
Volume 4 - Capítulo 347
A Virtude do Demônio
Surpreso com o que sua companheira acabou de fazer, Lognir olhou para Krista.
— Você… Você acabou de ensinar a ele a essência do ‘Caos’? — o Dragão perguntou com um sorriso irônico. A Dragonesa se virou para ele e piscou.
— Talvez.
— Krista… — Lognir suspirou fundo. — Eu passei alguns dias ensinando para ele como utilizar a ‘Verdade’ e a ‘Ordem’… Se você de repente lhe ensinar a essência do ‘Caos’, tudo isso pode ser destruído, sabe?
Krista virou a cabeça para Eiro com um sorriso na fave.
— Não tenho tanta certeza disso.
— … Você pode estar certa — o Dragão da Verdade comentou. — Eiro é muito mais impressionante do que eu esperava. Ele pode ser capaz de compreender o Caos enquanto ainda mantém a Ordem, mas, sério… esse cara tem filhos, você não pode ser tão egoísta como isso. — Lognir comentou.
Com uma risada baixa, Krista se virou.
— Se ele não consegue lidar com isso, a culpa é dele, não é? Se ele, em sua posição, não consegue lidar nem com um pouco de caos em sua vida e acaba enlouquecendo, ele não pode reclamar. De qualquer forma, deve levar algumas horas até que ele-
— Você… — Eiro se disse por entre os dentes cerrados. — Você acabou de dizer que essa merda poderia me deixar louco se eu não tivesse cuidado? Por que diabos você acha que eu vim aqui?! Isso não é totalmente contraprodutivo?!
Fervendo de raiva com essa revelação, o Demônio esfregou a ponta do seu nariz enquanto olhava para a notificação flutuando na sua frente.
[Você obteve a <Essência do Caos>]
[Você conseguiu compreender o que o Caos é, o que lhe deu uma nova perspectiva.]
Eiro revirou os olhos e passou seus dedos pelas notificações. Essas estavam ficando cada vez mais grossas ultimamente, como se Eiro fosse capaz de segurá-las. Ele não fazia ideia do porquê estava concentrado nisso no momento, mas conseguiu prosseguir.
Olhou para Krista e Lognir, que o encaravam bastante perplexos.
— O quê? Você acha que eu deixaria um pouco de caos mental me atrapalhar? Posso lidar com coisas assim em um instante. Não me subestime.
Eiro ainda estava um pouco bravo com o fato de que Krista o teria feito enlouquecer sem hesitação, mas, por alguma razão, sentiu-se mais calmo depois que obteve a <Essência do Caos>. Antes, sua mente estava funcionando de fora caótica devido às informações que foram reveladas depois de liberar o selo em suas memórias, mas, agora que recebeu essa nova habilidade, o caos parecia mais fácil de entender. Mesmo que sua ainda estivesse tão selvagem como antes, Eiro se sentia mais seguro ao saber o que o caos parecia e que seria mais fácil se acalmar agora.
Lognir olhou para Eiro um pouco surpreso e levantou as sobrancelhas.
— Sabe… Você continua me impressionando repetidas vezes. Parece que continuará a me surpreender.
Eiro olhou para o Dragão com uma expressão vazia. Não tinha certeza do que estava ocorrendo, mas sentiu que, de repente, havia algum tipo novo de energia flutuando ao seu redor. Algo que nunca percebeu antes. Enquanto a maioria das outras energias parecia, até certo ponto, algum tipo de líquido suave e sedoso, essa era diferente.
Era como se não existisse, tremeluzindo entre a existência e a inexistência. Suas posições também eram aleatórias… mesmo se Eiro quisesse puxar essa energia, seria difícil, já que ela escaparia das mãos do Demônio. Entretanto, ainda era suficiente para cobrir sua mão com essa energia por um momento.
Eiro olhou para Lognir e fechou os punhos atrás das costas.
— Lognir, diga-me. Quais dedos estou levantando com as duas mãos?
— … Você quer usar isso para um truque de festa? — Lognir perguntou com um sorriso irônico e Eiro resmungou.
— Claro que não, só quero ver se isso é suficiente para enganar as habilidades da ‘Verdade’ que você possui. — O Diabrete explicou. — Imprevisibilidade é importante em combate. Ser imprevisível e ainda conseguir lutar no meu estilo é ainda mais. Então, me diga quais dedos estou levantando.
— … Tudo bem. Mão esquerda… Polegar e indicador. Agora você trocou para o dedo médio, anelar e dedo mínimo. Agora, o dedo mínimo. Pode parar de tentar me enganar? De qualquer forma, sua mão direita…? — Lognir pensou por um tempo. Ele conseguia descobrir sobre a mão esquerda de Eiro com perfeição, mas era a mão que não estava envolvida pelo caos.
Parecia que Lognir estava tendo dificuldade com essa mão.
— Indicador, talvez?
Com um sorriso na face, Eiro balançou a cabeça.
— Eram todos eles ao mesmo tempo — o Demônio disse sem rodeios.
— Certo, como eu duvido que você mentiria por diversão, parece que foi isso mesmo que eu pensei. Embora seja um pouco estranho…
Essa energia do ‘Caos’ era diferente de tudo o que Eiro conhecia. Provável que nem fosse uma ‘energia’ e sim uma força natural da qual tomou consciência a ponto de ser capaz de senti-la. Quando a envolveu na sua mão, era como se tivesse enrolado uma seda fina ao redor dela. Uma seda que queria escapar na primeira oportunidade que tivesse.
