
Volume 4 - Capítulo 327
A Virtude do Demônio
O orc idoso contou para Eiro, Bavet e Armodeus tudo o que sabia sobre o Rei dos Monstros. Para ser honesto, não havia muito, mas, Eiro não esperava o contrário. Só pensou que ele saberia mais.
Eiro foi criado para ser um drone irracional, um escudo de carne que não conseguiria nem mesmo matar uma criança quando fosse com tudo.
Este orc, por outro lado, foi criado para ser um líder. Para conservar o conhecimento que deveria levar aquela vila ao ponto que o Rei dos Monstros queria. Portanto, ele deveria ter nascido com muita inteligência, suficiente para decifrar detalhes que nem mesmo Eiro conseguiu com sua ‘Memória de um Escolar’.
A maioria das informações dele era relacionada ao tipo de ser que o Rei dos Monstros era. Sua aparência, sua personalidade na frente dos seus subordinados. Essas coisas não importavam muito, considerando que o Rei dos Monstros em questão morreu há centenas de anos. Pelo menos, permitiu que Eiro combinasse essa experiência prática com as coisas que pôde ler nos diários dos heróis do passado, diários que foram publicados como livros populares para o deleite das massas.
Isso o ajudou a descobrir o que era exagerado e o que era verdade, até certo ponto, mas o conhecimento mais importante que recebeu através das informações do Orc ancião foi pelo menos uma dúzia de habilidades que a maioria dos Reis dos Monstros parecia ter e como elas se mostraram em diferentes instâncias.
Primeiro, era óbvio que a habilidade de criar monstros artificiais, como Eiro, era algo que cada Rei dos Monstros possuía até certo ponto. Entretanto, o atual Rei dos Monstros, aquele que criou Eiro, era capaz de fazer em um nível ridículo e extenso. Se cada Rei dos Monstros conseguisse fazer isso, aquele que criou este Orc idoso teria criado toda a vila de uma vez, em vez de fazê-la crescer naturalmente.
Claro, era provável que houvesse mais algumas razões para isso, mas parecia muito aparente ao considerar as diferentes histórias que Eiro leu sobre as guerras contra os antigos Reis.
Além dessa habilidade, era lógico que todo Rei dos Monstros possuísse uma habilidade para aumentar a pressão que emitiam. Um tipo de <Aura do Rei>. Uma habilidade que até mesmo a classe ‘Rei’ tinha.
Solomon havia demonstrado para Eiro uma vez, era uma habilidade que aumentava bastante o Carisma de alguém em relação à liderança e provavelmente era a única coisa que permitia ao Rei dos Monstros manter os Nobres sob controle, além do seu poder superior.
E, por último, sua terceira habilidade era um tipo de coringa. Um efeito que aparecia em cada Rei dos Monstros de acordo com diferentes histórias, mas Eiro não tinha certeza se isso era algo relacionado a aprimorar as qualidades únicas dos monstros para certas direções, ou se era uma habilidade separada dada a cada Rei dos Monstros, que funcionava de forma diferente a cada vez.
Como parecia provável ser uma mistura de ambos, uma habilidade dada a cada Rei dos Monstros que adquiria certas propriedades dependendo das qualidades únicas do monstro base, Eiro escolheu chamar essa habilidade de <Domínio do Rei dos Monstros>.
Cada Rei dos Monstros poderia transformar qualquer área de sua escolha em seu domínio e este domínio se alteraria para ter as qualidades de vida perfeitas para esse Rei. Fosse uma floresta cheia de vida, um deserto escaldante ou uma tundra congelante. Poderia ser qualquer coisa.
Parecia haver mais coisas conectadas a essa habilidade específica, mas Eiro não conseguia descobrir cada detalhe dela com a pouca informação que tinha.
Eiro estava sentado em uma laje de pedra, em contemplação profunda, depois de escutar toda a informação que o orc idoso forneceu. Se ele quisesse derrotar o Rei dos Monstros, Eiro tinha que estar preparado para múltiplas coisas.
Primeiro, ser capaz de enfrentar vários monstros especializados que foram criados com o propósito de defender o castelo.
Segundo, construir uma resistência mental maior para ser capaz de afastar a aura do rei.
Terceiro, se tornar quase imune a diferentes tipos de terrenos extremos, ou pelo menos ao tipo específico que o domínio do Rei dos Monstros atual.
Sendo capaz de ver os pensamentos de Eiro na cara dele, Bavet o encarou irritado.
— Há muito tempo. Concentre-se em conseguir todas as suas memórias de volta. — Bavet reclamou. Eiro levantou a cabeça e olhou para a forma humanoide atual do slime concordando.
— Sim, você está certo. Preciso me tornar um nobre adequado primeiro. Acho que depois da minha próxima evolução, deve ficar tudo bem…
— Falando nisso… — Nelli começou enquanto aparecia ao lado de Eiro. — Você não tentou ‘atualizar’ sua conexão com a Carta faz um tempo, tentou?
Eiro encarou a Náiade em silêncio e afastou a cabeça de novo.
— Eu tinha outras coisas com que me preocupar, me deixa em paz. A probabilidade deve estar um pouco maior que quinze por cento. Lidarei com isso mais tarde.
