
Volume 4 - Capítulo 334
A Virtude do Demônio
O artesão martelou o metal quente que criou de uma das cascas de ovos. Até Eiro conseguia dizer que elas possuíam propriedades diferentes umas das outras, dependendo de qual ovo vieram.
Eiro não tinha certeza, mas, ao considerar que Armodeus havia separado os metais em pedaços menores, fez o Demônio pensar que o Anão Ancião tinha planos específicos para tudo. Agora, ele estava trabalhando com o mental criado com o ovo do Dragão de Gelo.
Ele emitia uma sensação fria, como se uma brisa gelada passasse sobre a pele de Eiro. No começo, o Diabrete não tinha certeza do que aquele metal deveria se transformar, mas, por enquanto, ainda não se transformou em nada. Armodeus ainda estava preparando todos os diferentes metais para trabalhar com eles mais tarde. Ele chegou a misturar algumas partes, dobrando-as umas nas outras depois de aquecê-las, sem misturá-las.
Como se houvesse ondas sendo criadas entre o metal do Dragão de Gelo e o metal do Dragão de Fogo.
Levou um bom tempo até que Armodeus estivesse satisfeito com sua preparação e olhou direta para Eiro.
— Rapaz, irei utilizar todas as partes substitutivas que você fez para sua mão. Tudo bem para você? — Armodeus questionou, mas Eiro ficou confuso e não esperava essa pergunta.
Então, ele conectou os pontos.
— Está fazendo itens para mim?
— Algo do tipo. — Armodeus suspirou. — Quero aprimorar algumas peças da sua mão para que você possa trocá-las e aprimorar alguns dos seus feitiços. Este metal não é forte o suficiente para armas normais. Só pode ser utilizado para aprimorar outros objetos, sabia? E como são mágicos, devem ajudar sua conjuração. Também queria aprimorar suas adagas, se estiver de acordo.
Eiro olhou de volta para o anão na sua frente e assentiu.
— É claro. Foi você quem fez as adagas em primeiro lugar, então confio que você não as quebrará. Quanto às partes da minha mão de madeira… O que você planejou para elas? — O demônio perguntou curioso.
Sem hesitação, Armodeus explicou o que ele faria em detalhes. O problema que Eiro tinha com essa ideia a princípio era que poderia bagunçar com o estado da sua prótese, impedindo que a usasse na mesma extensão de antes, mas isso só seria o caso se Armodeus substituísse peças inteiras.
Em vez disso, ele só iria entalhar certos padrões na superfície delas e preenchê-las com diferentes metais para aprimorar o fluxo e certos tipos de magia. Era quase igual a um piercing ou uma tatuagem, então Eiro ficou tranquilo com essa ideia. Na verdade, se soubesse que isso era uma opção, teria pedido para Armodeus fazer isso antes.
Afinal, o próprio Eiro não sabia como lidar com metal. O único tipo de artesanato que ele conseguia fazer era marcenaria, fora isso, Eiro era inútil quando se tratava de artesanato.
O Demônio se levantou do chão e foi até a carruagem para pegar uma caixa cheia com diferentes peças para sua mão. Ele tinha três conjuntos completos, além de mais algumas peças que quebravam com facilidade.
Mas Eiro tinha madeira restante o suficiente para completar outro conjunto se utilizasse essas partes extras.
— Armodeus, quantos conjuntos você tem? — O demônio questionou e o artesão olhou para o metal que havia preparado.
— Quatro, por agora. — Armodeus disse sem pestanejar, então Eiro assentiu e pegou a caixa em que mantinha tudo, entregando-a para o artesão.
— Tenho três prontos. Terminarei o quarto enquanto você trabalha. — Eiro sugeriu. Armodeus assentiu e olhou para as peças que Eiro havia entregado, antes que o Diabrete perguntasse. — Presumo que você sabe onde todas elas vão?
— Hah, rapaz, você acha que está falando com algum amador? Consigo montar algo assim rapidinho. — O Anão Ancião piscou com um sorriso. Eiro sorriu enquanto se sentava ao lado de Lognir de novo, que encarou Eiro surpreso.
— Você também é um marceneiro?
— Hm? Oh, sim, eu sou. Quando eu trabalhava com meu professor… bem, meu pai, na verdade, ele me ensinou o caminho de um protesista. Eu fiz essa mão sozinho.
Lognir levantou as sobrancelhas, curioso.
— É mesmo? Essa é uma profissão muito interessante de se escolher… mas você parece habilidoso, sendo capaz de criar próteses tão lindas.
— Obrigado. Meu pai criou a primeira prótese que usei após perder minha mão e depois me ensinou por anos para fazer o mesmo que ele, mas não posso dizer que estou perto de ser tão habilidoso como ele era. — Eiro comentou enquanto preparava a madeira azul-claro em suas mãos para que conseguisse manuseá-las. O Demônio estalou os dedos e a porta da carruagem se abriu. — Tenho certeza de que você já o percebeu. Esse é o boneco criado por meu falecido pai. Ele foi criado para me treinar em diferentes disciplinas de combate.
