
Volume 4 - Capítulo 338
A Virtude do Demônio
Eiro olhou para dentro de si e se concentrou no Homúnculo Sensorial, criado como uma representação do Cinco de Ouros, a <Percepção Suprema>. Para significar o processo de ativar a Carta… Ele fez o Homúnculo ir dormir. Ele se enrolou no chão e cochilou, como se sua existência sumisse enquanto dormia, o mundo de Eiro parecia completa vazio por um instante.
Silêncio absoluto, nem um único cheiro, sem vibrações nem toques no chão em que estava sentado.
Foi um instante de absoluta privação sensorial que Eiro nunca experienciou antes. Alguns instantes depois, seus sentidos retornaram até certo ponto. Entorpecidos, enfraquecidos. Era assim que os sentidos de Eiro deveriam ser sem o aprimoramento do Cinco de Ouros.
É claro, os sentidos de Eiro não eram nem um pouco fracos; ele tinha uma percepção maior do que a vasta maioria dos seres vivos. Era só que essa percepção parecia quase inexistente se comparada ao que Eiro sentia antes.
Sentia-se um tanto solitário e frio enquanto Eiro se sentava ali, abrindo lenta os olhos. Demorou um tempo para ele real processar a visão pratica embaçada que via e seus olhos doíam com o fato de que ele estava os forçando instintiva a retornar ao seu estado anterior, algo que obvia não era possível.
— Eu… não consigo… — Eiro murmurou, mal conseguindo escutar sua própria voz. Lognir parecia querer dizer algo para ele, mas o Diabrete também não conseguiu escutá-lo. Parecia que ele havia movido os lábios sem formar nenhuma palavra; em vez disso, emitiu simples grunhidos. Isso foi estranho e assustador para Eiro, ser privado de todos os seus sentidos por alguns momentos.
Ele olhou dentro de si e acordou o Homúnculo Sensorial de novo. Enquanto os sons dos insetos se arrastando pelo chão no outro lado da caverna, assim como o cheiro das flores raras crescendo na lateral desta montanha, preenchiam sua mente, Eiro conseguiu relaxar de novo.
O Demônio soltou um suspiro calmo enquanto virava a cabeça para olhar para Lognir.
— Consegui bloquear o Cinco de Ouros… Apesar de que espero não ter que fazer isso novamente. Não vejo uma razão clara para fazer isso… Me senti tão-
— Privado de tudo? — Lognir questionou com um sorriso suave, como se esperasse isso. Eiro assentiu.
— Isso mesmo. Como se não houvesse mais nada ao meu redor.
— E é por isso que isso pode ser útil em algum momento. Você já tem prática em enfraquecer seus sentidos para viver com o excesso de estímulos dessa sua carta. Se combinar essa habilidade praticada e instintiva com a falta de sentidos, por algum tempo será como se não houvesse sentidos ao seu redor. É algo que muitos espiritualistas buscam, sabia? A ausência de sentidos é útil para conquistar um tipo de esclarecimento, se você desejar. Será capaz de se concentrar com muito mais facilidade durante seus estados meditativos, talvez até descobrindo coisas que nunca imaginou possuir dentro de você.
— … Entendo. Isso pode ser útil nessas situações. Pensarei quando usar… mas, primeiro, deixe-me tentar bloquear o Cavaleiro de Ouros também — Eiro sugeriu, fechando os olhos mais uma vez enquanto ainda estava um pouco confuso depois de tudo o que aconteceu.
Agora que descobriu como se sentia ao bloquear as habilidades dessas cartas escondidas dentro dele, fazer o mesmo com o Cavaleiro de Ouros foi bem fácil. Sem mencionar que a diferença não foi tão avassaladora. Claro, parecia um pouco estranho comparado a antes, mas não era nada grande. Talvez fosse devido ao tipo de efeito que esta Carta tinha em primeiro lugar, ou o fato de que não estavam conectados há muito tempo em comparação ao Cinco de Ouros. De qualquer modo, era mais fácil lidar com a mudança no mundo depois de alterar a Balança de Coruja para fazer com que parte da Balança, que era composta pelas asas da Coruja, pressionasse o corpo dela enquanto esse animal metálico adormecia.
Eiro tentou essas coisas mais algumas vezes para ficar mais acostumado com a sensação e o ato de bloqueá-las em si, até que estivesse pronto para avançar para o próximo passo. Agora que essas sensações estavam frescas na sua mente, ele queria continuar o mais rápido possível com o treinamento de Lognir.
— Certo, o próximo passo, como eu disse antes, não é ‘bloquear’ as habilidades das Cartas, mas manipulá-las. Você pode brincar com a manipulação do Cavaleiro de Ouros mais tarde, já que é uma habilidade mais ‘conceitual’ no fim. Entretanto, pode ser um pouco mais fácil com o Cinco de Ouros, especial ao considerar a imagem que você escolheu. Simplesm-
— Aumentar o tamanho de uma parte em particular do corpo do homúnculo, dependendo de qual sentido quero ‘aprimorar’? Esse, o benefício que você estava falando mais cedo, não era?
— Exato — Lognir respondeu com um sorriso. — Agora, você já descobriu como fazer isso por conta própria de qualquer forma, então vá em frente. Mostre-me o que você consegue fazer.
