A Virtude do Demônio

Volume 4 - Capítulo 328

A Virtude do Demônio

Eiro acordou de manhã, pronto para continuar a viagem para encontrar o Dragão da Verdade, o familiar de Solomon. O Demônio havia ajudado a enterrar o corpo do ancião na noite passada após seu falecimento e depois verificou os alojamentos dos Orcs para ter certeza de que estavam confortáveis.

Mas, agora, não havia muito mais que precisasse fazer. Armodeus já havia acordado para aprontar a carruagem, animado por vê-la em ação e o Demônio não o fez esperar muito tempo. Enquanto saía, esfregou a mão no focinho de Lugo para acordá-lo e Bavet deslizava na perna de Eiro em sua forma de cobra para se sentar no ombro dele na forma de uma águia.

Eiro não sabia por quê, mas parecia que Bavet preferia estar na forma de um animal ou monstro do que na forma de uma pessoa, mas, no fim, era escolha dele.

O Diabrete observou enquanto diferentes Goblins, Kobolds e até alguns Orcs ajudavam a trazer certos materiais para a carruagem, carregando-os. Eram em sua maioria Pedras Mágicas para Eiro, apesar de que a maior parte das que eram mineradas era mantida para a própria vila. Também havia alguns minérios que Armodeus tinha interesse, além disso, um pouco de carne de uma caçada recente, assim como alguns vegetais dos campos que os Goblins criaram há pouco tempo.

E bem na frente da carruagem estavam os três chefes da Vila dos Monstros: Gobo, Kitsue e a criança orc, Habojugikatsuge, ou ‘Boju’ como apelido. Gobo ainda não parecia tão feliz sobre ficar junto dos Kobolds, embora já parecesse ter se aproximado de Boju, o que deixou Eiro bastante feliz.

Entretanto, Kitsue parecia bastante apaixonada por Gobo, ao mesmo tempo que parecia hesitante em aceitar Boju e os outros Orcs enquanto o próprio Boju parecia feliz de falar com Gobo e sentia um pouco de culpa quando encarava Kitsue.

Esses três tinham uma dinâmica um tanto complicada, mas Eiro achava que eles ficaram bem com o tempo. Ele conhecia muito bem a personalidade de Gobo, então, embora estivesse bravo com Kitsue, depois de um tempo eles se aproximariam e Gobo perderia sua raiva.

— Há algo que vocês três queiram dizer antes de irmos? — Eiro perguntou. Gobo assentiu e respondeu com a única coisa que pensou ser adequada nesta situação.

— Tenha uma viagem segura, mestre. Desejo que tenha muito sucesso em sua missão de recuperar suas memórias com o grande Dragão da Verdade. — O Hobgoblin disse enquanto se curvava ligeira para frente. Com um sorriso um pouco estranho e sarcástico, Eiro olhou para ele.

— Claro, tentarei o meu melhor. Obrigado, Gobo. Tentarei trazer uma lembrancinha.

Com uma risada, Eiro olhou para a criança orc, a quem já queria dar algo. Embora Boju já conhecesse Linguagem Comum muito bem, ele nunca teve a chance de ler um livro. Então o Diabrete entregou alguns que ele poderia ler, tanto para descobrir mais sobre o mundo além da vila quanto para ganhar um pouco de experiência com a linguagem além do que o sistema lhe ensinou.

Claro, conversar com Gobo, Kitsue e os outros capazes de falar a Linguagem Comum também ajudaria nisso.

— Ob-Obrigado! — Boju exclamou. — Vou guardá-los como um tesouro!

Eiro sorriu enquanto colocava a mão na cabeça do orc.

— Tudo bem, você não precisa tratá-lo como um tesouro. Te levarei até minha mansão algum dia, onde deixarei você ler qualquer livro da minha biblioteca.

Boju olhou para o livro em suas mãos em contemplação profunda.

— O que é uma biblioteca…? Conheço a palavra, mas…

— Uma biblioteca é um cômodo com muitos, muitos livros dentro. — Gobo disse, alegre de ser capaz de ensinar algo para Boju. Parecia que o jovem orc ficou bastante excitado com esse conceito, considerando quão animado ficou com o único livro que já recebeu.

Eiro sorriu enquanto virava a cabeça, olhando para a frente da carruagem com os outros se reunindo ao redor do veículo. Mesmo agora, Armodeus ainda tentava aprimorar mais um pouco a carruagem, apesar de já estar incrível.

— Sabe que temos que sair agora, certo? — Eiro comentou e o Anão Ancião olhou para ele com um leve sorriso. — Eu sei, eu sei, mas, primeiro, me diga, o que você acha? — Armodeus perguntou. Com uma risada, Eiro olhou para a carruagem.

Havia runas escritas por toda parte, embora a maioria estivesse bem escondida. Por fora, a carruagem não parecia ter mudado muito, exceto pela rara runa esculpida nela, exposta.

Ele reconheceu algumas das runas nas rodas da carruagem de alto nível que Solomon havia emprestado para ele e diferentes tipos de gemas colocadas por todo o lugar.