— Entendo… Então seu ‘pai’ deve ter sido um Demônio muito habilidoso para ser capaz de criar isso. — Lognir comentou, mas Eiro olhou para ele e balançou a cabeça.
— Meu pai não era um Demônio, mas um humano idoso que conheci há oito anos. Ele me ensinou e se tornou um pai para mim.
— Bem… Não que eu não esperasse algo do tipo, mas ainda é bastante surpreendente ouvir isso. — Lognir comentou e Eiro sorriu enquanto retirava suas ferramentas. Eiro pegou o Três de Espadas e o conectou com ferramentas específicas, começando a esculpir a madeira que segurava.
Eiro conseguiu cortá-la e, no instante em que Lognir se virou após inspecionar o boneco, ficou um pouco surpreso.
— Você é… Bastante rápido no seu trabalho.
— Hm? É claro, isso não é muito. Fiz isso algumas vezes antes. Esta madeira é como o resto do meu corpo, então consigo manuseá-la com ainda mais facilidade do que outros tipos. Ela foi criada usando minha própria mana e um pouco da minha Força Vital, afinal. — Eiro explicou. — … Talvez eu devesse ver como essa árvore está indo… talvez dar a ela um pouco mais de magia… — O Diabrete murmurou.
Ele pensou que seria uma boa ideia fazer isso. Fazia um tempo desde então e ele ficou muito mais forte e ganhou novos tipos de magias. Alimentar a árvore com elas devia ser bom. De qualquer forma, ela estava profunda conectada a Eiro, crescendo junto dele. Ele e a árvore estavam conectados de forma semelhante à como Eiro estava conectado a Lugo ou Nelli, Gondos e Sarius. Estavam conectados de uma forma que transcendia o físico.
Eiro continuou a trabalhar com a madeira que segurava para criar os pedaços para a quarta mão, tudo isso enquanto Armodeus começava a aprimorar as partes que Eiro já havia entregado. Claro, o Demônio queria manter uma mão sem nenhuma melhoria, no caso de algo dar errado com esses metais, mas ainda estava bastante curioso com o efeito que esses metais teriam na madeira.
Não demorou muito para que ele terminasse os pedaços para a mão e os colocasse na mesa que Armodeus preparou para si.
— Aqui está. Também colocarei minhas adagas aqui. Se precisar de algo, me avise. — Eiro disse com um leve sorriso, olhando para Armodeus, que preenchia os entalhes nos pequenos pedaços de madeira. Era um pouco estranho, o metal estava tão quente que estava literal brilhando, mas a madeira não foi queimada devido ao trabalho incrivelmente cuidadoso do Anão Ancião e ao nível de sua perícia. Ele fez isso sem pensar muito.
Como se Armodeus tivesse mais de duas mãos, com vários membros crescendo de suas costas. Claro que esse não era o caso, mas parecia. Este homem era digno do título de <Rei dos Artesãos>.
Eiro ouviu falar que a maioria das pessoas nem conseguia seguir os movimentos das mãos de Armodeus, considerando que tinha a Carta que lhe dava <Destreza Suprema>. Mesmo Eiro conseguia dizer que isso era algo inalcançável por este Demônio, embora Armodeus nem estivesse tentando. Ele era capaz de mover suas mãos e braços para começar a fazer uma coisa e, num piscar de olhos, já havia terminado. As pequenas peças foram gravadas com tudo enquanto ele estava se segurando um pouco.
De qualquer forma, Armodeus era um artesão impressionante, mais do que qualquer um que Eiro já viu. Quando se tratava de artesanato, mesmo no campo da marcenaria, Armodeus era objetiva melhor do que Jura, mas, no fim, o foco de Jura não estava na marcenaria, mas na criação de ‘vida’. Então, nesse sentido, fazia sentido, mesmo que doesse para Eiro admitir isso.
Especialmente Lognir, que nunca viu Armodeus trabalhar antes, ficou muito impressionado. Em especial porque o Anão Ancião estava em pânico mais cedo.
Logo o artesão terminou a primeira mão, aquela que tinha o Metal do Dragão de Gelo gravado nela. Em vez de substituir toda a mão de uma vez, Eiro queria ver a diferença básica para começar e retirou algumas partes do seu próprio indicador, substituindo-as pelas que Armodeus havia acabado de aprimorar.
O Demônio sabia o nível da sua magia quando conjurava, ele se recordava com perfeição, então não seria difícil descobrir as diferenças se conjurasse um feitiço assim.
O Diabrete inseriu sua Magia de Gelo no dedo indicador e a liberou. De imediato, foi capaz de sentir a diferença. Não era uma diferença imensa, mas era algo que os outros perceberiam mesmo sem o Cinco de Outros.
Assim que conjurou o feitiço, um simples feitiço para diminuir a temperatura no ar, teve certeza de que essa ‘prótese aprimorada’ era algo que tornaria sua magia ainda mais potente.