
Volume 4 - Capítulo 345
A Virtude do Demônio
Eiro escutou as palavras de Lognir e o encarou confuso.
— Então, eu tenho algum tipo de ‘Aglomerado’ dentro de mim? — O Demônio perguntou. Isso explicaria algumas coisas, pelo menos. Entretanto, o Dragão negou.
— Não, você não possui. Você possui uma ‘lasca’ dentro de você. Uma que é particularmente poderosa, mas apenas uma… — Lognir explicou. — E há outra diferença entre você e os portadores de ‘Aglomerados’… Eles só são capazes de escolher o tipo de habilidade que desejavam aprimorar enquanto sobem de nível. Se desejarem se tornar mais rápidos, os pontos de atributos deles serão distribuídos entre Agilidade e Força. Se desejarem receber uma magia mais forte, seus pontos de atributos serão distribuídos entre Inteligência e Sabedoria. Eles não têm escolha em quantos pontos serão concedidos a cada atributo, nem quais atributos exatos serão afetados por sua vontade.
Eiro encarou Lognir e balançou a cabeça, pensando que o Dragão havia compreendido errado a explicação de como o seu sistema de pontos de atributos funcionava. Entretanto, Lognir comprovou que esse não era o caso.
— Isso, mais uma vez, te torna diferente deles, Eiro. Você é capaz de designar cada ponto individual para qualquer atributo que desejar, não é? Sua capacidade é muito mais… única do que aqueles que portam um aglomerado.
De novo, Eiro ficou desapontado ao perceber que ainda não tinha uma explicação clara para o que o fazia ser assim. Ter uma solução apresentada para que fosse arrancada de novo dele… era mais do que cruel.
— … Você tem alguma ideia do porquê sou assim? — Eiro questionou, mas Lognir balançou a cabeça.
— Tudo o que posso fazer é supor. Não há como eu ter certeza, mas… é possível que você porte um pedaço único da energia primordial dentro de você. Ou a ‘Lasca’ interage com a parte que cria o sistema dentro de você de uma forma surpreendente. Talvez alguém tenha mexido com sua ‘lasca’ e feito com que você ficasse assim. Existem muitas possibilidades diferentes, entende?
O Diabrete assentiu em resposta à explicação do Dragão. No fim… parecia que tinha relação com a ‘Lasca’. Neste momento, Eiro não tinha ideia do que estava acontecendo, mas estava um passo mais próximo. Mesmo que o objetivo parecesse estar a quilômetros de distância, dar um único passo era melhor do que estar parado no ponto de partida.
E havia algo mais que Eiro sabia. Bem, ele não ‘sabia’, mas tinha uma sensação. A sensação de que, ao se recordar de todas as suas memórias, revelaria algo que poderia ajudá-lo a esclarecer mais a sua situação. Ele poderia jurar que ouviu o termo ‘lasca’ em tal contexto antes. Não havia como não ter, pois nunca esteve tão certo de algo que não se recordava e não se sentia confiante sem motivo.
Excessivamente confiante algumas vezes, mas nunca sentia confiança sem razão. Em especial uma confiança tão forte como essa. Eiro respirou fundo e permitiu que seus pensamentos fluíssem. Haveria alguma memória que parecia conter esta informação? De alguma forma, não havia nenhuma, mas havia uma lacuna. Uma lacuna que Eiro não conseguia explicar. Um livro inteiro estava faltando nas prateleiras em sua biblioteca mental. Talvez fosse esta lembrança que Eiro precisava?
— … Vamos continuar falando sobre isso mais tarde… Há outra coisa que preciso-
— Não — Lognir disse com um tom alto e claro. — Você não deve fazer nada, exceto dormir, por agora. Sua cabeça está muito exausta, mesmo que não queira admitir isso. Então, vemos comer e depois você irá dormir, prometa para mim.
Eiro olhou em silêncio para Lognir por um tempo, mas concordou.
— Claro. Se você diz assim, então devo confiar em você. — O Demônio disse com um tom claro, embora baixo e o Dragão ficou satisfeito. Ele também pareceu precisar organizar os pensamentos sobre as informações que foram reveladas a ele.
— Ficarei aqui e conversarei com esses três mais um pouco, isso está bem? Também preciso… organizar meus pensamentos sobre isso. — Eiro disse e, ao ver a expressão de Lognir, adicionou. — Não vou tentar me recordar, não se preocupe.
Satisfeito, Lognir saiu enquanto Eiro caía no chão, primeiro se sentando e logo depois permitindo que seu corpo se deitasse, com Nelli, Gondos e Sarius flutuando acima da face do Demônio.
— Agora, isso é bastante interessante… Certo? — Nelli perguntou com um sorriso irônico. Ela já sabia dessa habilidade de Eiro há um tempo, mas conhecia menos sobre ela do que Eiro. Claro que ficaria confusa com tal informação.
Como nem Gondos nem Sarius compreendiam a extensão da capacidade de Eiro de distribuir seus próprios pontos de atributos, nem entendiam as implicações das palavras de Lognir, eles olharam para o Diabrete e tentaram acalmá-lo em vez de surtarem como Eiro e Nelli.
