A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 337

A Virtude do Demônio

Eiro se sentou no chão, tentando se concentrar no que estava dentro dele. Ele estava praticando, tentando compreender como filtrar as Vibes que suas cartas criavam em sua aura, usando a Barreira de Aura como ferramenta para isso.

Ele estava recebendo dicas detalhadas de Lognir, já que o objetivo era aprimorar como esse tipo de coisa deveria funcionar, então parecia que o Dragão não se importava em se envolver dessa vez.

Então, um pouco depois, o Demônio entendeu. Bem, ‘pouco’ era relativo. Para Eiro, que normalmente era capaz de descobrir tais coisas na hora, pareceu uma eternidade, mas para Lognir foi um instante. O fato de que Lognir era uma criatura de vida longa, combinando com o fato de que Eiro havia conseguido terminar isso muito, muito mais rápido e com mais facilidade do que esperava, contribuiu para essa sensação que ele tinha.

— Você acha que isso funcionará? — Eiro perguntou com um murmúrio enquanto se levantava, tentando não se desconcentrar. Se funcionaria ou não, ele continuaria assim o máximo possível para descobrir.

— Acho que sinto uma leve ausência em comparação a antes, mas não sou um portador de carta, então mesmo que você filtre algo errado, eu sentiria que algo está diferente. Devemos perguntar para o Anão em vez disso? — Lognir sugeriu com um sorriso, referindo-se a Armodeus, que estava em outra parte da caverna, criando a armadura do Demônio feita com escamas de Lognir.

O Diabete acenou a cabeça e seguiu Lognir para fora da sala, entrando na que Armodeus estava assim que entraram. Eiro escutou-o com um grito alto.

— Ei, rapaz! Pensei que já tivesse lhe dito para não vir aqui enquanto estou trabalhando! É para ser uma surpresa!

— Eu, sei, eu sei, não estou tentando me concentrar nisso para que eu não fique com mais curiosidade… — Eiro respondeu sem rodeios. — Mas preciso da sua ajuda agora. Olhe para mim. Você sente algo diferente?

Armodeus estreitou os olhos e olhou para Eiro com um olhar confuso.

— Você está com um novo corte de cabelo?

— … — Eiro o encarou em silêncio e o Anão Ancião cruzou os braços enquanto dava uma olhada melhor no Demônio. Demorou um pouco, mas, em algum momento, ele percebeu o que estava acontecendo.

— Um pouco daquilo que você mencionou… Aquela Vibe da carta sumiu, não é?

Eiro olhou de volta um pouco desapontado.

— … um pouco?

— E-Eu disse algo errado? — O artesão perguntou preocupado, mas Eiro balançou a cabeça.

— Não, não, só estou irritado que não está funcionando.

— Bem, você está no caminho certo, não está? Melhor do que nada, certo?

— Acho que sim? — Eiro respondeu com uma carranca desapontada no rosto. — Acho que vou voltar a praticar…

E, quando Eiro estava para sair dessa parte da caverna, Armodeus fez uma sugestão, algo que o Diabrete nunca considerou. Nestes últimos tempos, suas habilidades cresceram tão rápido que era difícil descobrir as razões pelas quais ficou mais forte, mas, agora que o Anão Ancião mencionou isso, fazia um pouco de sentido.

— Você levou a sinergia em consideração?

Eiro virou a cabeça e olhou fundo nos olhos de Armodeus, percebendo que de fato ainda não havia considerado esse aspecto. Ele estava pensando sobre cada Vibe das cartas como entidades próprias, mas, no fim, todas funcionavam juntas. Eiro não sabia se elas ficavam mais potentes, mas faria sentido se fosse o caso. Armodeus mencionou que a Vibe de Eiro era muito mais forte, mesmo ao considerar as cartas que ele possuía.

Isso significava que Eiro só precisava descobrir o ponto certo, fortalecendo todas as Vibes juntas até que conseguisse se livrar completa da Vibe que ainda estava fluindo para fora do seu corpo, com o resto de sua aura! Se ele conseguisse entender isso, então isso seria mais do que útil. Por enquanto e para mais tarde, Eiro começaria a bloquear os efeitos de suas cartas, em vez de as vibes que elas criavam.

Ele fechou os olhos e começou a permitir que as energias fluíssem por ele, tentando mudar a configuração direta da barreira de Aura para levar mais em consideração esse tipo específico de sinergia. Lenta mas constantemente ele estava aumentando, até que escutou as palavras de Armodeus.

— Aí está. É mais ou menos isso. — O artesão disse com um sorriso amplo. — Não acho que consigo sentir mais nada, mas, de novo, não tenho a sua percepção, então ainda pode haver algum resquício.

— Obrigado, mas acho que deve estar tudo bem por enquanto. Como um artesão, tenho bastante certeza de que você também possui uma percepção alta, então espero que não haja nenhum tipo de problema com isso. E, à medida que me acostumo com a vibe, posso arrumar isso, então está tudo bem. — O Diabrete explicou para Armodeus com um grande sorriso, feliz por ter conseguido contar com a ajuda dele.

