A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 349

A Virtude do Demônio

Eiro subiu a colina, lenta e constantemente. Queria aproveitar esse momento agora que estava aqui depois de tanto tempo. Tudo estava como ele havia deixado. Bem, quase, pelo menos… Tudo estava um pouco mais sujo e coberto de mato, mas era de se esperar.

O resto estava no lugar. O celeiro onde mantinham os animais, a cabana lateral de Eiro em que passava seu tempo escrevendo e entalhando madeira e, claro, a casa principal, onde todos moraram por anos.

O Demônio respirou fundo ao abrir a porta. A poeira que havia sido reunida ali foi empurrada, rodopiou pela luz que brilhava pela porta e janelas. O Diabrete entrou e olhou ao redor.

Ele voltou sua cabeça para o lado, olhando a cadeira em que Jura sempre se sentava. A cama de todos estava em outra parte do cômodo e parede coberta com várias sementes diferentes. Algumas delas já pareciam ter brotado, mas não deveria haver problema.

— Acho que devo terminar logo com isso — Eiro murmurou, parando de absorver a energia deste cômodo. Esse ar nostálgico que o fazia nunca querer sair de novo, mas, claro, ele sabia que tinha que sair, então forçou seu pé a se mover mesmo assim.

Ele agarrou as garrafas de vidro que estavam na parede e as retirou uma por uma. Esculpiu um número e uma letra em cada uma para ter certeza de que se recordaria onde cada uma delas estava. Jura tinha um sistema particular para separá-las, então Eiro não queria estragar tudo.

E, enquanto Eiro guardava essas garrafas de vidro em sua bolsa, que havia sido esvaziada para esta viagem, Bavet continuou olhando ao redor da sala com curiosidade.

— Foi aqui que vocês viveram por tanto tempo?

— Sim, foi aqui… — Nelli disse com uma voz que mostrava que ela estava se entregando à nostalgia tanto quanto Eiro.

Enquanto Nelli começava a contar algumas histórias sobre este lugar, relembrando-as, Eiro encontrou algumas das coisas que veio buscar. S mentes que combinavam com James, assim como sementes que eram adequadas para Charles. Agora, poderia começar a deixá-los cultivar suas próprias árvores para suas próteses.

Eiro as marcou com uma pequena estrela acima do número que gravou e as armazenou na bolsa com as outras. Assim que concluiu isso, deixou o cômodo e foi até a cabana lateral, seguido pelos outros.

Dentro da cabana, Eiro viu sua parede de livros se elevando no canto da sala. Alguns deles haviam começado a ser comidos por insetos, então não conseguiria levá-los com ele. De qualquer forma, tinha todos eles armazenados na biblioteca em sua mente, então não havia necessidade de levá-los. Se quisesse relê-los, poderia fazê-lo onde e quando quisesse.

Agora, havia um único livro que Eiro precisava carregar consigo o tempo todo: o Grimório especial que encontrou naquela pequena loja na capital.

Ainda se perguntava como aquilo havia ido parar lá, mas, quando visitou a livraria, o velho que lhe vendeu o livro não estava em lugar nenhum e não havia nenhuma pista sobre ele. De qualquer forma, Eiro estava aqui por razões sentimentais. Não havia nada aqui que ele precisava. Só queria ver esse local de novo e talvez usar isso para atrasar o que precisava fazer a seguir.

Eiro respirou fundo ao sair do cômodo, contornando a casa. Ali, ao lado, o Demônio encontrou o lugar que procurava: o túmulo de Jura.

Ajoelhou-se no chão e olhou para a lápide. Devagar, estendeu a mão esquerda para frente e as pontas dos dedos da mão direita sobre a palma esquerda e puxou o dedo mínimo e o anelar de madeira em sua palma direita, colocando o polegar sobre o dedo médio, antes de puxar os outros dois dedos de forma que as articulações do dedo indicador e do dedo médio tocassem a palma da mão esquerda de Eiro.

Esse era o sinal de mão que se fazia ao orar para a Deusa da Vida, a Deusa em que Jura acreditava. Ele não era um crente ávido ou algo do tipo e nunca rezaria para ela, mas, de vez em quando, quando passava por dificuldades, acabava fazendo este símbolo enquanto olhava para o céu.

Enquanto utilizava esse símbolo para prestar seus respeitos a Jura, sentiu um arrepio de dor percorrer seu corpo, começando pelas mãos. Ele exalou um pouco de fumaça quando isso aconteceu, mas passou depois de um instante. Eiro mal sofreu qualquer dano.

Mas isso foi suficiente para transmitir a mensagem. A mensagem de que a prece de Eiro foi ouvida, desde que seu corpo foi preenchido por Energia Sagrada por um instante.

Devagar, Eiro permitiu que suas mãos caíssem no chão enquanto começava a falar.

— Muito aconteceu desde que você partiu. As crianças agora estão indo para a escola. Eu me tornei muito mais forte, lutei contra muitos inimigos poderosos. Descobri muitas coisas sobre mim… Sofri muito, mas consegui superar no final. E você não acreditaria, mas sou um candidato a nobre! Embora… não saiba se isso é um motivo para se ficar feliz ou não… — Eiro explicou com uma voz baixa, a mesma voz que utilizava ao falar com Jura muitas vezes.

