
Volume 4 - Capítulo 348
A Virtude do Demônio
— Rapaz, o que você- — Armodeus começou, confuso e quase chocado com a insinuação do Demônio.
— Sabe que sou uma criação artificial do Rei dos Monstros, certo? Bem, o fato é que eu possuo uma alma. Sem uma, não poderia existir, mas como eu possuo esta alma? É impossível criar almas do nada e esta regra ainda deve se aplicar ao Rei dos Monstros. Se ele fosse poderoso o suficiente para isso, então esse mundo já estaria condenado. — Eiro disse e Armodeus acenou com a cabeça ao entender a lógica por trás disso.
— Então… Está dizendo que o Rei dos Monstros retira a alma de pessoas para criar monstros artificiais?
— Não faria sentido se esse fosse o caso?
— Isso explicaria algumas coisas, eu acho… mas o que te trouxe a essa conclusão tão de repente? Não parece que essa ideia esteja na sua cabeça há muito tempo. — Armodeus comentou. Eiro olhou para o lado com uma leve careta.
— Eu a vi. Há um tempo, eu vi, mas não queria acreditar e, quando perdi minhas memórias, essa lembrança específica foi selada. Talvez fosse para proteger essa informação importante para que eu pudesse ter certeza de recuperá-la, mas… De qualquer forma… Eu vi um garoto… Aparentemente mal um adulto, encolhido no canto da ‘sala’ dentro de mim.
Eiro explicou a situação exata para Armodeus. Como <O Diabo> abriu seu peito para retirar temporariamente uma parte dele e como Eiro viu aquela criança humana encolhida ali.
Armodeus o encarou de volta, surpreso e pensativo.
— Isso significa que você… Ainda possui um aspecto humano?
De imediato, o Demônio assentiu.
— Acho que sim. Minha suposição é que esse seja o aspecto que me permite controlar minha monstruosidade com tanta facilidade. A parte que me torna menos monstro, por assim dizer.
— Isso… Isso poderia muito bem ser o caso. — Armodeus murmurou, assentindo devagar. — Acho que conheço alguém que pode ajudar a descobrir isso. Talvez até encontrar a origem da sua alma… Tipo, onde você viveu em sua… Bem, ‘vida passada’.
— E quem seria esse? — Eiro perguntou e Armodeus coçou a parte de trás de sua cabeça em contemplação, com uma expressão complicada.
— Ela é bem difícil de lidar, sabe? Ela tem… Bem, eu não chamaria de desdém pela vida, na verdade, ela não sente nada pela vida. Como se a vida fosse meramente uma ferramenta, ou algo com que se possa trabalhar. Como aço seria para mim.
— Você está- — Eiro questionou e o Anão Ancião assentiu.
— Sim, estou falando de uma necromante. Uma em específico, na verdade, você já pode ter lido histórias sobre ela. Eliza Katerina Magna Koperia. A Rainha dos Mortos-Vivos.
— … Vocês realmente conhecem todas as pessoas incríveis do mundo, não é? Existe algum tipo de clube que todos com habilidades de grau mestre são convidados…? — Eiro perguntou e Armodeus o encarou de volta por alguns momentos enquanto virava a cabeça e olhava para outra parte da sala.
— Você deve estar brincando… Não existe algum tipo de ‘Liga dos Cavaleiros Extraordinários’, certo? — Eiro questionou com um sorriso irônico, mas Armodeus não disse nada para negar e era óbvio que estava exagerando ao tentar esconder sua resposta.
E isso foi uma resposta suficiente para Eiro.
— Tudo bem, entendo a situação. Acho que posso ou não descobrir isso sozinho algum dia. Se eu conseguir levar uma habilidade ao grau mestre, claro. De qualquer forma… poderia me dizer onde posso encontrar essa Eliza Katerina Mag-
— Ela prefere ser chamada de Koperia, na verdade. Não mencione o resto do seu nome sob nenhuma circunstância… Seria bastante perigoso para você.
— Certo. Me lembrarei disso. — Eiro suspirou com os braços cruzados e Armodeus explicou.
— O problema é: eu não sei onde ela está, mas ela sempre está tentando encontrar outros necromantes e roubar suas habilidades e técnicas. Basicamente tente utilizar Solomon ou aquela Organização em que você se infiltrou para descobrir rumores sobre necromantes poderosos, tente encontrá-los e espere que Koperia também tenha ouvido sobre eles.
Eiro escutou as palavras de Armodeus e levantou as sobrancelhas, um sorriso amplo se formando em seus lábios.
— Na verdade, não acho que precisarei fazer isso — Eiro comentou. — Tenho meus métodos de fazê-la vir até mim.
— … O quê? Como você acha que conseguirá isso?
Mas, em resposta, Eiro sorriu ainda mais.
—
O Demônio esticou suas asas enquanto voava sobre o mundo abaixo dele. Olhou para a floresta coberta de neve com uma expressão um tanto nostálgica. Então, a viu à distância: a árvore gigante que não costumava estar aqui antes, com cerca de cinquenta metros de altura, uma casca azul-claro, quase branca. As folhas desta árvore, com suas flores desabrochando no meio do inverno, brilhavam como se houvesse pequenas velas espalhadas ao redor, fazendo parecer como se pequenos flocos de gelo flutuassem no ar refletindo qualquer luz com que entrassem em contato.
