
Volume 4 - Capítulo 340
A Virtude do Demônio
O que era a mais fácil, simples e básica representação de ‘Conhecimento’ que vinha à ? Para Eiro, era um livro.
Livros eram coleções de conhecimento, aquilo que o levava para outros e aquilo que o levou a Eiro no passado e continuará a fazer no futuro. Então, todo o conhecimento de Eiro poderia ser reunido em um único livro em sua mente para representar a habilidade <Memória de um Estudioso>.
As memórias que faltavam eram as páginas que estavam rasgadas ou sujas, de modo que não era mais capaz de adquirir informações da página, mas, não importava o que Eiro tentava, ele não conseguia usar esse livro da maneira correta.
Ele o abriu e não conseguiu conectá-lo às suas memórias. Ele conseguiu ler algumas coisas dentro dele, claro, mas eram informações que ele ‘escreveu’ por conta própria. Eiro deveria preencher todas as informações ao conectar essa habilidade com sua imagem mental. Entretanto, era mais como se ele estivesse tentando fazer parecer assim. As ‘memórias quebradas’ que eram mostradas na forma de páginas rasgadas ou sujas estavam espalhadas no livro, em vez de estarem representadas na vida do Demônio.
Mas talvez esse fosse o problema? Toda a vida de Eiro era capaz de caber em um livro? Claro, ele tinha um Grimório que era infinito, mas isso não era algo que livros normais eram capazes de fazer.
Nenhum livro normal poderia explicar cada pequeno detalhe e informação que Eiro viu e absorveu durante toda sua vida, especialmente ao considerar a profundidade de informações que experiência desde que se tornou o Portador do Cinco de Ouros.
O Demônio encarou o livro, tentando ver o que aconteceria se escolhesse fazer vários livros. Talvez um livro por ano? Embora o livro do ano passado seria muito mais grosso do que os outros. Não porque a percepção de Eiro aumentou muito, mas porque ele experienciou e aprendeu muitas coisas novas.
Então, talvez pudesse separá-los por categoria? Ele poderia pegar os livros que leu no passado; essa era uma parte definitiva da sua memória e guardá-los. Então, talvez pudesse guardar memórias episódicas, memórias de coisas que aconteceram e transformá-las em coisas como… Diários? Ou ‘novelas’, talvez. Dividindo-as em pacotes menores.
Então, todo o conhecimento direto de Eiro, a informação bruta que conhecia e assimilava, talvez também pudesse ser separada, mas se fizesse isso… Então, não criaria uma biblioteca inteira? Claro, era mais complexo do que um simples livro, algo muito complicado. Bibliotecas também eram coisas simples. Todas as informações ficariam organizadas e poderia conter muito mais informação do que um livro.
Ele poderia adicionar os grimórios, bestiários e centenas de livros comuns que leu aí. As partes das suas memórias que estavam faltando poderiam ser representadas como livros quase quebrados, ou simples lacunas nas prateleiras que, antes, estavam todas preenchidas. Parecia que isso seria uma representação melhor do que um livro, mesmo que fosse muito mais complexa.
Talvez fosse isso que Lognir quis dizer quando afirmou que ele deveria criar uma imagem que fosse ‘Simples’ e não ‘Fácil’. Seria mais fácil ter um livro, tendo tudo compilado em um objeto, mas talvez fosse mais simples, embora não mais fácil, ter um espaço amplo.
Organizar um livro como aquele levaria muito mais tempo do que percorrer uma biblioteca com centenas de livros bem-organizados, de acordo com temas e tópicos, que pudesse explorar. O Demônio imaginou que essa era a melhor imagem que poderia escolher e, de qualquer forma, sentiu-se mais conectado a ela.
Ele se sentia calmo e sereno sempre que estavam em bibliotecas, que era o que precisava para esse tipo de coisa.
Eiro viu a si mesmo parado nessa biblioteca. Ele olhou ao redor, como se organizasse os livros neste espaço. Ele percorreu suas memórias de pouco em pouco e as transformou em livros na frente dele. Sempre que um livro era concluído, era colocado na área certa.
Era mais fácil conectar essa biblioteca com sua habilidade do que quando a imagem que escolheu era simples livro. Eiro olhou ao redor e inspecionou as diferentes partes desse espaço. Sem ter que organizar as coisas agora, os livros estavam aparecendo no ar e se organizavam nas prateleiras certas.
Eles se moveram e logo se tornou aparente quais eram os que continham suas memórias quebradas ou faltantes. Comparados aos livros de alta qualidade, limpos e arrumados que se viam em todo o lugar, aqueles eram livros jogados nas ruas e pisoteados por vários anos. Era como se fossem uma casca do que eram antes.
Logo, nada mais aconteceu. Havia um único livro em cima de um pedestal, com o texto sendo escrito. Era o livro do que estava acontecendo com Eiro agora. Seus pensamentos e emoções estavam sendo anotados ali, mas, fora isso, mais nada aconteceu. Esta biblioteca estava ‘concluída’ por hora, todas as suas memórias estavam categorizadas adequada.
