A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 336

A Virtude do Demônio

Eiro continuou tentando aprimorar sua aura enquanto Armodeus mexia com a cauda dele. Ele estava colocando algumas placas de metal no ferrão de Eiro e tentando pensar em novas ideias para juntar tudo o que havia feito.

Isso foi bastante desconfortável, considerando que a cauda do demônio era muito sensível. Motivo pelo qual ele não a utilizava em combate com tanta frequência. A parte mais sensível da cauda de Eiro era o ferrão afiado. Parecia que alguém havia pressionando o dedo no seu olho e esfregando quando Armodeus fixava a ponta especial de metal venenoso para aprimorar a picada venenosa do Diabrete.

Era desconfortável, mesmo se ele próprio tocasse no ferrão, então ter outra pessoa era ainda pior. Eiro sentiu arrepio, algo que não sentia há um tempo.

— Já terminou…? — Eiro perguntou com um sorriso irônico, incapaz de se concentrar na sua prática de Manipulação de Aura e ele conseguia ouvir Armodeus sorrir.

— Quase, quase. Só mais um pouco.

O Demônio resmungou baixinho depois de ouvir isso. Claro, transformar seu ferrão em uma arma mais poderosa e dar a ele defesas era uma boa ideia, especialmente por ser tão sensível à dor, mas o fato de que tinha que passar por tudo isso era algo que ele ainda não gostava.

O fato de que todos os sentidos de Eiro eram fortes também não ajudava; era uma sensação que não experienciava há um tempo, mas, no fim, para suportar isso, ele se concentrou em outra coisa. Respirando fundo, olhou para frente e continuou tentando manipular sua aura, filtrando tudo que não pertencia a ele enquanto a aura saía do corpo do demônio.

Eiro respirou fundo e praticou cada vez mais e quase conseguiu compreender, até que sentiu a dor afiada no final da sua cauda e mais uma vez foi retirado do seu estado meditativo.

— Armodeus, o que você está fazendo…? — O Diabrete questionou, cerrando os dentes para suportar o desconforto.

— Ah, desculpa, espero que não tenha incomodado… Bem, apertou um pouco demais o anel de fixação. Apertou um pouco o seu ferrão e…

— Então não foi minha imaginação… Você quebrou minha cauda? — Eiro perguntou enquanto afastava sua cauda do artesão e a colocava na sua frente para que desse uma olhada no ferimento. — Por favor, seja um pouco mais cuidadoso. Sei que não reagi à dor, mas isso dói tanto quando ser esfaqueado na barriga. — O Demônio apontou, fazendo Armodeus se sentir ainda pior por machucá-lo enquanto Eiro pressionava a rachadura na carapaça da sua cauda, fechando-a para que cicatrizasse.

Devido ao fato de que Eiro tinha uma regeneração física bastante intensa, até mesmo algo como isso era curado quase na hora se ele concentrasse sua Força Vital na área.

— Continue… — Eiro resmungou baixinho enquanto o Anão Ancião continuava fixando tudo ao ferrão, mas, por alguma razão, Eiro conseguiu conectar algo em sua mente por meio desse ferimento.

Os únicos lugares em que ele tinha algo parecido com uma carapaça eram sua cauda e ao redor da área em que sua cauda se conectava às suas costas, e só. Era algo muito novo para Eiro, já que, comparado à sua pele normal, a carapaça experienciava os sentidos de forma muito diferente.

E ela substituiu a pele de Eiro onde havia. Foi essa parte que o ajudou a descobrir algo novo. Enquanto fazia a ‘Barreira de Aura’ para manter sua aura dentro do seu corpo, ele não deveria fazer outra camada separada de sua pele… Em vez disso, deverá fazê-la em sua própria pele.

Como se fundisse esse conceito com uma parte de sua carne, criando algo novo no processo. Algo que poderia experienciar de uma nova forma. Lentamente, Eiro concentrou tudo no centro do seu peito. Ele queria criar uma barreira ali para começar. Eiro já sabia como transformar a mana em algum tipo de ‘conceito’; era a base para conjurar a maioria dos tipos de magia.

Magia Elemental requeria que a mana de Eiro mudasse para a essência mágica específica que ele queria usar enquanto Magia Não-Elemental necessitava que ele a transformasse em um conceito específico relacionado ao que queria fazer. Claro, Eiro não usava com tanta frequência Magia Não Elemental, já que era muito menos potente que Magia Elemental, mas sabia como utilizá-la.

Então talvez agora tivesse que fazer algo parecido, embora com a terceira força de energia que conseguia sentir fluindo pelo seu corpo. Havia Mana, Força Vital e, agora, sua Aura. Esta era um pouco diferente das outras duas, mas ainda era algo tangível, considerando que Eiro era capaz de senti-la e manipulá-la em primeiro lugar. E, por meio disso, se ele a tratasse da mesma forma que tratasse a Mana, poderia transformá-la em ‘Aura com um Conceito’ infundida nela, antes de fazer essa Aura se tornar parte da sua pele.

O conceito neste caso era não permitir que a real fluísse por ela e, quando Eiro descobriu isso, a tornou parte de sua pele.

