
Volume 4 - Capítulo 343
A Virtude do Demônio
Tendo acumulado uma pequena pilha de pedaços de papel, Eiro sorriu. Havia esquecido sobre este aspecto das memórias, ou pelo menos não parecia tão óbvio para ele até então. O Demônio já havia passado por alguns livros e ainda não havia terminado de reparar nenhum deles, mas sabia que conseguia repará-los, com exceção das partes em que páginas inteiras estavam faltando.
Depois de pegar todos os pedaços de cerca de uma dezena de livros, ao recriar as diferentes memórias dos livros em que estavam, Eiro se sentou em uma das mesas e continuou a adicionar as escritas dos pedaços nos livros que estava reescrevendo.
Desse modo, conseguiu terminar alguns livros, embora ainda houvesse partes faltando. A maioria das partes que foram arrancadas poderia ser preenchida, mas ainda havia algumas partes que Eiro não conseguiu recordar com perfeição. Parecia que faltava algo, embora estivesse no caminho certo.
Talvez Eiro tivesse que descobrir o que mais poderia envolver as memórias que poderia realizar ali, mas, por ora, conseguir todos os pedaços de papel só por recriar as cenas era o mais importante para ele. Sabia como conseguir as informações dessas partes e, com força, conseguiu recordar muitas das suas memórias por meio disso.
Todo esse processo envolveu ações específicas, muito mais do que Eiro antecipou. A princípio, antes mesmo que viesse até aqui, ele pensou que o problema poderia ser resolvido por meio de algumas meditações e técnicas de respiração específicas, mas isso não era o caso.
Era um pensamento ingênuo, embora não parecesse tão absurdo quando olhava para o conhecimento que tinha na época. De qualquer modo, por agora sabia o que tinha que fazer se acabasse esquecendo algo. Tinha que olhar para dentro de si e recuperar as memórias. Agora que sabia disso, Eiro conseguiria fazer isso mesmo quando não estivesse nesta caverna com Lognir.
Eiro continuou seu trabalho e, logo, sentiu um pouco de exaustão o afetar. Uma exaustão que era acompanhada por náusea, um sinal de que tinha que fazer uma pausa.
Abriu os olhos e se encontrou na grande sala do sistema de cavernas em que se encontrava, onde passava a maioria do seu tempo praticando. Eiro se levantou e esticou seu corpo tenso enquanto Lognir o encarava com curiosidade.
— Você não terminou ainda, terminou?
— Claro que não. Vai levar muito mais tempo… Neste ritmo, deve estar concluído… Amanhã de noite, talvez? — Eiro comentou e Lognir o encarou de volta com uma expressão impressionada.
— Interessante. Isso deveria demorar muito mais para outros, muitos mais aptos do que você. Então, parece que você deseja fazer uma pausa?
— Uhum. Pelo menos por ora. É mentalmente cansativo. — O Diabrete explicou e o Dragão em sua forma humana sorriu em silêncio por alguns segundos, como se trabalhasse em uma ideia interessante.
Eiro respirou fundo e esperou pela ideia Lognir estava para sugerir.
— Que tal você tentar o próximo passo, então? É algo que não recomendaria ainda, ou talvez nem recomende, mas considerando quão bem você tem se saído até agora… Talvez não tenha problema. — O Dragão apontou e Eiro olhou para ele bastante curioso. — Até agora o que eu ensinei foi a manipulação de suas habilidades. Outra coisa que requer a capacidade de manipular suas habilidades é a combinação de habilidades. Seja magia, habilidades ou habilidades passivas. Com um pouco de treinamento, você deve ser capaz de-
— Oh, eu fiz isso antes — Eiro respondeu sem rodeios e o corpo de Lognir congelou.
— Como é que é? O que você quer dizer?
— Bem, não é a mesma coisa que esteja falando, mas é algo parecido. Veja, eu consegui usar uma Pedra Mágica de Fogo e algo que funciona da mesma forma que uma Pedra Mágica de Gelo para criar algum tipo de ‘Chamas Congelantes’. Não foi algo que veio das minhas próprias habilidades, eu suponho, mas o conceito não é desconhecido para mim. — Depois desta rápida explicação que Eiro forneceu, o Dragão estalou a língua.
— E eu aqui esperando que conseguiria te deixar um pouco animado, mas, tudo bem. Pelo menos isso facilitará. De qualquer forma, vamos lá, vamos tentar com o seu Cinco de Ouros de novo.
— …Certo, com o que eu deveria tentar combiná-lo? — Eiro perguntou e Lognir o encarou de volta confuso.
— O que você quer dizer? Combine-o consigo mesmo, claro. — O Dragão disse como se fosse óbvio.
Eiro o encarou de volta e estava para perguntar o que isso significava, mas percebeu sozinho. Ele deveria combinar um aspecto da habilidade com outra parte dela.
Então, neste caso, isso significaria ligar um sentido a outro.
Euro fechou os olhos e olhou para o Homúnculo Sensorial em sua mente.