Lentamente, Eiro pousou no chão à frente da árvore, escutando a voz de Nelli ao lado de sua orelha.
— Esta é a sua árvore? Isso é… Uau… Isso é um… desenvolvimento bastante inesperado. — A Náiade comentou enquanto Eiro sorria e colocava a mão na casca da árvore.
— É mesmo? — Ele perguntou com uma risada baixa, depois assobiou e se virou.
Lugo estava o alcançando. Eiro viajou, em sua maioria, nas costas dele, mas, quando se aproximaram daqui, ficou animado demais para não voar e aproveitar a vista de cima.
Alguns momentos depois, o Cervo alcançou Eiro de novo, vendo o local em que os dois se conheceram, agora tão diferente de antes. Lugo olhou ao redor e se aproximou da árvore, esfregando sua galhada na casca.
Com uma risada baixinha, observando Lugo fazer o que costumava com esta árvore, Eiro se virou para aqueles dois que olhavam para a criação de Eiro com olhos maravilhados.
— Esta é a árvore que você criou ao inserir sua mana em uma semente…? — Sarius questionou com os olhos arregalados e Bavet também parecia mais do que impressionado.
— Isso é simplesmente incrível…
— De fato é — Eiro respondeu sem pestanejar. — Mas agora, com licença por um momento — o Diabrete disse enquanto se abaixava e pulava o mais alto que conseguia.
Ao pular, segurou um dos galhos da árvore e subiu nele. A árvore, de alguma forma, emitia um ar frio. Era bastante agradável… Eiro se perguntou se também seria assim no inverno.
De qualquer modo, por ora, o Diabrete caminhou ao longo deste galho grande e alcançou o que queria ver. Era a fruta que estava crescendo ali. Uma fruta de flor do inverno, tecnicamente criada por Eiro.
Ele a arrancou da árvore e segurou o orbe de gelo em sua mão, dando uma mordida. Para sua surpresa, embora a ‘concha’ mais externa fosse como gelo e conseguisse ver por meio dela, assim que foi quebrada, uma fruta fumegante poderia ser encontrada dentro dela, uma que não era translúcida. Era doce e saborosa, agradável de mastigar e continha todos os sabores que Eiro apreciava em comida. Era perfeita para ele.
Parecia um pouco estranha, pois parecia ter uma natureza mágica; uma que Eiro não se importava. Era bem interessante, na verdade.
Ao pensar que tinha que mostrar isso para as crianças, Eiro colheu mais algumas dessas frutas, colocando-as na bolsa que trouxe com ele. Ele se preparou para levar bastante coisa, pois ainda não sabia do que precisava.
Assim, depois de encher uma das bolsas, Eiro procurou por uma boa parte da árvore que pudesse levar com ele. Um bom galho que o permitiria trabalhar com relativa facilidade.
E enquanto olhava ao redor, parecia como se a madeira sob seus pés estivesse se movendo. Convulsionando. Pulsando. Como se esta árvore estivesse viva.
As folhas começaram a farfalhar e a luz que refletia nos galhos criou um caminho para Eiro seguir. Que assim o fez. Ele escalou pela superfície da árvore que o guiava em direção a um certo local, de acordo com a vontade do Demônio. Após alguns instantes, entendeu o que estava acontecendo. A árvore sabia por que Eiro estava aqui e sabia que ele retornaria por essa exata razão algum dia. Ela preparou uma madeira que seria perfeita para ele trabalhar.
Era como se um pouco do poder estivesse concentrado aqui neste galho e o tornasse um material melhor do que os outros que Eiro viu até então.
Com um sorriso, o Diabrete retirou sua serra da sua Tesouraria e a colocou contra a madeira.
— Obrigado, amigo. Vou te dar um pequeno presente por isso mais tarde. — O Demônio sorriu enquanto começava a cortar o galho. Era bem grande, mas parecia fraco bem no lugar em que Eiro escolheu cortar, como se quisesse facilitar para ele. Por outro lado, era mais forte em outros lugares para garantir que o galho não se quebrasse e machucasse a árvore mais do que o necessário.
Bem, em primeiro lugar, colocou sua cauda embaixo do galho para mantê-lo erguido, mas sempre era possível que ele se quebrasse de forma desigual de qualquer forma.
Respirou fundo enquanto descia da árvore com o galho grosso em mãos. Uma vez no chão, ele o cortou em pedaços que seriam mais fáceis de transportar e os empacotou de maneira que permitiria carregá-los com facilidade mais tarde.
Então, Eiro caminhou até a árvore, colocando a mão em sua casca de novo.
— Obrigado, amigo. Aqui, deixe-me alimentá-lo mais uma vez.
No momento seguinte, Eiro inseriu uma grande quantidade de mana na árvore. Como era um cajado gigante que podia usar se quisesse, sua mana se espalhou igual e até permitiu que despejasse uma quantidade imensa de mana de uma só vez.
As folhas farfalharam por um instante e Eiro sorriu para a árvore, satisfeito. Agora que visitou este lugar, havia mais duas paradas antes de voltar.