Agora enquanto a Aura ainda fluía para fora do seu corpo em outros lugares, ela não fluía por meio do centro do seu peito. Lenta e cuidadosamente Eiro estendeu esta Barreira de Aura para outras partes, até que ela cobrisse todo seu torso, depois suas pernas, braços, cauda e até mesmo asas.

Foi difícil manipulá-la até essa extensão, mas Eiro conseguiu depois de perder o controle algumas vezes.

— Oh! Você já conseguiu isso! — Lognir exclamou com um sorriso animado enquanto olhava para Eiro, que virou a cabeça com uma leve carranca.

— Uhum, consegui… Obrigado pela ajuda.

— Ei, eu já te disse que você precisa descobrir isso por conta própria. Agora, deixe-me dar uma olhada no controle do seu ‘Bloqueio de Aura’… — O Dragão murmurou, colocando a mão na cabeça do Demônio. Eiro conseguiu sentir um fluxo quente percorrer seu corpo, enchendo-o como se fosse algum tipo de jarro de vidro sendo preenchido de água.

Lognir retirou a mão da cabeça dele e pensou por um tempo.

— Você já está muito perto de descobrir, há alguns detalhes que você pode melhorar. Primeiro, em vez de fundir com a camada mais externa da sua pele, funda-a com todas as camadas fortalecendo e concentrando a barreira à medida que ela alcança a camada mais externa. Isso não ajuda o seu controle, mas você não precisa se preocupar com sua Aura saindo do seu corpo quando é cortado de forma aleatória em alguma parte do seu corpo. — Lognir explicou.

Eiro levantou as sobrancelhas e pensou sobre o que o Dragão disse. Ele estava certo, isso seria muito melhor e mais eficiente. O Diabrete assentiu e tentou, estendendo a barreira para as outras camadas da sua pele. Isso funcionou, embora tenha feito com que se sentisse um pouco diferente. Era como se sua aura concentrada estivesse alterando os receptores de toque por todo o seu corpo.

Não muito, na verdade, isso o ajudou a ignorar Armodeus mexendo com sua cauda.

Após isso, Lognir deu mais algumas dicas de como aprimorar seu Bloqueio de Aura, todas muito simples, mas que melhoravam a força e eficácia da sua Barreira de Aura.

Por sorte, a manipulação de sua Barreira de Aura o ajudou a se concentrar em tudo, exceto o que o artesão fazia atrás dele, então, quando o Demônio terminou de praticar essa parte, Armodeus teve tempo suficiente para terminar tudo. Ele passou por testes, protótipos e conseguiu fazer tudo em um pequeno pacote. E tudo isso em, no máximo, uma hora.

Afinal, Armodeus era muito habilidoso, mas, assim que Eiro se livrou da barreira para dar uma olhada no item na sua cauda, ficou muito surpreso. Na verdade, não parecia tão mal. Primeiro, ele se misturava com sua carapaça muito bem, já que o Anão pintou o metal com algumas cores foscas que combinavam com a cor da sua cauda enquanto o moldou de forma que continuava a parecer que as partes da carapaça de Eiro estavam se sobrepondo.

À primeira vista, a única coisa que seria perceptível seriam os pequenos frascos colocados ao redor da base do ferrão de Eiro, que deveriam ajudá-lo a guardar mais veneno. Embora o Demônio tenha ficado mais impressionado com o sistema que Armodeus adicionou ao ferrão em si, algum tipo de bomba que puxava toda a peçonha da cauda de Eiro por meio de uma agulha oca colocada ao redor da ponta do ferrão dele, direto para o alvo, com uma força impressionante. E tudo o que Eiro tinha que fazer para ativar isso era ejetar peçonha da sua cauda; o resto acontecia naturalmente.

Também era muito fácil de remover se Eiro quisesse, mas não cairia no meio de uma batalha. Também era surpreendente leve.

No geral, o resultado ficou muito, muito melhor do que o Diabrete esperava. Ele gostou muito desse item.

— Isso é ótimo… Bom trabalho, Armodeus — o demônio comentou e o artesão permaneceu ali com um sorriso presunçoso.

— Claro que sim, rapaz. Eu que o fiz.

Eiro revirou os olhos enquanto continuava brincando com seu novo item, antes que Armodeus colocasse a mão no ombro dele.

— Agora, rapaz, tire a roupa.

— … Oxe?!

— Bem, quero fazer uma armadura para você. Lognir preparou as escamas em que posso trabalhar enquanto você praticava e não consigo ver o seu corpo sob essas roupas largas. Então, tire-as e fique de cueca.

— Certo, tudo bem, mas da próxima vez comece com isso. — Eiro resmungou baixinho enquanto se levantava. Ele retirou sua camisa e despiu suas calças para permitir que Armodeus medisse as proporções do demônio para fazer uma armadura adequada.

— Ah e não me faça algo que dificulte meus movimentos. Faça algo que seja fácil de vestir sob uma capa e algo que eu possa retirar rápido, se necessário — Eiro sugeriu e Armodeus levou essas ideias em consideração, embora estivesse sorrindo leve.

— Oh? Você tem uma namorada, rapaz? Ou por que mais iria querer retirar sua armadura rapid-

— Armodeus… 

— Certo, desculpa.

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