‘Como ele pareceria se combinasse alguns dos seus sentidos?’ O Demônio pensou por um tempo, até que chegou a uma ideia relativa simples. Tudo o que tinha que fazer era fundir as partes representativas.
Primeiro, Eiro fundiu as orelhas com os olhos. Os olhos eram grandes e esbugalhados de qualquer forma, então mover as orelhas um pouco para frente e adicionar a base delas na lateral do branco dos olhos não era tão difícil de se fazer.
Mas, ao fazer isso, sentiu esses sentidos fundidos; ele conseguia sentir algo se acender dentro de sua cabeça, como se uma nova conexão, anteriormente inexistente, tivesse sido estabelecida.
Assim que abriu os olhos, ficou surpreso com o que viu. Cores estavam se movendo pela sua visão e na hora soube ao que elas correspondiam. O chilrear dos pássaros lá fora era uma cor e o som de Armodeus trabalhando em outra parte da caverna era uma cor diferente, que parecia percorrer a sala em ondas.
Eiro também conseguia escutar os batimentos de Lognir; era como se ondas de tinta estivessem sendo expelidas para fora do centro do peito do Dragão, batida por batida.
Eiro removeu a audição da sua visão e, em vez disso, adicionou o olfato. Agora, nuvens suaves flutuavam ao redor do ar, também com cores específicas atreladas a elas. Isso era… No mínimo, interessante de se dizer, mas não apenas isso, era como se Eiro conseguisse sentir certos cheiros quando olhasse para certas partes da caverna. Quando via algo, registrava um cheiro, mas não aquele que o objeto de fato possuía. Era meio que… estranho. Ele sabia o que o cheiro deveria ser, mas era estranho se comparado ao normal.
Incapaz de se acostumar de verdade com isso, o Demônio removeu o olfato e adicionou o sabor à sua visão. Agora, sempre que Eiro olhava para Lognir, sentia como se pudesse sentir o sabor dele.
Eiro não era capaz de sentir o gosto dele de verdade, era mais como se Eiro fosse capaz de sentir o gosto que a personalidade de Lognir tinha.
Bem, de qualquer forma, essa era uma experiência diferente de tudo que Eiro viu antes. Claro, ele criou algumas visualizações próprias para os diferentes sons e odores que poderia usar quando conseguisse procurar pelas coisas em larga escala.
Mas, se combinasse a capacidade de analisar essas visualizações que já havia treinado há algum tempo com essa habilidade de combinar seus próprios sentidos, isso ajudaria Eiro a vivenciar certas coisas que nunca pensou que vivenciaria dessa forma.
O Diabrete olhou de volta para Lognir depois de recompor seus sentidos, retornando-os a como ele deveria ser.
— Isso é muito interessante, para se dizer o mínimo.
— … Certo, é claro que você conseguiu instantaneamente. — Lognir suspirou. — Bem, imaginei que combinar os seus sentidos dessa forma seria uma boa representação para começar. Outros benefícios podem não ser tão óbvios como esses, mas devem ser mais fáceis de compreender a partir de agora.
— Certa, sim. Agora… Devo tentar combinar outras habilidades com elas mesmas, ou devo combinar certas habilidades entre si?
— O primeiro. Tente encontrar algumas formas únicas de fazer isso, se conseguir. Algumas vezes é óbvio, outras vezes não. Também deve haver múltiplas formas de combinar diferentes aspectos das habilidades, então tente experimentar. — Lognir explicou. De alguma forma, isso soou estranho, como algo que deveria ser relaxante para Eiro.
De qualquer modo, isso foi o que o Diabrete fez a seguir. Ele tentou combinar outras habilidades com elas mesmas. Por exemplo, foi capaz de aumentar a espessura da sua habilidade Pele de Pedra vendo uma parte do seu corpo que já estava coberta de pedra, como a ‘Base’, permitindo-se ativar a habilidade mais uma vez.
Isso tornou essa parte do seu corpo muito mais pesada e difícil de se mover, então seria complicado usar isso a longo prazo, mas poderia ser bom para uma defesa instantânea quando soubesse que um ataque que não poderia desviar estava vindo.
Além disso, a maioria das formas como Eiro poderia combinar suas habilidades com elas mesmas era mínima e o custo superava o benefício, ou custava muito mais mana, ou requeria bem mais concentração, ou seria um desperdício de tempo se comparado ao benefício mínimo que recebia.
Em situações muito, muito, muito específicas, esses benefícios poderiam ser úteis e Eiro não se importaria com o custo, mas, na maioria das vezes, não valeria a pena fazer uso dessas combinações.
Então, havia habilidades em que Eiro não conseguia descobrir nada que combinasse ou sobrepusesse de alguma forma, embora parecesse haver um jeito. Eiro poderia descobrir isso de alguma forma em algum momento, mas agora parecia muito trabalhoso para ele.
Logo, Eiro percebeu algo mais, entretanto.
‘E se tentasse combinar minha <Memória de um Escolar> consigo mesma de alguma forma? Seria capaz de me recordar de certas coisas com mais facilidade? Conseguiria encontrar os pedaços e papéis que faltavam.’
Bem, tinha que tentar, pelo menos.