
Volume 4 - Capítulo 344
A Virtude do Demônio
Eiro permaneceu na biblioteca em sua mente. Ele viu o que estava ao seu redor, ou pelo menos o que imaginou estar ao seu redor, usando a capacidade da <Memória de um Estudioso>. Uma que o permitia se recordar de todas as partes do seu passado com perfeição. E se ele combinasse essa habilidade consigo mesmo para permitir que conseguisse se recordar de uma parte do seu passado?
Uma parte que estava quebrada, uma parte pela qual tinha que passar repetidas vezes, preenchendo as lacunas em suas lembranças. Forçando-se a recordar.
Era isso o que Eiro tentou a seguir. Permaneceu no centro da área que usava para representar as diferentes memórias, utilizando a memória muscular e sobrepôs essa habilidade consigo mesma. Ele tentava combinar o aspecto da habilidade que o permitia mergulhar em uma única memória com o aspecto que o permitia se recordar de todas essas memórias no geral.
E isso fez algo que bagunçou a cabeça de Eiro. De imediato, esqueceu a maioria das coisas que fez em sua vida. Não era no nível da amnésia que havia experienciado antes; na verdade, estava no nível em que outras conseguem se recordar de suas vidas.
Em sua maioria, elas sabiam tudo o que precisavam saber, mas não conseguiam se recordar de todas as situações com detalhes particulares, mas, de novo, devido à sabedoria e inteligência bastante altas de Eiro, sua capacidade base de memorizar e lembrar das coisas era muito melhor do que a de uma pessoa comum, em primeiro lugar.
Mas, para Eiro, parecia como se tivesse perdido todas as suas memórias por um momento. Claro que ele sabia que não era o caso, era apenas como se sentiu por um instante.
De qualquer forma, estava se concentrando em uma única memória. Uma memória que ainda tinha por completo, apenas para testar. Não queria bagunçar consigo mesma. Todos os livros da biblioteca mudaram para se tornarem o mesmo. A mesma cor e grossura, inclusive mesmo peso. Eram idênticos um ao outro.
Eiro pegou um desses livros e se recordou da situação que havia escolhido. Era apenas uma memória calmante dele vagando na floresta para voltar para casa. Quando fechou o livro, pegou outro e o abriu. Era a mesma lembrança.
E isso mostrava que havia funcionado. Eiro sentiu apenas essa memória passando o tempo todo. Isso o ajudou a se acalmar, na verdade. Sua habilidade poderosa foi concentrada nessa memória, fazendo com que a imersão de Eiro parecesse de alguma forma… mais forte do que antes. Como se estivesse lá naquele momento, mas sem sair do lugar. Em dois locais e dois tempos diferentes, ambos de uma vez.
Era interessante, para dizer o mínimo.
Eiro removeu seu foco dessa memória exata e retornou ao normal. Passou um pouco de tempo concentrado tentando descobrir se houve algum dano às suas memórias por causa disso, mas esse não era o caso.
O Demônio sorriu enquanto prosseguia para o próximo passo. Tentou fazer sua <Memória de um Estudioso> concentrar-se em uma memória fragmentada. Uma daquelas que estavam próximas de serem concluídas, mas ainda não estavam lá. Apenas no caso de algo dar errado, Eiro queria minimizar o dano.
Mas, no instante em que fez isso, sentiu-se… Estranho. Como se todo seu corpo fosse difícil de se mover, como se tivesse se tornado mais pesado ou Eiro tivesse começado a caminhar através de um pântano com lama até o queixo.
Essa era a parte de Eiro que estava dentro da memória fragmentada, imersa nela. Como a memória estava incompleta, não conseguia acessá-la. Ela estava o repelindo, mantendo-o na parte que ele se recordava, o que não era muito para começar.
Enquanto Eiro tentava mergulhar nesta memória fragmentada, movendo-se como fazia dentro dele, o Demônio conseguiu prosseguir muito mais rápido do que antes e parecia que os fragmentos corretos estavam caindo do teto escuro desta sala.
Com um sorriso no rosto, Eiro continuou e conseguiu terminar essa memória. Assim que fez isso, sua mente clareou e, em vez de parecer que seu corpo estava preso na lama, o Diabrete sentiu-se leve e capaz de se mover como quisesse.
Então, Eiro avançou para a próxima memória. Depois a próxima. Não apenas foi muito mais rápido do que antes, mas também muito menos exaustivo. Como Eiro estava concentrado em apenas uma coisa, sua mente estava livre de todo o resto, o que tornava o trabalho mais simples.
Eiro sorriu e continuou a tentar fazer o mesmo com as outras memórias que tinha. Ainda faltavam alguns aspectos em algumas delas, mas, de novo, ele descobriria que tipos de aspectos eram mais tarde e as completaria depois disso. Apenas cerca de um décimo das memórias possuía uma pequena porção de partes que eram influenciadas por esses aspectos.
Isso significava que Eiro conseguiu terminar mais de 90% do seu trabalho ao fim desse dia, quase um dia inteiro antes do que imaginou.
Com um sorriso amplo, saiu da sua biblioteca e olhou para Lognir.
— Você não poderia ter me contado sobre esse tipo de coisa um pouco mais cedo?
— Como eu deveria saber que você dominaria esse passo com tanta facilidade? Sério, você é bastante talentoso com essas coisas. Desenvolver novas habilidades ou técnicas deve estar, de alguma forma, entre seus verdadeiros ‘talentos’.
— Tem certeza disso? — Eiro perguntou com um sorriso irônico. — Na verdade, eu acho que não.
