
Volume 4 - Capítulo 330
A Virtude do Demônio
— Sejam bem-vindos. Por favor, ajam como se estivessem em casa. O que quero dizer é: respeitem esse espaço e não quebrem nada, escutaram? — Lognir disse para todos enquanto Eiro sorria. O Demônio virou-se para Armodeus, que parecia muito concentrado em analisar a criatura lendária à sua frente.
— Desculpe por ele, é um artesão. Parece bastante interessado em suas escamas e-
O Anão Ancião olhou para ele com choque.
— E-Eior, não diga isso para ele!
— O quê? É verdade, ele descobriria cedo ou tarde de qualquer forma. Não é como se você estivesse se esforçando para esconder isso. — Eiro apontou e Lognir começou a rir suave.
Embora essa ‘risada suave’ ainda fosse alta o suficiente para machucar as orelhas sensíveis de Eiro.
— Já imaginei que seria algo do tipo, mas não se preocupe, não há necessidade de se assustar. Contanto que não nos prejudique ou revele nossos segredos para outros fora desta caverna, não me importo de fornecer alguns ‘materiais’ para você trabalhar.
O artesão ao lado de Eiro arregalou os olhos de surpresa e excitação.
— Sério?!
— Claro. As escamas que derrubei são inúteis para mim, mas sei que são itens maravilhosos para seu povo. Nunca tive a chance de ver algo feito com elas antes, então, contanto que me permita observar, eu lhe darei tudo o que desejar e eu possa oferecer. — Lognir disse para Armodeus, que não esperava esse tipo de resposta. Nem Eiro achava que algo assim aconteceria.
Ele escutou de Solomon que Lognir era um ser gentil por natureza, mas estava além disso. Isso o fez se perguntar se Lognir estava tentando esconder algum tipo de grande objetivo.
— Por favor, entrem mais fundo na caverna, gostaria de apresentá-los à minha companheira. Ela pode ser bastante impulsiva às vezes, então não quero que ela se surpreenda com nossos visitantes. — O Dragão se virou e caminhou para se aprofundar na caverna em direção ao local onde o outro Dragão aprecia estar.
Agora que estavam dentro da caverna, Eiro conseguiu senti-los, embora sentisse que algo estranho estava prestes a acontecer.
Eles passaram por um grande arco enquanto estavam na área que parecia um tipo de ruína antiga, o que explicava por que este lugar foi escolhido pelos Dragões para procriação. Do outro lado da sala, Eiro conseguia ver meia dúzia de dragões de cores diferentes. Tinham um tamanho parecido com o de um cachorro, embora parecessem ter algumas semanas.
Entre eles estava sentada uma linda mulher com cabelos pretos. Ela vestia um vestido preto e roxo, mas era difícil explicar além disso. Como se cada vez que Eiro piscasse, pequenos detalhes sobre ela e até mesmo a aura que ela emitia mudasse ligeiramente.
Eiro sabia que isso estava acontecendo enquanto olhava para ela, mas quando tentava se recordar de como ela parecia antes, sempre que tentava pensar sobre isso, era diferente. Mesmo que continuasse pensando sobre a mesma instância repetidas vezes.
O Demônio leu alguns livros diferentes sobre monstros antes e havia um tipo que parecia se encaixar neste padrão.
Isso às vezes acontecia com monstros no domínio do Caos. O Dragão da Verdade, um aspecto situado no domínio da ‘Ordem’, tinha um ‘Dragão do Caos’ como companheira. Isso… era bastante interessante.
Mas então, Lognir reagiu da forma que ele esperava.
— K-Krista! — O Dragão exclamou. — Por que você está em sua forma humana? Pensei que tivesse dito que estávamos esperando visitantes!
A mulher de preto levantou a cabeça para olhar para Lognir, sorrindo e passando sua mão sobre um dos jovens Dragões reunidos ao redor dela.
— Oh, não percebi que isso era tão importante… — Ela respondeu sem rodeios. Lognir soltou um suspiro profundo. O corpo dele foi coberto por partículas de luz de novo que logo se acumularam na sua frente enquanto Lognir voltava para sua forma humanoide, coçando sua cabeça.
— Então, bem… Eu não ia mostrar este lado de mim, mas acho que é tarde demais agora. Minha companheira é um pouco… — Lognir comentou, tentando encontrar a palavra certa para descrever Krista e Eiro encontrou uma sem precisar pensar muito.
— Imprevisível? — O Diabrete perguntou.
Sem hesitação, o Dragão da Verdade olhou para ele e assentiu.
— Sim, essa é a palavra certa! Você sente isso também, então?
— Claro que sim… consigo imaginar pelo menos alguns cenários plausíveis do que pode acontecer, mas quando olho para ela… Consigo ver coisas irrealistas e ilógicas, assim como nada. — Como essa era uma explicação muito boa, Lognir cruzou os braços satisfeito.
— Então, suas habilidades perceptivas devem ser extraordinárias.
