
Volume 4 - Capítulo 329
A Virtude do Demônio
— Ei, rapaz, você realmente acha que é uma boa ideia eu ir com você? Estamos falando sobre um Dragão aqui, sabia? — Armodeus comentou um tanto nervoso enquanto subia a montanha. Eiro virou a cabeça par ele e franziu as sobrancelhas.
— É claro, por que você não deveria ir? Você está comigo como meu guia. Não tenho ideia do que acontecerá aqui e magia de memória é algo bastante instável. Se algo acontecer comigo, preciso que esteja aqui para me ajudar. — Eiro comentou como se fosse óbvio, mas Armodeus ainda tinha algumas preocupações.
— Mesmo assim, eu-
— Armodeus. — Eiro interrompeu o Anão Ancião. —Tentarei convencer Lognir a dar para você algumas escamas de Dragão se for comigo sem reclamar.
O artesão o encarou e estalou a língua. Ele sabia que não tinha muitas chances de trabalhar com materiais assim, mesmo que fosse o ‘Rei dos Artesãos’. Esses materiais eram tão raros que até Armodeus tinha dificuldade em obtê-los.
— Sim, tudo bem. — O Anão resmungou baixinho enquanto Bavet suspirava na orelha de Eiro na forma de uma cobra.
— Heh, você é realmente um Demônio-Pessoa, hein?
— Cala a boca. — Eiro disse com um sorriso sarcástico enquanto virava e se certificava que Lugo conseguia escalar a íngreme parede rochosa. Bem, não era tão íngreme, considerando que Eiro e Gondos estavam constantemente manipulando a rocha ao redor deles para criar um caminho em que pudessem viajar com a carruagem, mas ainda era um pouco mais íngreme do que as estradas comuns.
Bem, Lugo conseguiu com tranquilidade, como Eiro esperava, então ele voltou sua atenção para o que estava à frente enquanto Gondos desfazia o caminho para que não tivessem nenhum perseguidor.
A única coisa com que Eiro estava preocupado era a incrível facilidade que as pessoas no pé da montanha tinham para ver a carruagem se tivessem uma percepção decente. Seria problemático se alguém tentasse segui-los. Bem, mesmo se isso acontece, considerando que havia um Dragão no topo desta montanha, Eiro não estava muito preocupado.
Pelas próximas horas ele e os outros continuaram subindo a ladeira criada com magia, até que chegaram à plataforma um tanto plana no pico, que ele mesmo aplainou para que pudessem dar uma pausa e caminhar um pouco. Os cavalos também precisavam descansar.
Eiro continuou olhando ao redor e puxou sua mão para ao lado, agarrando algo no meio do ar. Quando abriu sua mão, segurava um pergaminho. Assim que o abriu, ele revelou um mapa.
— Algo errado? — Nelli questionou, embora ela, Gondos e Sarius já estivessem cientes de que algo estava estranho, pelo menos. Ao escutar as palavras da Náiade, o já preocupado Armodeus olhou para Eiro com uma carranca.
— Espera, o que foi, rapaz?
— … Nada, esse é o problema. Não há dúvidas de que esta é a montanha que deveríamos subir, mas, por alguma razão, não consigo sentir nada. Pensei que haveria algum tipo de barreira para manter a aura do Dragão escondida, mas esse também não é o caso. — Eiro murmurou.
Bavet deslizou pelo braço de Eiro para olhar mais de perto para o mapa.
— Solomon nos deu a informação errada? Ou talvez ele tenha saído daqui?
— … Não, esse não é o caso. Isso ainda deixaria um resquício de aura aqui… — O Demônio guardou o mapa de volta em sua Tesouraria enquanto encarava o resto da montanha. Ele retirou sua capa e abriu suas asas com algumas batidas. — Irei dar uma olhada rápida. Nelli, Gondos, Sarius, fiquem aqui, aviso se algo der errado. Protejam eles se precisarem.
— Tenha cuidado. — Nelli disse e ele assentiu, voando o resto da montanha para ver se conseguia encontrar Lognir em algum lugar, mas, mesmo quando parou no pico dela, não havia nada.
— Urgh… Talvez este seja o lugar errado? — Eiro murmurou enquanto uma voz entrava em suas orelhas.
— Talvez, dependa do que está procurando.
— Deveria haver um Dragão aqui, mas- — O Diabrete começou, respondendo à voz como se fosse natural, mas conseguiu perceber o que estava acontecendo muito rápido, usando o truque que usou na luta contra o Corvo.
Ele se ‘lembrou’ do instante e congelou o tempo para analisar a situação, mas, mesmo assim, Eiro não sabia o que aconteceu. Ele não sentiu ninguém se aproximar dele.
Mas ao considerar a situação…
— É prazer conhecê-lo, Lognir. — Eiro resmungou alto enquanto virava a cabeça para o lado. Ali, logo ao seu lado, estava um homem alto, bonito e musculoso. Ele tinha olhos branco-dourados e pupilas na forma de fendas. Seu cabelo, da mesma cor que seus olhos, estava despenteado e chegava até sua cauda.
Este homem vestia uma calça frouxa e uma veste que mal cobria a parte superior do seu corpo, embora essa fosse a intenção.
