A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 342

A Virtude do Demônio

Eiro ficou na caverna e cortou os corpos dos javalis em diferentes partes, retirando a carne dos ossos para que pudesse prepará-la, embora algumas partes fossem melhores quando ainda estava presas ao osso.

Quando se tratava dos cortes que deveriam ir para as crianças, entretanto, Eiro se certificou de remover todos os ossos. Claro, elas provavelmente conseguiam esmagar os ossos em pedaços, mas deveria ser mais agradável dessa forma

Eiro organizou os ossos que não precisaria por agora, esperando que encontrasse outros usos para eles mais tarde. Em especial as presas poderiam ser algo que Armodeus ficaria feliz. Ele não as integraria em qualquer um dos itens que estivesse criando no momento, desde que eram de qualidade inferior aos materiais que estava utilizando, mas ainda deveria conseguir fazer algumas ferramentas legais usando as presas dos javalis.

De qualquer forma, depois de cortar os javalis em pedaços certos, Eiro tentou começar a cozinhá-los. Tinha tudo o que precisava para isso na carruagem, mas o principal que queria eram as grandes barras de metal que Armodeus trouxe como matéria-prima. O Anão poderia derretê-las para utilizá-las em certos itens.

Mas, neste momento, Eiro manipulou o chão de pedra e criou um buraco no chão, onde colocou essas barras, fixando-as com magia de terra. Através das maiores lacunas que deixou abertas por hora, colocou alguma madeira e acendeu o fogo. Ele fez as chamas diminuírem um pouco para que não queimassem a carne.

Assim que terminou com isso, fixou o resto das barras de metal e começou a grelhar carne para todos. Felizmente já tinham bastante sal e Eiro encontrou algumas ervas diferentes na floresta que deveriam combinar com essa carne.

O cheiro da carne grelhada preencheu a caverna e Eiro escutou uma figura pesada se aproximando dele. Ela era a única que estava acordada e Eiro ainda não teve a chance de ter uma conversa privada com ela.

O Dragão do Caos, Krista. Em sua forma dracônica, uma que parecia mudar sempre que Eiro piscava, ela se aproximou do Demônio.

— Oh, você está preparando comida para nós? — Ela perguntou baixinho.

A voz dela também era estranha de escutar, desde que Eiro não tinha certeza de que tipo de voz era. Era difícil de compreender ao considerar a natureza caótica de Krista. Ela soava madura e gentil, ou jovem e viciosa ao mesmo tempo, mas, por enquanto, Eiro tentou ignorar isso e olhou para Krista com um sorriso.

— Lognir está me ajudando bastante e até permitiu que Armodeus fizesse alguns itens usando suas escamas. Pensei que deveria fazer algo pelo menos útil. — Eiro explicou e Krista riu baixinho, como se soubesse algo que Eiro não sabia. Embora, isso poderia ser um efeito da sua natureza aleatória. De qualquer modo, o Dragão do Caos olhou para ele com seus grandes olhos brilhantes, que se tornaram opacos e mortos quando o Diabrete piscou e falou.

— Isso é bastante gentil da sua parte, criança, mas devo dizer, estou surpresa que tenha conseguido descobrir nosso prato favorito.

— Não foi tão difícil descobrir, para ser sincero. Há várias coisas aqui que apontam para isso. — Eiro explicou. — De qualquer maneira, isso não é importante agora… Você possui alguma parte que gosta em particular? Normalmente eu tentaria adivinhar, mas receio que seja impossível.

— Tem certeza disso? — Krista perguntou e Eiro olhou de volta para ela um pouco surpreso.

— O que você quer dizer…?

O Dragão moveu ligeira o peso do seu corpo enquanto se sentava na frente de Eiro.

— Embora eu seja o próprio caos, é real tão difícil entender esse caos e ver a verdade por trás dele? Foi possível paro meu querido Lognir. Foi isso que fez eu me apaixonar por ele em primeiro lugar, sabia?

‘Ver através do Caos…? Isso é possível?’

Eiro pensou em tudo que conseguia em suas memórias, em tudo que se lembrava de Krista. Sobre como ela agia e sobre como ela se portava em diferentes ‘versões’ de si.

A forma como ela interagia com suas crianças e o quanto ela os amava. Isso o fez perceber… Embora ela fosse um ser caótico desde o início, em grande maioria, as formas como ela interagia não eram aleatórias. Através do mundo ao redor dela, era possível analisar sua natureza caótica e ver um pouco da verdadeira forma por trás dela.

Especialmente quando pensou nos ossos que viu para descobrir qual era a besta favorita dos Dragões.

— … As pernas, talvez? — Eiro sugeriu com um sorriso irônico. Era difícil para ele perceber esse fato a princípio, mas parecia que certos ossos mudavam de posição algumas vezes, como se estivessem se movendo, mas, na verdade, era o efeito da natureza caótica de Krista os afetando.

De qualquer forma, os ossos em que conseguia observar isso eram, em sua maioria, as pernas.