E, para Eiro, agora Krista parecia estar usando um vestido feito todo por essa seda. O Demônio respirou fundo enquanto permitia que o caos desaparecesse e parou de vê-lo por enquanto. Seria difícil aprender a como controlá-lo, mas ele deveria ser capaz de fazê-lo de alguma forma, mais cedo ou mais tarde.
— Agora que terminei, acho que pode ser uma boa ideia usar o resto do tempo que reservei para voltar para minha antiga casa. Há algumas coisas que quero resolver lá. — Eiro explicou, virando a cabeça para Lugo. — Você também quer voltar para lá, certo, garoto? — O Demônio perguntou com um sorriso.
— Você vai levar o Anão com você? — Lognir perguntou e Eiro concentrou-se no som do martelo de Armodeus batendo em algum metal. — Parece que ele ainda está ocupado. Estarei de volta em alguns dias para pegá-lo. Se você estiver bem com isso, claro. — Eiro disse com um pequeno sorriso e Lognir riu um pouco.
— Você está falando como se fosse o pai daquele velho. Que interessante. Claro, ele nos conquistou bastante, eu diria. Ele é respeitoso com o que lhe foi dado para trabalhar e possui um jeito especial com as palavras quando conversamos. Apesar de achar que você deve avisá-lo sobre isso — Lognir sugeriu. — Ele parece menos aterrorizado conosco, mas ainda é melhor escutar sua opinião, não é?
Eiro virou a cabeça em direção à área em que Armodeus trabalhava e assentiu.
— Acho que sim. Ele fará alguma pausa em breve, então falarei com ele. — Eiro explicou. — Por ora, vou me preparar.
O Demônio atravessou o sistema de cavernas. Sério, por algum motivo, só queria sair desta caverna o mais rápido que conseguisse. Ele estava grato por Longir e Krista, mas toda esta situação, todo este treinamento… Meio que o sobrecarregava.
Essa habilidade de ‘Caos’ era útil, mas ele não a adquiriu com muita facilidade? Claro, Krista disse que havia a chance de ele enlouquecer, mas, para Eiro, pareceu muito fácil evitar. Ele não teria questionado isso e interpretaria como uma ‘sorte do destino’, mas, a essa altura, talvez não fosse ‘sorte’.
Mas uma das coisas que recobrou depois de liberar o selo de suas memórias o fez se sentir estranho. O próprio Eiro era… Um ser tão estranho. Tecnicamente era um demônio, mas havia algum outro demônio com habilidades comparadas às dele?
Isso não significava ‘Poder’. Havia muitos demônios mais poderosos do que ele. O que Eiro queria dizer era o ‘Conjunto de Habilidades’ que possuía. Estava se afastando tanto do que só demônios normais tentavam fazer, a ponto de estar incerto se poderia se considerar um.
Mas, no fim do dia, não era nada além de um demônio. Ele não era uma pessoa, também não era algum outro monstro.
Mas… Eiro nunca deveria ter sido um demônio em primeiro lugar. Pelo menos, era o que aquele pequeno aspecto encolhido no fundo da sala, no peito de Eiro, parecia mostrar a ele… A sala com todos os aspectos que o compunham na época, que foi aberta pelo <O Diabo> para retirar o seu medo e amor paternal.
O que ele viu naquele momento era o que estava lhe causando tantos problemas agora. Como uma crise de identidade total que se manifestou por uma única indicação de problema. Algo que o tornava diferente do que pensava ser.
Aquela pequena figura que-
— Oi, rapaz. — Os pensamentos do Demônio foram interrompidos quando Armodeus se aproximou dele. — Você queria falar comigo sobre algo? — O Artesão perguntou com um sorriso enquanto tirava uma pequena pausa do trabalho. Eiro assentiu, explicando seu plano para o Anão Ancião.
— Eu pretendo voltar para minha antiga casa, o lugar onde eu vivia com Jura. Queria pegar algumas madeiras diferentes do porão e um pouco da minha árvore também. Cuidar um pouco do túmulo de Jura. Visitá-lo, sabe? — Eiro explicou e, com uma expressão melancólica ao ouvir o nome do seu falecido amigo, Armodeus o encarou de volta.
— Hm… certo, estou bem com isso. Continuarei trabalhando aqui até você voltar. — Armodeus assentiu.
Um pouco mais calmo agora que isso foi resolvido, Eiro suspirou. Devagar, Armodeus franziu a testa e perguntou algo que estava acontecendo.
— Rapaz, está tudo bem? Parece que você quer me perguntar algo.
Eiro levantou as sobrancelhas, surpreso.
— Ah… É, na verdade. Sim. Eu gostaria que você me apresentasse a uma pessoa de importância para você… No momento, estou procurando por algum topo de pesquisador? Alguém que sabe mais sobre almas do que qualquer um.
— Almas, por que você está procurando por alguém assim? — Armodeus perguntou, embora não tenha negado que conhecesse alguém assim. Desse modo, Eiro explicou o porquê.
— É simples… — Eiro começou, olhando de volta para a figura daquele jovem garoto assustado que viu encolhido dentro de si, entre todas as outras qualidades que o compunham. — Acho que tenho a alma de um humano em mim.