— Oh? Você conseguiu falar? — O homem disse com um sorriso amplo. — Como esperado da criança que Solomon enviou para me encontrar.
Eiro olhou para Lognir de cima a abaixo, tentando entender o que estava ocorrendo. Lognir estava parado na sua frente, mas Eiro mal conseguia senti-lo. Parecia como se essa imagem fosse desaparecer com um piscar de olhos.
— Parece que você está se saindo muito bem com minha Supressão de Aura… Isso é bastante extraordinário. Para outros, sou praticamente invisível. — Lognir disse curioso enquanto se inclinava para frente, mas Eiro esfregou a cabeça.
— Na verdade, é estranho que eu mal consiga me concentrar em você.
— É, sério? — O Dragão da Verdade riu. — Tenho milhares de anos, criança. Não há como eu me permitir ser pego por um pirralho superconfiante.
— … Certo. — Eiro resmungou baixinho. — De qualquer forma, podemos ir para outro lugar? Há uma caverna por aqui? Parece que irá nevar em breve.
Lognir estreitou os olhos enquanto olhava para Eiro, depois levantou a cabeça.
— O céu está claro, como você…
— Solomon não te contou nada sobre mim?
— Ele me disse que você é um Demônio, mas além disso? Nada. — O Dragão em forma humana comentou. — Mas não desvia da pergunta. Como consegue dizer que irá nevar? Quero dizer, eu sei, mas como você sabe?
Eiro cruzou os braços enquanto pensava na melhor forma de explicar isso.
— Bom… Principalmente por conta da quantidade de água evaporando nas áreas em que viajamos, combinando com os padrões do fluxo de vento e a temperatura do ar nesta região.
— … Entendo, então você possui o Domínio Supremo da Verdade dentro de você. Ele assumiu a forma da análise para você, hein?
— Em partes, sim, mas também em algumas outras formas. Consigo distinguir verdade de mentiras com mais facilidade. Ver através da magia sempre foi fácil, mas agora é ainda mais fácil se ela foi feita para enganar. — Eiro explicou. — Mas voltando ao assunto da caverna…
—Hm? Oh, certo, antes que este Demônio pequeno e frágil morra congelado. — Lognir sorriu enquanto se virava, pronto para descer parte da montanha de novo mas Eiro interrompeu.
— Na verdade, não posso morrer congelado. Pelo menos não com temperaturas normais. Fui abençoado pela Dama do Inverno.
— … Com licença? Mas você também possui um Domínio de Chamas, então como-
— Sobre isso… também fui abençoado pelo Rei das Salamandras e absorvi um Portal Espiritual que estava conectado ao Plano Elemental do Fogo. Acho que é isso que está sentindo.
Lognir encarou Eiro e soltou um suspiro baixo.
— Terei que conversar com Solomon sobre isso. Tenho que cuidar das crianças, ele não pode esperar que eu o veja sem tentar me divertir…
— … Irei ignorar isso por agora. Vamos descer, não quero que os cavalos fiquem doentes. Tenho alguém comigo que é bastante sensível ao frio.
Embora fosse mais do que óbvio que Lognir queria questionar Eiro por mais um tempo, ele decidiu que teria tempo mais que o suficiente para fazer isso mais tarde. Assim, o Dragão e o Demônio voltaram até a carruagem e Lognir liderou o caminho para que pudessem encontrar a caverna onde ele se aninhou esses dias.
Logo chegaram a uma parede vertical, um penhasco, onde Lognir parou. Antes que Eiro pudesse perguntar o que ele estava fazendo, o Dragão acenou a mão para o lado e a pedra se desfez, revelando o que estava além dela.
Foi um efeito similar ao que Lognir tinha em si mesmo. Nenhum dos outros estava prestando atenção no próprio Lognir. Como o Dragão disse, ele era ‘quase invisível’. Ele não queria que os outros o vissem nesta forma com tanta facilidade, pelo menos foi o que Eiro imaginou quando olhava para o comportamento e fala de Lognir.
Mas, agora que a caverna estava aberta, demorou alguns instantes para que os outros notassem. Eles não perceberam o que aconteceu até que Eiro dirigiu a carruagem pela entrada e até mesmo os cavalos estavam hesitantes. Eiro desceu e os levou pela mão e, assim que entrou, agiu normalmente de novo.
— … O que exata está acontecendo aqui. Onde estamos? — Armodeus questionou com uma carranca profunda e Eiro sorriu para ele.
— Estamos no ninho do Dragão, claro.
Com um sorriso amplo, Lognir se posicionou na frente deles. Agora havia espalho suficiente para sua transformação. Lognir começou a ser coberto por partículas de luz que se elevavam de sua pele e formavam a forma de um grande Dragão, que alcançava seis metros de altura por se sentar.
— De fato. — Lognir disse com um tom honroso.
Sua voz soava muito mais profunda e alta do que antes, o que veio do novo formato que seu corpo assumiu. Suas escamas eram da mesma cor branca-dourada que seu cabelo tinha antes e suas asas estavam deitadas ao lado do seu corpo… Era uma grande visão até mesmo da perspectiva de Eiro, assim como os outros que perceberam a existência de Lognir na frente deles.