— É claro. Elas são algumas das melhores que existem. — Eiro riu baixinho, virando a cabeça para o lado, vendo o ainda mais perplexo Armodeus parado ao seu lado. Os olhos do artesão não estavam focados em Lognir, Krista ou nos seis Dragões recém-nascidos, mas sim nos fragmentos que estavam reunidos em uma pequena pilha no canto da sala. Com um olhar, considerando o formato desses fragmentos, era fácil assumir que eram o restante das cascas dos ovos desses recém-nascidos.
Eiro também olhou para eles com curiosidade, ao considerar que Armodeus estava concentrado neles tanto que quase esqueceu em que tipo de situação estava.
— Será que elas são tão boas? Você consegue fazer algo com cascas de ovos?
O Anão Ancião virou a cabeça para Eiro com um sorriso amplo na face.
— Oh, rapaz, não confunda isso com o mesmo tipo de casca de ovo daqueles pássaros! Elas são muito mais especiais que isso! Armaduras, poções, até mesmo alguns tipos de armas podem ser criados com elas! Mas como dragões só procriam uma vez ou duas em toda sua vida, é ainda mais raro se deparar com eles do que com escamas de dragão!
Eiro levantou as sobrancelhas, curioso. Ele não ouviu sobre isso antes. Não que houvesse muita informação sobre tais coisas disponível para o público em geral. Que isso poderia ser usado em poções fazia sentido, já que os ovos de outras bestas ou monstros também eram utilizados em poções, mas que era possível fazer armaduras e armas com eles parecia um pouco surpreendente para ele.
Ele olhou para Lognir, que ainda o encarava com uma expressão um tanto vazia. Os dois se encaram por alguns momentos e o Dragão cedeu.
— Tudo bem, você pode tê-las. Contanto que ele faça algo com elas aqui na caverna.
— Acho que deve estar tudo bem. Temos tudo o que precisamos para isso aqui. — Eiro comentou enquanto Armodeus já havia corrido até os fragmentos de casca de ovo que estavam no canto desta grande sala.
— … Bavet, vá brincar um pouco com as crianças. — O Demônio sugeriu e o Slime deslizou pela mão de Eiro, confuso.
— Espera, por que eu tenho…?
— Faça isso, por favor.
— … Tudo bem. — Bavet resmungou e pulou do braço de Eiro, transformando-se em um lobo enquanto caminhava cuidadosamente até os Dragões. Enquanto isso, Eiro e Lognir caminhavam pela caverna com o Demônio informando tudo o que o Dragão da Verdade precisava saber, incluindo as especificidades da situação com suas memórias.
O Dragão segurou o queixo com a mão, em profunda contemplação.
— Bem, você deve conseguir se lembrar de alguma forma. Já tenho uma boa ideia de como você pode conseguir isso.
— E o que seria?
Lognir olhou para ele com um sorriso suave nos lábios.
— Simples: meditação enquanto te coloco sob uma quantidade imensa de estresse mental. Pela forma como você se move, posso dizer que você fez muito treinamento físico e praticou para aprimorar suas habilidades, mas duvido que tenha feito muito, além de ler, para sua mente. Estou certo?
Eiro franziu a testa enquanto pensava.
— Parece justo… Eu passo uma boa parte do meu tempo fazendo exercícios mentais, mas suponho que não seja suficiente.
— Essas habilidades aprimoram sua capacidade de chegar a conclusões, correto? E sua memória? Você já fez algo para praticar isso?
— … Nunca precisei e não tenho certeza se funcionaria. Por toda a minha vida, tive a capacidade de me lembrar de cada aspecto do meu passado.
— Acho que entendo a situação. — Lognir comentou. — Você é dependente dessa sua habilidade. Então, a bloqueie por um tempo e faremos algum treinamento de memória.
Eiro olhou de volta para Lognir, sem compreender o que ele queria dizer.
— … Bloquear?
O Dragão olhou para ele com os olhos semicerrados.
— Você não sabe como bloquear suas habilidades? Espera, é por isso que você não bloqueia sua aura? Você não consegue? — Como se estivesse olhando para uma criança, Lognir deu um passo para trás com um sorriso irônico enquanto Eiro o encarava de volta.
— O que quer que esteja falando, não acho que seja algo normal. Pelo menos não tanto quanto você acha.
— … Você realmente não sabe como bloquear sua aura? Você é uma criança ou algo do tipo?
— … Minha próxima evolução me transformará em um ser supremo.
— E você não sabe como caralhos bloquear sua aura, que tipo de idiota você é?! — Lognir gritou. — Tudo bem, então faremos isso primeiro. Trabalharemos no básico de bloquear Aura, depois trabalharemos em bloquear suas habilidades de ‘Carta’, já que elas são estranhas de qualquer maneira, então prosseguiremos bloqueando suas habilidades normais.
Eiro ficava mais confuso quanto mais Lognir dizia, até que compreendeu do que ele estava falando e o que isso faria para Eiro.
— … Se eu consegui atingir um nível parecido com o seu quando se trata de Bloquear Aura, conseguirei me esconder de pessoas normais. Será muito mais fácil de fazer minhas coisas sem me preocupar em ser visto por pessoas aleatórias.
— Ah, isso também, mas acho que o efeito de aprimoramento pode ser útil para você a longo prazo.