— Não se preocupe, Eiro. Pelo tempo em que estive com você, não te vi fracassar totalmente. Pode ter havido algumas vezes em que as coisas não saíram da forma como desejava, mas, no fim, você sempre se recuperou. Se quer desvendar esse mistério, você conseguirá, não tenho dúvidas disso. — Gondos disse, com palavras tranquilizadoras.
E isso o animou. Enquanto tanto Nelli como Sarius fossem do tipo que às vezes mentiam ou fingiam que estava tudo bem para benefício próprio, claro que ainda sem seriedade, Gondos era alguém de quem Eiro nunca ouviu dizer nada além do que queria dizer do fundo do coração.
Foi bom ouvir palavras tão honestas sobre algo com que estava preocupado.
— Obrigado, Gondos.
Devagar, Sarius também abriu a boca, querendo dizer algo sobre isso também.
— Muitas vezes, do Rei e da Rainha, ouvi alguma merda sobre isso. Não sabia que era algo tão importante…
— Eles te contaram sobre a verdade de certas forças primordiais que criaram vários seres poderosos e você não achou que era importante?
— Ei, eu nem sabia que sairia do plano de fogo, então foda-se — a Salamandra resmungou. — Mas esse não é o meu ponto. O Rei me disse que aqueles que manipulam essas coisas, os únicos que ainda existem, ainda estão vivos. E isso significa que-
— Posso encontrá-los — Eiro murmurou.
Sarius assentiu.
— É, é isso. Embora eles possam não estar no plano material central…
— Isso significa que devemos descobrir uma forma de viagem interplanar, é isso? — Nelli questionou com um suspiro profundo. — Você sabe o quão difícil é tentar fazer algo assim?
Eiro olhou para o teto da caverna comentar:
— Mas eu já possuía uma conexão com outro plano, não é?
— Isso… — A Náiade sussurrou. — Também é verdade… Bem, se conseguirmos levá-lo ao Plano Etéreo, isso deveria lhe dar acesso a todos os outros planos. Não existem mapas sobre certas partes do Plano Etéreo?
Eiro levantou as sobrancelhas, pensativo. Ele nunca ouviu sobre isso. Claro, sabia sobre o Plano Etéreo, leu vários livros sobre isso, mas nenhum deles mencionou algo sobre ‘mapas’.
— Ah… Sim, você pode querer visitar alguns velhos amigos de Jura, quando puder. Eles são bastante poderosos, se você se lembra. Um deles é um tipo de ‘Guardião do Conhecimento’. Conhece quase todas as linguagens que existem, possui uma biblioteca gigante… Ele pode ter um ou dois desses mapas.
De imediato, Eiro se sentou e encarou Nelli.
— E por que eu NUNCA ouvi falar sobre isso? Não acha que eu gostaria de conhecer essa cara?
— Claro que sim, mas não temos ideia de onde ele está… ou se está neste plano de existência. Sua posição muda sempre, Jura não conseguiu vê-lo por… décadas. Nem nenhum dos outros. Apesar de que você pode perguntar para Armodeus, talvez ele saiba algo sobre ele? Ele era parte do mesmo ‘círculo’.
Eiro assentiu lentamente. Havia algo novo para tentar descobrir, isso se ao menos decidisse descobrir sobre isso. Poderia simples escolher não se importar e viver em uma ignorância feliz pelo resto da vida.
Levantou-se do chão e foi até a outra parte da caverna em que os outros esperavam, aparentemente tendo começado a comer sem ele. Não que se importasse.
Ele se juntou a eles e, logo, terminou de comer e foi dormir, assim como Lognir disse a ele. Só que sua mente estava tão sobrecarregada com pensamentos que foi difícil dormir.
‘O que eu sou?’
Como ele conseguiu essa lasca especial dentro do seu corpo? Ele foi criado pelo Rei dos Monstros, então foi um acidente? Ou ele usou um material base que já continha a lasca?
Eiro não sabia a resposta para essas questões. Queria saber, mas não sabia. Talvez nunca descobrisse. Talvez tivesse que viver o resto da sua vida sem saber sobre isso, sem chance de descobrir o que era.
Aos poucos, o Demônio conseguiu adormecer. Encontrou-se de volta dentro de um sonho lúcido que poderia controlar como quisesse. Ali, Eiro criou a biblioteca. Não conseguiu sobrepô-la, como antes, mas pelo menos conseguiu fazer tudo aos poucos.
Eiro recuperou mais algumas memórias e terminou algumas coisas que não conseguiu durante o dia, faltando alguns aspectos para descobrir.
De manhã, o Demônio saiu para pegar algumas coisas novas para todos comerem e foi para outra parte do sistema de caverna para, mais uma vez, mergulhar em sua biblioteca.
Conseguiu compreender o último aspecto das memórias que tinha que usar para lembrar da última parte que ainda faltava.
Emoções. Em algumas de suas memórias, devia ter descoberto algo sobre emoções que agora desconhecia. Se conseguisse sentir essas emoções de novo, então deveria ser capaz de recuperar suas memórias perdidas.