A voz que usava quando ele e Jura conversaram no meio da noite, enquanto as crianças dormiam, para que não acabasse as acordando.

— Ah, Nelli também está aqui. Ela está ótima, mas sente sua falta tanto quanto eu, se não mais. — O Demônio disse ao virar a cabeça para olhar para a Náiade, sorrindo suavemente ao seu lado.

Por algumas horas, Eiro contou para Jura sobre tudo o que aconteceu em detalhes. Por mais que estivesse hesitante em fazer isso antes, ele não queria deixar esse momento acabar.

Ele queria falar um pouco mais com o seu pai.

— Você tem certeza de que fez tudo o que queria aqui? — Gondos questionou, olhando para Nelli e Eiro. Os dois assentiram.

— Sim. Eu sim, pelo menos — Eiro explicou. — Carreguei toda a madeira que queria levar na carroça que ainda havia aqui. Estou a estabilizando com magia de natureza e magia de gravidade da pedra mágica. Deve ser capaz de aguentar até chegarmos à cidade. Vou mandá-la de lá até a capital.

— Há uma cidade por aqui? — Sarius questionou surpreso e Eiro virou a cabeça para ele.

— Claro, uma vez por semana eu ia lá comprar algumas coisas. É o local para onde as quatro Damas sempre vão. — Eiro explicou, ajudando Lugo com a carroça, ao empurrá-la um pouco para frente. Provavelmente demoraria um pouco, mas eles deveriam levar a madeira até a cidade ao anoitecer.

— Ei, não me culpe por não esperar que houvesse uma cidade aqui, no meio do nada. — Sarius reclamou e Eiro sorriu de leve para ele.

— Eu entendi, não se preocupe. — O Demônio disse.

Mas, daqui em diante, Eiro tentou se concentrar em levar a madeira para a segurança da vila, livrando-se da neve no chão e endurecendo a superfície sobre a qual Lugo puxaria a carroça para garantir que avançassem na maior velocidade possível. Claro, a ‘maior velocidade’ ainda era a mesma velocidade de uma viagem de carroça comum, mas isso era surpreendente ao considerar a quantidade de carga colocada nela.

E, para disfarçar o caminho que o grupo percorreu, Eiro colocou uma neve nova nas áreas por onde já passaram. Após algumas horas, na verdade não muito antes do anoitecer, chegaram à cidade. Ou melhor, conseguiam vê-la à distância. Por ora, Eiro tinha que se disfarçar.

— Lugo, fique aqui fora. As pessoas aqui te conhecem, então também saberão que estou aqui. — O Diabrete disse com um sorriso amargo. Ele desejou que não precisassem fazer isso, para que pudesse ir lá, mas não conseguiam disfarçar Lugo e Eiro ao mesmo tempo.

E o motivo para que Eiro precisasse se disfarçar por meio de Bavet era simples: as pessoas aqui conheciam sua versão mascarada e encapuzada muito bem. Então, se alguém assim aparecesse de repente, eles suspeitariam que Eiro tivesse retornado, considerando tudo o que aconteceu aqui no Equinócio de Outono.

Eiro respirou fundo enquanto desencaixava a carroça de Lugo e depois removia sua capa, de modo que vestisse roupas normais. Com Bavet se fundindo a ele, a aparência do Demônio mudou. Suas asas se tornaram uma jaqueta de inverno grossa, seus chifres viraram cabelo, embora desta vez castanhos-avermelhados e não tão coloridos e Eiro começou a parecer uma pessoa normal. Bem, uma pessoa normal capaz de puxar uma carroça com uma carga bem pesada.

Eiro se certificou de colocar um cajado em suas costas para mostrar que era um mago, ao mesmo tempo que criava círculos mágicos falsos ao redor da carroça para fazer parecer que havia conjurado um feitiço especial para manter tudo unido.

Claro, conjurou um feitiço, mas era um muito mais simples do que o que falsificou. Ele queria deixar bem claro que um feitiço foi conjurado sobre aquilo.

Ao mesmo tempo, também criou alguns círculos mágicos falsos ao redor dos seus membros para fazer parecer como se tivesse fortalecido seu próprio corpo para conseguir puxar a carroça, apesar de não precisar disso.

Assim, Eiro começou a puxar a carroça com rapidez, utilizando magia de água para criar suor falso ao se aproximar dos portões da cidade.

Os membros da milícia ali ficaram chocados com a cena que viram, ao considerar que parecia um feito impossível, mas Eiro conseguiu sair da situação.

Seu carisma era muito alto, afinal, então conseguiu se livrar disso ao dizer que alguns monstros atacaram sua caravana e ele só conseguiu se livrar deles quando era tarde demais. Seus ‘cavalos’ e funcionários morreram e teve que se virar para trazer a carroça para a cidade mais próxima.

Desse modo, Eiro entrou na cidade pela primeira vez em meses, fingindo ser algum mago viajante comum e extraordinário.

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