Eiro caminhou até uma dessas prateleiras e retirou um livro aleatório. Era um sobre uma das viagens à cidade próxima de onde costumava viver para conseguir alguns suprimentos. Ele o abriu e olhou para as páginas. Enquanto lia, ficou imerso no momento e conseguiu ver a memória como a veria normalmente. Assim que a memória acabou, Eiro fechou o livro em suas mãos e o colocou de volta na prateleira.
— Então, isso funciona… — O Demônio murmurou, sorrindo enquanto continuava caminhando pela biblioteca para procurar um dos livros quebrados. Logo, encontrou um. Parecia que seria desconfortável segurá-lo em mãos, como se todo seu corpo o rejeitasse quando colocou as mãos na lateral do livro para retirá-lo da prateleira.
Quando o abriu, havia algumas letras ali, mas estavam cobertas por uma confusão de palavras, impossibilitando que Eiro as lesse ou as decifrasse. Algumas outras páginas estavam rasgadas ou desaparecidas… Isso parecia muito com as memórias de Eiro.
Havia algumas que ele não tinha acesso e outras que meio que estavam ali, mas, não importa o quanto tentasse se recordar delas, era como se houvesse uma parede na sua frente, por meio da qual as vivenciava.
Eiro respirou fundo e segurou o livro, levando-o até uma das mesas que fez como parte desta biblioteca, desde que ela tinha que ser realista e se sentou ali. Ele se imaginou segurando uma caneta e com um segundo livro, vazio, à sua frente.
Eiro estreitou os olhos e olhou para a primeira página. Era difícil de ver tudo, mas conseguiu remover algumas camadas sobre as letras em sua mente para decifrar o que estava escrito. Usando isso, ele poderia reescrever o livro desta memória específica. Este livro era uma causa perdida quando se tratava de repará-lo. Isso não seria possível, mas, em vez disso, reescrevê-lo deveria ser algo possível, então tentou.
Enquanto fazia isso, reescrevendo as partes do livro que ainda lhe restavam para ler, se lembrou das coisas que havia esquecido. As ‘paredes’ em sua memória estavam desaparecendo. Era a memória da noite que passou sendo ensinado por Jura. Era uma memória preciosa, das quais havia centenas que eram iguais, mas, independentemente disso, era importante.
O Diabrete continuou anotando tudo que conseguia decifrar neste livro, até que restaram as partes ausentes.
— … O que eu deveria fazer com isso…? — Eiro murmurou alto e Lognir olhou para ele com um sorriso curioso.
— Está tudo bem? — Ele perguntou.
Eiro abriu os olhos e assentiu.
— Sim… está funcionando devagar — Eiro comentou. Então, explicou a imagem que escolheu e que, por ora, parecia estar funcionando muito bem, com exceção dos pedaços faltantes.
— Bem, eles devem estar em algum lugar dentro desta biblioteca. Parece que você já ouviu isso antes, mas o que um dia esteve lá nunca pode ser perdido para sempre. Ficará escondido ou em outro lugar, mas ainda pode desaparecer sem retornar de uma forma ou de outra. — Lognir explicou e Eiro olhou para o chão em contemplação.
Então, o Dragão disse algo mais:
— Sabe por que Solomon o enviou para mim?
— … Por que você é o único que ele conhecia com essas habilidades? A… capacidade de manipular habilidades? — Eiro perguntou e o Dragão deu de ombros.
— Isso pode ser parte do motivo, claro, mas a razão principal é por causa da sua carta <Cavaleiro de Ouros>. O <Domínio Supremo da Verdade>. Eu tenho uma força similar dentro de mim. Com isso você conseguirá encontrar o que está faltando com relativa facilidade, se souber o que está fazendo, pelo menos. É por isso que ele lhe enviou aqui, para que eu possa ajudá-lo a encontrar a ‘verdadeira localização’ daquilo que perdeu. Ou deveria ser algo do tipo, eu presumo. Na verdade, Solomon não explicou muito para mim.
— A verdadeira localização… Então… Elas estão escondidas em minha mente… Onde você conseguiria esconder algo desse tipo em uma biblioteca…? — Eiro se questionou, antes que pensasse sobre uma coisa. Algo que parecia fazer algum sentido para ele.
— Entendi… — O Demônio murmurou. Ele voltou para a biblioteca e procurou ao redor, encontrando algo um pouco estranho. Uma das tábuas do chão tinha uma leve rachadura. Eiro se ajoelhou e a puxou, revelando pedaços de papel que haviam sido amassados e enfiados ali. Suas memórias perdidas. Sujas, o texto coberto de lama e nem perto de serem todas… mas algumas estavam aqui… e Eiro conseguiu utilizá-las para se lembrar de algumas coisas que esqueceu.