Eiro acenou com a cabeça e fechou os olhos, olhando para dentro de si mais uma vez. Olhou para o Homúnculo Sensorial e focou em um dos seus órgãos sensoriais. Por ora, concentrou-se em seus olhos. Apesar de que, ao mesmo tempo, Eiro já estava ciente da lei da ‘troca equivalente’ ao manipular outros tipos de energia.
Se ele quisesse aprimorar algo, tinha que enfraquecer outra coisa. Poderia enfraquecer todos os outros sentidos ligeiramente ou fazer um sentido em específico ficar mais fraco, em troca de aprimorar sua visão.
Por agora, escolheu a primeira opção. Sentiu todos os seus outros sentidos enfraquecerem enquanto abria os olhos, que haviam se tornado mais fortes. Dentro da caverna, era um pouco difícil ver seus efeitos, mas, mesmo assim, eram visíveis. Lenta, mas claramente ele aumentou a força da sua visão enquanto enfraquecia o resto, até que seus olhos começaram a doer devido à luz fraca que existia ali dentro, entrando neles de forma tão concentrada.
— Parece que há um limite para o que eu posso fazer… — Eiro murmurou enquanto cancelava o aprimoramento e esfregava seus olhos por um tempo. Como isso existia, esse ‘limite’, Eiro passou por todos os seus outros sentidos para descobri-lo. Dessa forma, ele poderia maximizar a força dessa nova habilidade quando necessário.
Assim que terminou com isso, sentindo-se um pouco rígido, viu seus três Espíritos aparecerem ao seu lado e Nelli fez uma sugestão.
— Quer tentar descobrir com o seu ‘sexto’ sentido também? Com o sentido de manda quando estamos fundidos?
— Ah… — Eiro respondeu. — Sim, isso pode ser uma boa ideia. Gondos, seus sentidos são os mais proeminentes, vamos lá.
O Demônio esticou sua mão e o Espírito da Terra assentiu. Ele afundou na mão do Demônio enquanto se fundiam e Eiro olhou para o Homúnculo Sensorial dentro dele. De imediato, sua mente adicionou uma nova camada a ele. O Homúnculo tinha um fluxo enorme de mana percorrendo seu corpo, que Eiro conseguia ver agora. Era fácil de manipular, quase tão fácil quanto mana normal e ele conseguiu concentrar em sentidos específicos.
Dessa forma, ele poderia focar em um sentido específico que quisesse utilizar de fato para sentir mana, mas não apenas isso. Ao mesmo tempo, se ele enfraquecesse um dos seus sentidos comuns e depois concentrasse o aprimoramento em seu ‘sentido mágico’, sobrepondo o sentido que havia enfraquecido, para que fosse quase inexistente, tudo o que ele conseguiria ver era magia.
Ele só conseguia ver magia quando fizesse isso com seus olhos, em vez de ver outras coisas que real estavam na sua frente. Só conseguiria sentir o gosto da magia quando concentrava isso em sua língua. Assim, Eiro seria capaz de se concentrar na sua magia com muito mais facilidade quando tentasse.
Não era algo que ele usaria com tanta frequência, mas era uma boa opção de se ter. Eiro e Gondos se separaram e ambos se entreolharam por um instante.
— Então, como foi? — Nelli questionou.
Gondos olhou para ela sem conseguir descrever bem.
— Foi… novo… Isso é tudo que consigo dizer. Muito ‘estranho’ até certo ponto. Eu só conseguia sentir magia… nada mais.
— Interessante… Parece uma experiência e tanto. — Nelli apontou e Eiro assentiu.
— Foi, sim, mas todas essas trocas repentinas nos sentidos são meio… nauseantes. Acho que devo parar de praticar isso em particular por um tempo — Eiro explicou. Ele se sentia um pouco tonto, como se sua cabeça estivesse girando. Não era uma sensação nada agradável e parecia que precisava se sentar e respirar um pouco.
O ar aqui também era bastante abafado, então decidiu ir lá fora por um tempo, para sentir o sol na sua pele e respirar um pouco de ar fresco por alguns minutos.
Lognir assentiu com a cabeça e aproveitou esse momento para ficar com sua companheira, Krista, enquanto o Diabrete saía e se sentava em uma rocha que retirou a neve com magia.
Ver o olhar quase vazio de Eiro enquanto ele olhava para o horizonte distante deixou Nelli um pouco preocupada.
— Está tudo bem? — Ela perguntou. Tendo estado com ele por mais tempo do que qualquer um, sabia como Eiro ficava em diferentes estados de espírito.
O Demônio virou a cabeça e olhou para ela, mas ele não sabia o que dizer.
— Acho que sim, mas também não tenho certeza, para ser honesto. Me sinto tão… tolo. Me senti convencido e forte, como se ninguém pudesse me derrotar… mas agora percebo quão fraco era. Já consigo ver muitos outros caminhos para me tornar muito, muito mais forte… alguém que possui tantas opções disponíveis não pode ser chamado de forte. Especialmente… — Eiro murmurou enquanto invocava a Carta do Arcano Maior em sua mão. — Diz que ainda possuo 12% de chance de sobreviver se ativá-la. Me pergunto quão forte são os Nobres, se até mesmo eu tenho essa probabilidade de sobreviver…? Então… Quão forte é o Rei dos Monstros para ser temido até mesmo por esses nobres?