— Então, isso significa que estamos passando para a próxima etapa? — Lognir questionou, ansioso para continuar. Não era porque estava entediado com o passo atual, como Eiro sentiu por um instante, que Lognir estava animado de ver o que Eiro era capaz de fazer e com que rapidez.

Para alguém com uma vida tão longa e tão pouco para se fazer, esses tipos de eventos deviam ser muito excitantes. Desse modo, Eiro e Lognir deixaram Armodeus sozinhos de novo para que o artesão pudesse continuar trabalhando na armadura enquanto o Demônio começava a se concentrar no nível de ‘sinergia’ que precisa desenvolver com as diferentes Cartas, para que conseguisse filtrar tudo de sua aura.

Com isso deveria ser capaz de criar algo como uma versão das habilidades das Cartas em sua Mente. A Vibe já era um tipo de habilidade das cartas, uma das poucas que era fácil de perceber em comparação com todas as outras e, com essa vibe compreendida, Eiro seria capaz de usá-la, ou assim esperava, como o ponto de partida para descobrir tudo mais conectado às Cartas.

A realidade era muito mais difícil do que isso, claro. Todas as cartas tinham habilidades únicas. Aquelas do Naipe de Ouros estavam na mesma área, mas ainda agiam de forma diferente porque uma delas afetava atributos factuais e a outra não afetava nada além de um conceito que poderia se estender a qualquer coisa.

Eiro fechou os olhos, respirando fundo enquanto via as cartas na sua mente. Com as duas que assumiam um formato físico, na verdade, era muito fácil. Uma delas era uma coleção de anéis, fios e lâminas e a outra era uma taça dourada e decorada com um líquido negro como breu dentro.

As outras duas, por outro lado, eram um pouco diferentes. Nem ‘percepção’ nem ‘verdade’ tinham algum tipo de forma física real. O que ele deveria imaginar? Simbolismo?

Ele leu em alguns livros sobre isso, embora as memórias fossem um pouco nebulosas. Um símbolo para ‘Verdade’ poderia ser visto como a balança. Ela se encaixava mais na categoria de ‘lei’, mas ainda era próximo o suficiente. Contanto que Eiro conseguisse visualizar isso, deveria ficar tudo bem, não importa o formato que assumissem. Tudo o que importava era que Eiro precisava ser capaz de formar uma conexão direta entre o símbolo e o significado por trás do símbolo.

Eiro pensou sobre isso por um tempo e escolheu algumas coisas que poderiam significar verdade. No fim, decidiu duas coisas: primeiro a ‘Coruja’, um animal que significava sabedoria e verdade e a ‘Balança’, significando lei e ordem.

Ambos pareciam adequados, então Eiro os combinou. Uma balança no formato de uma coruja. Uma lei criada por meio de sabedoria. A criação da própria ‘lei’ de Eiro, que ele compreendeu ao longo de anos de contemplação e essa era a única verdade fundamental do Demônio.

Quando à outra carta, o Cinco de Ouros, Eiro optou por uma ideia mais direta. Um homúnculo. Uma criatura artificial, o ‘homem na garrafa’, mas não qualquer homúnculo, um ‘Homúnculo Sensorial’. Um ser teórico criado no papel. Ele não possuía proporções normais, mas cada parte do seu corpo era moldada de acordo com o seu impacto sensorial.

Língua, olhos, orelhas, mãos e tudo mais desproporcionalmente grandes enquanto muitas outras partes do corpo eram esqueléticas. Era uma criatura de aparência horrível que não poderia existir na vida real. Assim esperava. Se algum bruxo louco decidisse criar um deles, então isso seria uma história diferente, embora Eiro não conseguisse pensar em um motivo para alguém querer fazer isso, mas imaginou que era por isso que eram chamados de bruxo ‘loucos’.

Com mais essas duas imagens adicionais e teóricas baseadas no que a habilidade dessas cartas significavam para Eiro, ele tentou descobrir como controlá-las.

Foi um pouco mais fácil com as duas que já estava acostumado. O Três de Espadas precisava ser movido, embora Eiro e a poção do Ás de Copas só precisava ser espalhada na forma de uma névoa para envolver, não Eiro, mas todos.

A balança de coruja balançava de um lado para o outro enquanto o Homúnculo Sensorial vagava por aí, tentando utilizar sua firma repugnante e estranha.

Eiro continuou olhando para dentro de si, tentando descobrir uma forma de manipular esses itens mentais de outras maneiras também. Ele tinha que masterizá-los se quisesse dominar como manipulá-los.

Pelo menos, foi isso que Lognir lhe contou. Lenta mas constantemente, o Dragão direcionava Eiro ao sucesso… Ele já conseguia sentir suas memórias retornando só de pensar em quando as recuperaria.

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