Mas a parte mais importante era a forma como as diferentes pedras mágicas foram utilizadas para aprimorar a carruagem. As poucas Pedras Mágicas de Gravidade que Eiro deu para Armodeus foram usadas de duas formas.

Primeiro para diminuir o peso da carruagem em si, com algumas peculiaridades que o Anão Ancião queria dizer para Eiro.

Segundo, elas foram fundidas com as ferraduras que os cavalos tinham em seus cascos, também foram colocadas em suas testas com a ajuda das restrições deles.

Ele também conseguia ver alguns fios entrelaçados em suas crinas, o que era a forma como Armodeus criou a formação, o que parecia muito incrível para ele. De qualquer modo, essas coisas colocadas nos cavalos faziam com que parecessem muito mais leves enquanto seus passos tinham muito mais força.

Isso aumentaria a velocidade e estabilidade na estrada. Armodeus até chegou a sugerir que estava fazendo algo parecido para Lugo, para que o Cervo conseguisse viajar muito mais rápido do que antes.

Além disso, as Pedras Mágicas de Metal também foram utilizadas de forma muito impressionante. Primeiro, foram usadas para reforçar as rodas da carruagem, ao mesmo tempo que foram transformadas em algum tipo de ‘sistema de defesa instantâneo’ no caso de serem pegos desprevenidos quando Eiro estivesse ocupado.

Para Eiro, parecia que Armodeus adicionou algo extra às rodas e eixos da carruagem para aumentar o conforto. Isso tornaria as viagens com as crianças no futuro muito mais fáceis.

Assim, Eiro subiu na frente da carruagem enquanto Armodeus se esgueirava para o lado. Lugo já estava caminhando um pouco à frente e Bavet subiu no telhado da carruagem, sentado ali em sua forma de águia.

— Acho que está na hora de sairmos. — Eiro sorriu enquanto olhava para os monstros que se reuniram ao redor deles. Agora que Armodeus estava relaxando pela primeira vez na vila, já que terminou de melhorar a carruagem, esse ‘relaxamento’ acabou muito rápido, afinal fazia um tempo desde que Armodeus ficou cercado por tantos monstros. Mesmo que esses não fossem muito agressivos, ainda era algo estranho e difícil de se acostumar.

Eiro entendeu isso, motivo pelo qual não hesitou em começar a dirigir a carruagem em direção à saída ao longo da estrada que estava consertando com magia de terra, auxiliado e amplificado por Gondos.

Eles atravessaram o túnel enquanto Eiro acenava para os outros mais uma vez. Desta vez, assim que saiu para o outro lado do túnel da caverna, ele fechou a caverna com magia de terra. Ao considerar que esta Vila de Monstros agora tinha mais alguns magos de terra habilidosos, não havia razão para manter a entrada exposta e arriscar que pessoas a encontrassem.

Até que Eiro tivesse um pouco mais de poder político dentro deste país, além de ser amigo de Solomon, não queria expor a existência desse lugar para os outros. Talvez, depois que vencesse o torneio no futuro, poderia ser capaz de usar sua influência para dizer que este lugar era um dos seus ‘campos de treinamento’ pessoal. Isso impediria as pessoas de se aproximarem desse lugar sem justificativa, pelo menos.

Mas, até lá, Eiro queria manter esse lugar um segredo do máximo de pessoas possíveis. Embora, mesmo assim, não era isso que estava na mente dele neste instante. O que pensava agora era seu encontro com Lognir, o Dragão da Verdade.

‘Essa será a primeira vez que vejo um monstro desse tipo. Um que veio de uma verdadeira raça lendária de monstros, mesmo os mais humildes.’

Mesmo a maioria dos Dragões inferiores era vista como grandes seres, mas, apesar de que a maioria dos Dragões inferiores serem Monstros, Dragões verdadeiros eram, em sua maioria, Bestas Mágicas, por mais que fizesse pouco sentido. Algumas pessoas até diziam que eles nem poderiam ser relacionados.

Eiro estava mais do que só curioso com a verdade sobre essa situação, além do fato de que recuperaria as memórias que havia esquecido. Ele poderia ficar animado por ambos, não poderia?

De qualquer forma, o Demônio imaginou que, por algum tempo, teriam que continuar viajando em direção ao ninho do Dragão, que, por sorte, não estava muito longe.

Se não fosse pela curvatura do horizonte, era provável que conseguisse ver a montanha em que Lognir podia ser encontrado.

Mas, com essa carruagem, não demoraria muito para chegar lá. Na verdade, assim que voltaram pela planície, em vez de contornarem essa cadeia de montanhas, a diferença na carruagem e os cavalos se tornou evidente.

Estavam viajando com velocidades que um cavalo normal nunca conseguira alcançar e, embora ainda precisassem fazer pausas periódicas para ter certeza de que os cavalos estavam bem descansados, ainda conseguiram progredir muito mais rápido do que o normal.

Eiro teve que vestir seu disfarce de novo, pois o grupo entrou na cidade no pé da montanha que tinha que escalar para encontrar Lognir… O Diabrete parou a carruagem em um lugar conveniente enquanto ele e Armodeus planejavam como deveriam continuar.

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