Lognir olhou para o Demônio com as sobrancelhas levantadas de curiosidade.
— O que você quer dizer?
— Acho que eu não possuo talento algum — O Diabrete disse e Lognir soltou um suspiro profundo.
— Isso nã-
— Mas também não tenho nada me segurando — Eiro interrompeu. O Dragão olhou para ele por alguns segundos, confuso, sem ter certeza do que ele tentava dizer, mas, de repente, ele entendeu.
— Você acha que, como é uma criação artificial, não é limitado por tais coisas como ‘talentos’ ou ‘limites’?
De imediato, Eiro acenou a cabeça.
— Exato. Nenhuma das minhas habilidades sobe de nível mais rápido ou mais devagar do que as outras e, se sobem, é por causa da raridade e não por causa de talentos. Quando eu faço testes de talento para as magias, eles só mostram a ‘afinidade’ com elementos que já absorvi de alguma forma. Não mostra a possibilidade de outros elementos, mas, com muita facilidade, consigo ganhar qualquer elemento que eu queira, contanto que tenha acesso a uma forma pura da magia em questão. Também não possuo nenhum talento para ramos específicos da magia.
— … Isso não seria possível, criança. Se eu compreendi direito, sua criação é similar à criação dos espíritos, não é? Criar algo sem talentos ou limites é impossível para o próprio Planeta, então como o Rei dos Monstros conseguiria?
Eiro olhou para o lado, olhando para Nelli, que acenou a cabeça em resposta. Lognir era um ser antigo e estava conectado à Verdade, ao mesmo tempo que possuía um conhecimento insano sobre muitas coisas das quais Eiro nunca ouviu falar.
Talvez… Lognir soubesse sobre isso.
Olhou nos olhos do Dragão e respirou fundo.
— Você já ouviu falar de… alguém que ganha Pontos de Atributos toda vez que sobe de nível e que pode os distribuir livremente? — Eiro questionou. De imediato, Lognir arregalou os olhos, confuso com o que o Demônio insinuava.
— Isso… Isso não é possível… — Lognir murmurou baixinho enquanto dava um passo para trás, confuso. — O que você é?
Eiro o encarou de volta, tão confuso quanto ele estava. Ele não achava que tal pergunta causaria um choque tão grande… Claro, isso não era nada normal, Eiro sabia disso, mas era algo para se preocupar tanto? E não era como se Lognir estivesse apenas surpreso com a possibilidade, mas sim… com medo de Eiro. Ou, pelo menos, estava ansioso. Muito ansioso.
Porém, alguns instantes depois, Lognir se acalmou.
— Não, isso não é possível… Eiro, tem certeza de que compreende as implicações do que acabou de me dizer?
— É claro que não, foi por isso que perguntei. Parecia ser algo natural para mim durante a maior parte da minha vida, até que Nelli me disse que era algo nada natural. Embora você pareça saber algo sobre isso.
— … De fato, mas, primeiro, poderia me mostrar como essa… habilidade funciona?
Eiro assentiu enquanto retirava um caderno de sua tesouraria junto de uma caneta, esboçando como seu status parecia.
— O resto do seu status é normal, mas essa linha abaixo dos seus atributos não é. Como você ‘distribui’ esses atributos?
Eiro olhou para a folha de papel e explicou:
— Eu simples penso no atributo que quero dar um ponto, então ele é adicionado. Simples assim.
— Você pode escolher qualquer atributo que desejar? — Lognir questionou com uma ligeira carranca, antes que o Diabrete assentisse de novo.
— Sim. Então… você sabe algo sobre isso?
— Eu sei sobre algo similar, pelo menos, mas ver como sua habilidade funciona ainda me faz pensar em algumas coisas. — O Dragão o encarou com uma carranca profunda, seus olhos branco-dourados brilhando por apenas um segundo.
Eiro viu uma notificação aparecer na frente dos olhos de Lognir. Ela dizia algo em uma linguagem que ele não conhecia, então não conseguiu lê-la, mas parecia bem importante, pelo menos a julgar pela reação de Lognir.
— Ah, então é isso… Isso explicaria, pelo menos até certo ponto. Veja, existem certos seres neste mundo com ‘papéis’ designados. Um deles deve existir em algum momento. Esses seres são, por exemplo, o Rei dos Monstros e o Herói. Existem outros também, menos conhecidos e certamente menos poderosos em certos momentos. Todos esses seres foram criados pela mesma ‘energia’ do universo. Essa energia se cristalizou no início deste mundo e se estilhaçou em pedaços em algum momento. Cada fragmento dessa energia possui um poder imenso. Alguns foram tomados por seres divinos e transformados em artefatos. Esses são chamados de ‘Cacos’. Então, outras partes foram fundidas com a alma de seres vivos e se tornaram o Sistema que todos nós vemos. Esses são chamados de ‘Fragmentos’. — Lognir explicou. — Então, há aqueles que detêm partes puras e poderosas dessa energia primordial. Esses são seres especiais. Essas partes são chamadas de ‘lascas’. Em algum ponto, essas lascas se reuniram em algum lugar, de uma forma ou de outra. Algumas se reuniram e se tornaram ‘Aglomerados’, que se tornaram parte do mundo. O Herói e o Rei dos Monstros são esses seres.
Eiro escutou Lognir, embora sentisse algo bastante sinistro se apoderar dele ao ouvir a palavra ‘Lasca’. Então, Lognir explicou o objetivo dessa ‘lição’.
— Aqueles que portam esses ‘Aglomerados’ dentro deles possuem a habilidade de controlar a distribuição dos ‘pontos de atributos’.