Com um sorriso amplo, ou pelo menos o que Eiro pensou ser um sorriso, Krista respondeu.

— Com certeza, criança. — Ela respondeu e o Diabrete levantou as sobrancelhas um pouco surpreso, ainda mais quando ouviu as próximas palavras do Dragão. — Interessante… Talvez eu deva de mostrar um truque ou dois depois que terminar o treinamento do meu companheiro…

— … Como assim? — Eiro respondeu surpreso, sem esperar esse tipo de desenvolvimento e Krista sorriu suave.

— Os poderes da Verdade e da Ordem podem ser úteis para você, mas os poderes do Caos também. Fará sentido para você logo. Não explicarei mais até que Lognir reconheça que seu treinamento está encerrado.

Eiro olhou de volta para a Dragonesa com os olhos arregalados. Ele não tinha certeza do porquê, mas queria receber esse treinamento de Krista. Habilidades construídas através dos poderes do Caos? Como poderia dizer ‘não’ a isso?

O próximo grande oponente com que planejava lutar era <O Diabo>…. O ser conhecido por ser o maior conspirador de todos os tempos. Ter um pouco de caos dentro de suas ações não prejudicaria Eiro na luta contra qualquer plano que esse Monstro tenha planejado.

Eiro sorriu enquanto continuava cozinhando comida para Krista e Lognir acordou, seguido pelos Dragões recém-nascidos.

Também não demorou muito para que Armodeus acordasse e enquanto todos comiam a carne, Eiro preparou um pouco de comida para os cavalos e Lugo. Eles não podiam comer a carne, então Eiro reuniu algumas plantas e ervas diferentes que pensou serem boas para eles.

Depois de comer, Armodeus voltou para os itens enquanto Krista continuava cuidando das crianças. Lognir e Eiro continuaram praticando.

Ele olhou para entro de si e continuou o trabalho de onde havia parado noite passada, anotando tudo o que conseguia dos livros. Ele fez isso o dia e a noite todos e depois mais metade de um dia. Até que chegou ao ponto em que não havia mais nada que pudesse ser feito.

O Diabrete terminou de anotar tudo o que pôde, usando os poucos pedaços de papel que conseguiu encontrar dentro da Biblioteca em sua mente para preencher as lacunas. Felizmente conseguiu completar algumas memórias úteis, confirmando que isso o ajudava a se lembrar do que perdeu.

Mas então, ele não conseguia continuar. Não havia mais pedaços de papel sobrando.

Ao ver o Demônio lutando assim, Lognir escolheu dar mais uma dica para Eiro. Uma silenciosa. Ele jogou uma rocha em Eiro.

O Diabrete percebeu a pedra sendo arremessada nele de uma forma tão direta e, instintivamente, conseguiu segurá-la sem pensar muito.

Ele olhou para Lognir, confuso e raciocinou por alguns momentos até que o Demônio percebesse o que o Dragão estava tentando dizer.

— Memórias nem sempre são feitas do tipo mental, hein? — Eiro questionou, em resposta ao que Lognir simples continuou a sorrir em silêncio. Eiro se sentia burro sempre que o Dragão apontava essas coisas tão óbvias.

Eiro não podia se concentrar no conhecimento bruto. Muitas das memórias que foram perdidas eram aquelas em que aprendia a esculpir madeira, ou quando lutava contra bestas, monstros ou outros oponentes.

Memória muscular também era algo muito importante. Então, como ele deveria mostrar isso dentro da sua Biblioteca?

Era simples. Havia um grande espaço vazio no centro da Biblioteca que apareceu ali, sem Eiro cria-lo. Era uma parte natural desse espaço, talvez porque seu subconsciente já sabia que isso era algo que tinha que fazer em algum momento.

O Demônio segurou um dos livros que parecia se encaixar ao considerar as partes que estava faltando e abriu na primeira página. Assim, Eiro começou a agir conforme o que estava escrito nesta página.

Normalmente conseguiria mergulhar nas memórias para experiências adequadas, mas, neste caso, não conseguiu. Afinal, as memórias não estavam lá o tempo todo. Então, Eiro tinha que agir assim para que pudesse mergulhar nelas e representá-las com a maior precisão possível.

Logo, parecia como se o livro estivesse o guiando e ele começou a fazer coisas que não estavam escritas neles. Pequenos tiques que Eiro tinha às vezes, como bater a perna quando estava nervoso, ou estalar os dedos da mão quando esperava que algo acontecesse.

Essas eram coisas que Eiro não registrava ativamente, já que não era importantes o suficiente para serem anotadas no livro, mas ainda eram parte desta memória em particular. Logo Eiro chegou à primeira parte que havia sido rasgada. Foi como se Eiro congelasse ali por um momento. Ele continuou parado, até que não mais. Como se em câmera lenta, seu corpo começou a se mover da maneira que precisava para aquela memória.

E quando concluiu isso, um pedaço de papel caiu do teto.

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