A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 331

A Virtude do Demônio

— Concentre-se. — Lognir disse com um tom alto e de comando enquanto continuava conjurando magia em espiral ao redor do Demônio. — Eu disse, concentre-se.

— Estou fazendo isso, mas você ainda não me disse em que devo me concentrar. — Eiro resmungou em resposta. Como se fosse óbvio, Lognir suspirou.

— Não é óbvio? Na sua própria aura. Estou te ensinando a como manipular sua aura, no que acha que farei você se concentrar? Nos seus pés?

Eiro revirou os olhos.

— Não precisa ser sarcástico. Você não explicou nada e me disse para eu sentar e me concentrar. Você está tentando sobrecarregar meus sentidos para que eu consiga ignorar todo o resto de alguma forma, aprecio isso, mas não pode esperar que eu entenda cada detalhe.

O Diabrete encarou o Dragão em sua forma humana na sua frente, que cruzou os braços enquanto batia seu pé no chão.

— Tudo bem. Pensei que você fosse um prodígio ou algo do tipo, mas acho que não.

— … Você está realmente me irritando.

— Bom. — Lognir comentou com um sorriso. — Sabe, você está certo de que minha magia é para sobrecarregar seus sentidos e, em parte, lhe dá pontos claros nos quais se concentrar para ignorá-los quando chegar a esta parte, mas isso não é tudo. Na verdade, estou tentando te irritar. Veja, nossa aura está conectada às nossas emoções.

— … Acho que sei o que você quer dizer. Especialmente quando sinto raiva, minha aura fica mais forte. — Eiro adicionou e Lognir assentiu.

— Exato. Dependendo das diferentes emoções, sua aura se adaptará e mudará. Raiva a torna mais forte para que aqueles na sua frente consigam sentir suas emoções fervilhantes. Eles saberão que você está bravo. Tristeza se espalha por distâncias maiores, por isso que há o sentimento de solidão nas casas onde moram pessoas de luto. Quando você está irritado… Sua aura flutua. Ela vai de um lado para outro caoticamente. Essa é a melhor forma para descobrir como expandir ou contrair sua aura.

Eiro entendeu o que Lognir queria dizer e percebeu que deveria conseguir isso com bastante facilidade, mas talvez fosse por causa do seu estado muito emotivo nos últimos dias, que ele não conseguia usar essa nova parte de si.

Tanto ‘Edward’, o Demi-Lich, quanto Lognir na sua frente eram capazes de manipular suas auras de forma que parecessem quase invisíveis. ‘Verdade’ era uma parte da ‘Ordem’. Se emoções fortes podiam fazer sua aura se tornar mais forte, emoções mais fracas podem tornar sua aura mais fraca. Com ‘Ordem’ poderia ser possível para Eiro organizar suas emoções e controlar sua Aura, até que ela seja tão enfraquecida que não seja capaz de percebê-la.

— Ah… Acho que não preciso mais de todo esse barulho… Descobri. — O Demônio disse baixinho enquanto expelia uma grande rajada de mana, interrompendo a magia de Lognir que ainda girava ao seu redor.

Lognir cruzou os braços um pouco surpreso depois de ouvir a declaração dele.

— É mesmo? — Ele questionou, sabendo que Eiro dizia a verdade. O Dragão o encarou enquanto o próprio Demônio explorava algumas memórias. Algumas memórias que deveriam ajudá-lo, afinal, Eiro imaginou que a maior parte do que acontecia nelas era sua Aura estar desaparecendo.

E sem nenhuma aura, nem mesmo o próprio mundo seria capaz de senti-lo. Com uma ‘Aura negativa’, o evitaria diretamente.

O Ás de Copas.

A poção da invisibilidade.

Se Eiro conseguisse simular como seu corpo se sentia quando bebia a poção, deveria ser capaz de, pelo menos em parte, absorver sua própria Aura. O Diabrete mergulhou em sua própria mente e repetiu o processo de novo e de novo e de novo, até que finalmente conseguiu entendê-lo.

Demorou alguns segundos. A aura de Eiro era como uma película fina ao redor do seu corpo. Tudo o que tinha que fazer era puxar esta película para dentro do seu corpo, como se ele se fundisse com ela. Não era mais uma ‘Aura’, na verdade, era seu próprio corpo.

Surpreso, Lognir levantou as sobrancelhas enquanto olhava para o Demônio sentado ali de pernas cruzadas.

— Você… Realmente fez isso, hein? Isso foi surpreendente rápido. O que você fez agora foi se transformar em um ‘fraco’. Pessoas fortes perceberão outras que são fortes através de suas auras. Ela é um resultado de todos os seus atributos e experiências que reuniu ao longo dos anos. Agora, você parece uma pessoa normal e abaixo da média. Ninguém prestará atenção particular em você, porque você não possui nada que se destaque. Bem, se você conseguir parecer um pouco normal, pelo menos.

Eiro se levantou do chão, tentando não perder sua concentração com o estado atual de sua aura.

— Bavet. — O Demônio disse, levantando sua mão para o lado. Na forma de pássaro, o Slime voou até ele.

— Você quer dizer que devemos fazer ‘aquilo’? — Bavet perguntou.

— Sim. Só para testar um pouco. Tente transformar minhas asas em algum tipo de jaqueta e minha causa em um cinto. — Eiro sugeriu. — Desta vez, não faça parecer tão… ‘Alta Classe’. Faça com que eu pareça mais discreto.

