos uma pousada maravilhosa na cidade!

— Haha, tenho outros negócios para resolver e, sem uma carga tão pesada comigo, conseguirei fazê-lo bem rápido. — Eiro respondeu ao se aproximar da porta. — Te vejo em breve. — O Diabrete disse e saiu enquanto os funcionários e líder da companhia o escoltavam para fora.

— Hah, que tipo de encenação foi essa? Você parecia ridículo! — Sarius exclamou na orelha de Eiro. Claro, dentro do espaço intermediário, no qual Eiro, Nelli e Gondos poderiam vê-lo e ouvi-lo. Eiro virou a cabeça para o lado, continuando seu ato com um sorriso suave na face, mas seus olhos começaram a encarar Sarius agressivamente, fazendo a Salamandra estremecer por um instante.

Sem ter que dizer nada, Eiro tinha muita certeza de que conseguiu transmitir a mensagem para o Espírito.

Mas agora que o problema das madeiras foi resolvido, Eiro foi em direção ao motivo principal pelo qual quis vir até a cidade em primeiro lugar.

Com um sorriso, Eiro empurrou a porta da frente e entrou em um prédio bem pequeno. O homem de meia-idade no comando estava inclinado, encostado no balcão até agora, mas se arrumou olhar para Eiro com um sorriso.

— Bem-vindo! Você é um viajante, por acaso? — Tom, o Mestre da Guilda dos Aventureiros da cidade, perguntou com um sorriso amplo e energético, como sempre fazia.

— Algo do tipo. Na verdade, estou aqui para entregar um pedido atrasado. — Eiro explicou enquanto colocava a mão na bolsa. Retirou algumas ervas que colheu não muito longe da cidade, colocando-as na mesa com um pedaço de papel que parecia ter sido amassado várias vezes, quase se rasgando em pedaços.

Um pouco confuso, Tom olhou para o pedaço de papel.

— Peço desculpas, Senhor, mas, exceto se for declarado, você não pode entregar pedidos a outras cidades além da qual aceitou o pedido. — Ele explicou, olhando para o pedaço de papel.

E, assim que olhou para ele adequadamente e leu o nome que estava escrito para quem havia aceitado o pedido, ele levantou a cabeça enquanto Bavet se separava do corpo do Demônio, removendo a transformação física de Eiro.

— Faz um tempo, Tom. — Eiro sorriu genuinamente. Com choque escrito em seu rosto e seu coração batendo tão rápido que pensou que cairia morto a qualquer momento.

Em vez disso, Tom simples arrastou suas pernas até a frente do balcão e parou na frente de Eiro, apesar das imensas mudanças físicas no Demônio desde a última vez que se viram. Sem nenhuma hesitação, Tom puxou Eiro para um abraço.

— O que você fez, desaparecendo assim, seu tolo? — Tom questionou alto, e, enquanto se afastava, Eiro olhou para o rosto do homem de meia-idade.

— Eu matei muitas pessoas bem no meio da cidade. Não é como se eu pudesse ficar aqui por muito mais tempo.

— Pah, esqueça isso! Isso não é nada com que se preocupar, a maioria de nós já viu coisas piores! — Tom exclamou. Eiro não pôde deixar de rir um pouco em resposta.

— É mesmo? Bem, de qualquer forma, foi uma boa hora. Tínhamos que sair para resolver o problema de Sammy e Leon. Aliás, esses dois já estão completamente bem.

— Hah, fico feliz em ouvir isso! Devo dizer, estava preocupado com eles! Então, agora que eles estão bem, planeja voltar, certo? — O homem perguntou, assumindo que sim, mas o sorriso de Eiro desapareceu ao balançar a cabeça.

— Eu… sinto muito, Tom, mas não voltarei. Mesmo que eu pudesse confiar que não aterrorizaria ninguém na cidade por estar aqui… Agora tenho outras obrigações. As crianças estão indo para a escola; tenho muitas outras pessoas para cuidar. Preciso me tornar mais forte… E nada disso é possível aqui.

Tom, com uma expressão bastante desapontada, deu um passo para trás.

— Entendo. Então, se esse for o caso, eu te apoiarei, meu amigo. Há algum motivo para estar aqui? Certamente não foi por causa desse pedido, né?

— Claro que não. Foi uma coincidência, eu acho. Eu não estava muito longe e pensei que deveria vir como está a situação aqui. Além disso… gostaria de pedir algumas opiniões suas. Dicas e truques.

— Oh? Finalmente quer usar minha sabedoria, entendo. — Tom respondeu, presunçoso, com os braços cruzados e Eiro riu baixinho.

— Certo. É por conta da sua posição como Mestra da Guilda. Você deve ter um pouco de informação sobre como a Guilda lida com promoções para posições mais altas?

— Claro, contanto que você se prove por meio da sua capacidade e poder, você é permitido a subir de rank, mas por que você-

— Eu quero… Não, eu preciso me tornar um rank S. Me ajude a descobrir formas de fazer isso. Neste ponto, sei que existem aspectos além de poder e capacidade. — Eiro disse e Tom o encarou de volta, surpreso.

— Você nunca pareceu tão interessado em subir de rank… Você precisa me contar o que aconteceu depois, mas eu acho que… Poder é o fator mais importante. Se você não estiver muito além da capacidade de um rank A, nem será considerado um rank S. Entretanto, após isso, você precisa se tornar uma figura pública apropriada. Pois os ranks S são ‘Heróis Comuns’, pessoas que às vezes ganham o mesmo renome que o verdadeiro ‘Herói’ por aí.

— E o que eu preciso para isso? — Eiro perguntou sem pestanejar e Tom cruzou os braços em profunda contemplação.

— Bem… receio que isso possa ser impossível para você.

— … O que você quer dizer?

— Um rank S precisa ter alguma aparência única e extraordinária. Algo inconfundível, para torná-lo um verdadeiro símbolo para as pessoas.

Eiro já sabia o que isso significava e pôde ver que não só Bavet, como Nelli, Gondos e até mesmo Sarius ficaram bastante animados com isso.

— Urgh… Tudo bem, traga de volta o cabelo arco-íris…

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