— Uhum, claro. — Nelli revirou os olhos enquanto Eiro se levantava da laje em que estava sentado e caminhava até o Orc ancião.
— Vocês dois, posso ter uma conversa particular com ele? — O Demônio perguntou. Bavet e Armodeus saíram da caverna para que Eiro pudesse conversar com o Orc sobre algumas outras coisas que queria saber, mas não tinha vontade de compartilhar com os dois.
Nelli, Gondos e Sarius passavam todo o tempo com Eiro, então acabariam vendo esse lado dele de qualquer maneira, mas Eiro queria tentar esconder isso dos outros um pouco mais. Ele se sentia patético quando outros o viam assim, afinal.
— Você está se sentindo bem? — Eiro perguntou. Ele conseguia sentir que os órgãos internos do orc falhariam muito em breve. Ele se perguntava como conseguiram durar tanto em primeiro lugar.
— Tão bem quanto possível quando se está à beira da morte. — O orc riu, olhando profundamente nos olhos de Eiro. — Posso perguntar algo também, depois de tudo que revelei para você?
— Claro que pode. Seria injusto se não pudesse. — O Diabrete disse sem rodeios. Com uma respiração profunda, o Orc tentou reunir energia suficiente para essa conversa. — Por que você… mentiu para eles por mim?
Eiro sabia do que o Orc estava falando: sobre o fato de que ele não contou aos outros que foi este orc quem matou aqueles na vila. O Demônio pensou sobre isso por um tempo, mas não sabia por que fez isso em primeiro lugar. Mesmo assim, ele só poderia supor.
— Talvez… seja porque eu tenha um ponto fraco por idosos e crianças? — sugeriu Eiro. — Você meio que me lembra do homem que praticamente me criou até me tornar o que sou hoje. Embora… isso soe bastante frio, não é?
Com uma risada estranha, Eiro coçou sua cabeça.
— Em outras palavras, você me lembra do meu pai. Ele é uma das pessoas de quem esqueci tudo, mas ainda sei algumas coisas aqui e ali. A forma como ele olhava para fora da janela de sua cadeira todas as manhãs e noites, como se algo estivesse escrito nas linhas do horizonte. A forma como ele falava, embora você pareça me insultar muito menos do que ele costumava. A forma como você é reservado e tem mais do que os olhos podem ver. Meu pai queria uma morte pacífica e não queria que eu me ressentisse dele depois de sua morte. Achei que te dar isso seria uma boa ideia.
O orc idoso olhou para Eiro com uma expressão um tanto surpresa, já que não esperava esse tipo de sentimento de um monstro, muito menos de um demônio.
— Eu te lembro do seu pai, entendo…
— Mas, ao mesmo tempo, embora eu sinta tudo isso por você… Ao mesmo tempo, tenho nojo de você. — Eiro explicou. O orc não pareceu muito surpreso por esse fato. O Demônio continuou falando com os punhos cerrados. — Você desistiu. Você foi ‘forçado’ a matar aqueles do seu clã? Não fode. Se acha que há algo te acorrentando a fazer algo assim, eu preferiria encontrar qualquer maneira possível de morrer do que prejudicar um fio de cabelo do corpo dos meus entes queridos. Eu sei que você disse que não poderia se matar, mas ambos sabemos que deve ter havido maneiras. Sempre há brechas claras que podem ser exploradas em coisas como essa, mas você? Você deixou isso acontecer.
Eiro, em conflito com suas emoções, esfregou seus dedos contra seus olhos. Ele não sabia por quê, talvez porque aquele curto período tenha o desconectado de tudo, como se o reiniciasse até certo ponto, mas ele sentia emoções muito mais fortes agora do que jamais sentiu. Ou talvez isso tenha sido trazido à tona pelo ‘Domínio Absoluto da Verdade’. Talvez esse fosse o verdadeiro ‘eu’ dele. Alguém que era chorão e emotivo demais para o seu próprio bem.
Ele era bom em esconder isso, mas a mistura de tristeza quando pensava em Jura e a fúria quando pensava nas ações deste orc estavam o afetando de formas que ele não conseguia explicar nem para si mesmo.
— Obrigado por estar aqui nos meus últimos momentos… — O orc murmurou. — Depois de ver todos os meus camaradas morrerem, achei que havia superado o medo da morte… Sei que posso não merecer simpatia, mas ainda é bastante assustador, sabia? — O orc riu baixinho, mas Eiro decidiu permanecer em silêncio.
O orc estava certo. Ele não merecia nenhuma simpatia, mas não era como se Eiro estivesse em posição de odiar o Orc, dado o que o Demônio havia feito no passado e o que continuaria a fazer sem um momento de hesitação.
E depois que as ondas de notificações de morte passaram pelos olhos do Orc, Eiro encarou o cadáver na sua frente. Ele sentia ódio por ele, mesmo agora, mas ele também se odiava, então talvez estivesse tudo bem.
Eiro ficou ali parado e observou o orc afundar em si mesmo enquanto esse ser que estava vivo há alguns morria de repente.
E pela primeira vez que Eiro conseguia se recordar vivida, lágrimas fluíram pelas bochechas do Demônio, que recordava da morte do seu pai.