Incomodado, Bavet virou sua cabeça de pássaro.

— Todo mundo é um crítico esses dias…

— O que foi? você é um artista? Por favor, faça isso. Quero ver o que posso usar para caminhar pelas cidades agora. — Eiro sugeriu e Bavet se desfez. O slime verdadeiro cobriu todo o corpo de Eiro, concentrado nas asas, chifres e cauda dele. Eiro absorveu este slime, como se fundisse com ele e o núcleo de Bavet foi pressionado no centro do seu peito.

Lentamente a cor da sua pele mudou e se tornou mais parecida com a de um humano. Seus chifres viraram cabelos, suas asas se tornaram uma jaqueta que envolvia seu torso enquanto sua cauda virou um cinto fino que prendia suas calças.

— Pronto. Parece bom, certo? Nelli. — O Diabrete sorriu enquanto olhava para si mesmo e Nelli apareceu com um sorriso sarcástico, mal conseguindo conter sua risada enquanto criava água para Eiro manipular.

Eiro congelou a água e a transformou em um tipo de espelho natural ao mudar a espessura da água e quão fria ela estava em diferentes partes. Então, ele percebeu por que Nelli estava sorrindo. Claro, Bavet transformou seus chifres em cabelos, mas não mudou a cor deles. Motivo pelo qual Eiro agora estava parado ali com um cabelo arco-íris.

— Bavet! Como isso é discreto? — Ele questionou, uma boca se formando na palma esquerda do Demônio.

— Ei, cala a boca. Você não pode esperar que eu faça tudo perfeito depois daquelas demandas, além disso, isso não parece tão ruim!

— Eu sei que não parece ‘ruim’, possui pouca diferença dos meus chifres. Eu amo meus chifres, então gosto deste cabelo, mas isso não muda o fato de que as pessoas não têm cabelo dessa cor. Faça-o loiro ou castanho. Algo que não se destaca.

O Slime estalou a língua enquanto o cabelo de Eiro mudava de cor para algo mais natural.

— Certo. Pronto. Como eu pareço?

— … Como uma pessoa comum e entediante. Talvez você devesse tentar fazer suas roupas parecerem um pouco mais baratas para se adequar à sua aura fraca. Não como um mendigo, mas não de alta qualidade. — Nelli sugeriu e Bavet obedeceu. Pelo menos o cinto e a jaqueta mudaram para materiais um pouco inferiores e de menor qualidade e como a calça e a camisa de Eiro eram bastante diretas e simples de qualquer forma, o Demônio parecia muito mais… normal do que antes.

— Isso é bastante… interessante. Você realmente parece um humano. — Lognir comentou um pouco surpreso. — Acho que se você praticar um pouco mais, fazendo o que for preciso para manter esse aspecto da manipulação de Aura, você deverá ficar bem. Devemos prosseguir para outro aspecto? Aquele em que você não parece ‘normal’, mas que você se mistura com o mundo ao redor.

Ao escutar essas palavras nesta forma específica, Eiro percebeu que isso era algo que deveria ter aprendido muito, muito mais cedo, afinal… era o que o fantoche fazia quando Eiro procurava por ele. Ele se misturava com o mundo ao seu redor.

— … como isso é feito? — Eiro perguntou enquanto Lognir sorria, feliz por explicar tudo para ele.

— Estou curioso para ver como você conseguirá essa parte. Em vez de puxá-la para dentro de você, você tem que espalhar sua aura para que fique o mais fina possível. Normalmente você sempre possui uma alta concentração de aura dentro de você, então, mesmo quando está triste, ainda é perceptível, mas o que precisa fazer é espalhar sua aura fina por toda parte, as bordas precisam ter a mesma concentração que em qualquer lugar dentro de você. É assim que você se esconde no mundo.

— … Por que, para parecer mais ‘comum’, eu preciso concentrá-la dentro de mim, mas, para me tornar menos perceptível, preciso espalhá-la ao meu redor? — Eiro questionou, já que estava curioso.

— Isso é simples. Um grão de areia na praia é escondido com facilidade e você ainda consegue se concentrar nele individualmente, mas quando não está prestando atenção à areia em particular, você mal a percebe. A areia está lá. Se você prestar atenção a algo, seria a areia em si, não ao único grão de areia. Entre multidões, qualquer um desses dois métodos deve servir para te esconder, mas na natureza é melhor se esconder ao se tornar parte da própria natureza. — Lognir explicou para Eiro, que entendeu o conceito depois dessa explicação.

O que ele tinha que tentar era se fundir com os arredores. Então, Eiro tinha que tentar isso. Isso era parte da ‘furtividade’. Então foi em frente e começou a tentar espalhar sua aura depois de se separar de Bavet.

Ele tentou espalhá-la como se afastasse sua aura, liberando um pouquinho do seu corpo a cada vez. Dessa forma, o Diabete conseguiu espalhar sua aura fina ao seu redor e Lognir o elogiou por esse fato.

— Bem, talvez eu estivesse errado. Você pode ser um prodígio, afinal… Neste ponto, é tudo sobre prática. Continue fazendo isso e ficará melhor com o tempo. Agora, vamos prosseguir para-

— Não, ainda não. — Eiro disse baixinho, tentando algo. Ele fundiu sua aura com o ar ao redor dele usando a magia como um tipo de ‘ponte’… Assim, Eiro descobriu como o fantoche se escondia.

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