A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 341

A Virtude do Demônio

Eiro preenchia as lacunas dos vários livros que tentava reparar, ou melhor, reescrever, com o objetivo de recordar o que eles ofereciam. Quanto mais fazia isso, mais próximas as memórias pareciam se tornar, mas ainda estavam fora do alcance dele.

O Demônio imaginou que só conseguiria recordar uma memória depois de reescrever um livro por completo e se conectar a ele. O problema com isso era que Eiro era incapaz de compreender qualquer um dos livros que estavam à sua frente.

Ele poderia ser capaz de adivinhar o que aconteceu e preencher as lacunas ao concluir o que aconteceria no texto a seguir, mas, por algum motivo, pensou que essa seria uma má ideia. Como se não fosse isso o que deveria fazer com esses livros.

Continuou caminhando pela biblioteca por um tempo, tentando encontrar mais pedaços para terminar de recuperar pelo menos algumas memórias, mas sem sucesso. Eiro se sentou e se inclinou contra a parede com um suspiro profundo. O cansaço estava consumindo seu corpo, embora Eiro não ficasse exausto por um tempo.

Depois de abrir os olhos de novo e ver que ainda estava na caverna, Eiro se levantou do chão, cambaleando e exausto.

— Calma, criança. Fadiga mental é algo para se ter cuidado. — Lognir avisou Eiro, que olhou para ele com um aceno. Ele estava certo. O Diabrete tinha que se cuidar. Bem, pelo menos sua habilidade Resistência à Exaustão subiu de nível uma vez, o que foi muito bom.

Mas, ao ver o quão cansado estava se sentindo, mesmo com a existência dessa habilidade, significava que seu corpo estava próximo de simples apagar. Ele passou por muitas coisas difíceis e não parava de pensar nelas. Portanto, fazia sentido que Eiro se sentisse cansado assim de vez em quando.

O Demônio foi até outra parte da caverna junto de Lognir, agora que a prática de hoje estava encerrada, aproximando-se de Lugo. Ele caiu para frente e enterrou sua face no pelo do cervo, que soltou um berro alto.

— Só me deixe ficar assim por um tempo, certo? Estou cansado… — Eiro disse enquanto soltava um suspiro profundo que aqueceu o pelo de Lugo na área ao redor de onde seu rosto pressionava. Depois de soltar um bufo alto, Lugo ainda se afastou um pouco, mas, em vez de tentar se afastar do Diabrete quando ele estava assim, o Cervo se deitou no chão e pegou Eiro quando ele tropeçou e caiu, pronto para adormecer a qualquer momento.

Eiro resmungou baixinho enquanto virava seu corpo para poder se apoiar contra Lugo e fechou os olhos enquanto adormecia.

Enquanto dormia, Eiro começou a sonhar.

Ele conseguia se recordar de todos os sonhos que teve, quase como se fossem partes do dia repassando pela sua mente repetidas vezes. Os detalhes seriam diferentes, claro. Por exemplo, ele poderia ser duas vezes mais alto que o normal, ou as coisas que carregava com ele eram de uma cor diferente.

Raramente tudo era igual à realidade, embora Eiro ainda fosse incapaz de perceber que estava em um sonho, mas agora foi diferente.

Tudo era igual a como ele se recordava. Era assustadoramente parecido, pelo menos no momento. Talvez essa percepção e essa sutil sensação sinistra foram o que fez Eiro perceber que estava em um sonho.

Eiro se levantou no meio da caverna, com tudo congelado, como se o tempo tivesse parado. Parecia que esta lembrança vinha do meio de uma breve conversa que teve com Lognir hoje. Enquanto o Demônio movia suas mãos, era como se seu corpo estivesse mudando por meio do ar em vez de se movendo de verdade, deixando alguma forma de névoa estranha enquanto fazia isso.

‘Isto é um sonho lúcido? Por que experienciaria isso agora, de todos os momentos? Talvez porque vivi na Biblioteca em minha mente de uma forma muito semelhante a como um Sonho Lúcido é…? ‘

Mas, se esse fosse o caso, então Eiro deveria ser capaz de fazer o que quisesse. Com um aceno de sua mão, o Demônio descobriu que a caverna ao redor havia mudado. O chão foi substituído por madeira e as paredes se tornaram prateleiras de livro. Lognir desapareceu e Eiro estava mais uma vez de volta na biblioteca.

Era a mesma que esteve visitando o dia todo.

‘Então, posso me concentrar durante meu sono, hein…?’ Eiro pensou. Ele não tinha certeza se era capaz de sorrir agora, mas, se conseguisse, então sorriu. Ele atravessou o cômodo enquanto o lugar se tornava cada vez mais real a cada segundo, deixando de parecer um sonho e, em vez disso, sendo mais como a realidade. Assim como vivenciou o dia todo.

Os livros estavam no mesmo estado que Eiro os deixou e tinha os mesmos pedaços de papel em que estava trabalhando antes.

Com um sorriso na face, Eiro caminhou pela sala, percebendo o que isso significava. Antes, era incapaz de fazer sua mente se mover mais rápido, ou talvez pudesse ter conseguido descobrir tudo em um dia, mas, agora que estava sonhando, tudo era diferente.

 Um sonho que parecia se estender por milhares de anos podia levar apenas uma fração de segundos. Agora que Eiro estava ciente do que estava acontecendo, esse efeito não aconteceria no mesmo nível de intensidade, mas ele ainda deveria ser capaz de trabalhar por um período muito maior do que o que de fato dormiu. Com sorte, ainda conseguiria se recuperar da sua exaustão devido ao sono.

Eiro continuou procurando no espaço por mais pedaços de papel, embora tenha sido incapaz de encontrar mais do que encontrou hoje. Talvez estivessem escondidos em outros lugares além de embaixo das tábuas do chão.

De qualquer modo, talvez o que Eiro devesse tentar fazer agora era a ‘parte fácil’, que era transcrever todos os livros de memórias que não se recordava tão bem. E foi isso o que fez. Durante toda a noite, em seus sonhos, ele continuou transcrevendo as memórias dos livros sujos e “quebrados” em novos. Ainda assim, foi incapaz de completar qualquer um deles porque faltavam algumas partes, mas, independentemente disso, fez um bom progresso.

Quando acordou, embora ainda estivesse um pouco mais cansado do que deveria quando foi dormir, Eiro estava bem-descansado.

Ele se levantou e se esticou, escutando seus ossos estalando por causa da rigidez durante o sono. Não era um barulho agradável, mas era uma sensação satisfatória sentir seu corpo rígido se soltar.

— Certo então… — Eiro murmurou enquanto olhava ao redor. Os outros pareciam estar dormindo. Eiro foi dormir muito cedo, então também acordou muito cedo. O amanhecer não estava nem próximo, mas ele já estava acordado.

Eiro respirou fundo enquanto pensava que deveria fazer algo bom para os outros. Ele sabia o que eles comiam, então escolheu sair e caçar por um tempo, conseguindo comida para todos.

Eles eram dragões, então comiam bastante e escolheram esta localização levando isso em consideração. Havia muitas bestas selvagens ao redor, assim como bestas monstruosas de tamanho considerável. A julgar pelos ossos que estavam espalhados ao redor da ‘sala do lixo’ desta caverna, eles gostavam de um certo monstro que derivava dos javalis de alguma forma.

Era algumas vezes maior do que um javali normal, entretanto possuía uma pele grossa, se Eiro se lembrava. Suas presas eram um material popular para aventureiros decorarem suas armaduras ou armas, então as via com frequência.

Sem mencionar que o cheiro deles também era forte, então era bastante fácil para Eiro encontrá-los. O único que estava acordado no momento, além dele, era Bavet, que não precisava dormir muito em primeiro lugar e Eiro o informou que retornaria em breve com algo para comer, para que o Slime pudesse passar a mensagem para os outros se acordassem enquanto ele estivesse fora.

O Demônio saiu da caverna e esticou suas asas, pulando da borda do penhasco na frente dele. A primeira coisa que tinha que fazer era encontrar os monstros javalis em questão. Eles deveriam vagar por ali em grande quantidade, se não se recordou errado. Ele viu um grupo todo deles no caminho para cá e a cidade no pé da montanha vendia muitas coisas que eram feitas com os materiais desses monstros.

Não demorou muito para que Eiro conseguisse colocar seus olhos em um bom espécime. Gordo e forre, maior do que a maioria dos outros. Parecia que comeriam o ‘líder’ do grupo.

Com um sorriso, parou de bater suas asas e caiu, reunindo e comprimindo ar na palma enquanto caía. Assim que Eiro estava para atingir o chão, ele empurrou a bala de ar na cabeça do javali para matá-lo de forma limpa enquanto abria suas asas para parar sua queda.

O grande javali caiu no chão e pedaços de rocha voaram devido à pressão do vento criado pela parada repentina de Eiro. O Diabrete acenou com a mão e disparou esses pedaços de rocha na testa dos outros javalis que estavam reunidos, assegurando quatro javalis que acabariam sendo uma boa refeição para alguns Dragões, um Demônio faminto, um Slime e um Anão Ancião.

Assim, a primeira coisa que Eiro fez foi retirar uma pequena pedra que tinha em sua tesouraria para tornar o processo mais fácil. Era a Pedra Mágica de Gravidade, tornaria os cadáveres dos javalis muito mais leves para que conseguisse carregá-los por todo o caminho. Eiro utilizou Magia de Natureza e raízes para segurá-los, como se estivesse usando uma corda, antes de pular no ar e puxar estes montes de carne até o pico da montanha.

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